— Os demônios estrangeiros são diferentes, Ah Fat. Queria ficar sozinha com ele. Os demônios estrangeiros são tímidos. Agora, vá fazer o chá e fique quieta, senão mando você à rua de novo!
— Ele vai ser o novo Patrão? — perguntou Ah Fat, esperançosa. — Está mais do que na hora de ter um Patrão. Não é bom para uma pessoa não ter um Talo Ardente às portas do Portão de Jade. O seu Portão vai enferrujar e ficar seco como pó, com o pouco uso que tem! Ah, esqueci de lhe dar duas notícias. Parece que os Lobisomens são estrangeiros de Macau; atacarão de novo antes da lua nova. É o que se fala. Todos juram que é a verdade. E a outra notícia é que o Velho Tok
Tosse-Tosse, da barraca de peixe, disse que este demônio estrangeiro da Montanha Dourada tem mais ouro que o Tung Eunuco! — Tung era um eunuco lendário da corte imperial da Cidade Proibida de Pequim, cuja ambição de ouro era tão imensa que nem toda a China podia satisfazê-la; era tão odiado que o imperador seguinte empilhou sobre ele toda a sua fortuna ilícita, até que o peso do ouro o esmagou, e ele morreu. — Você já não é mais tão jovem, Mãezinha! Devemos levar isso a sério. Ele vai ser o tal?
— Espero que sim — disse Orlanda, devagar.
"Ah, sim", pensou fervorosamente, tonta de ansiedade, sabendo que Linc Bartlett era a oportunidade mais importante de toda a sua vida. Abruptamente, ficou apavorada outra vez de ter exagerado o seu jogo, e que ele não fosse voltar. Desatou a chorar.
Oito andares abaixo, Bartlett atravessou o pequeno saguão e saiu para se reunir à meia dúzia de pessoas que esperavam impacientes por um táxi. A chuva torrencial caía agora constantemente, e descia do ressalto de concreto para se misturar à torrente que descia, como um pequeno rio, pela Kotewall Road, alagando as sarjetas, os bueiros há muito entupidos, carregando consigo pedras, lama e vegetação que despencavam das encostas e ladeiras altas. Carros e caminhões que subiam ou desciam cuidadosamente a rua íngreme espadanavam nos redemoinhos e torvelinhos, os limpadores de pára-brisa funcionando à toda, os vidros embaçados.
Do outro lado da rua, a montanha se erguia, muito íngreme, e Bartlett viu a infinidade de fios de água que cascateavam pelas altas barragens de concreto que escoravam a terra. Ervas daninhas nasciam entre as rachaduras. Parte de um torrão ensopado se destacou e veio caindo para se juntar a mais entulho, pedras e lama. Um dos lados da barragem era uma garagem murada, e, subindo a encosta, havia uma mansão chinesa meio escondida, toda enfeitada, com um telhado de ladrilhos verdes e dragões nas empenas. Ao lado dela havia o andaime de uma construção e escavações para um prédio de muitos andares. Ao lado, outro prédio de apartamentos, cujo topo desaparecia entre a neblina.
"Tantas construções!", falou Bartlett com seus botões. "Talvez devamos nos meter nesse ramo, aqui. Gente demais catando terra de menos significa lucro, muito lucro. E amortizado ao longo de três anos... Meu Deus!"
Um táxi se aproximou, indiferente às poças d'água. Alguns passageiros saltaram e outros entraram, resmungando. Um casal chinês saiu da porta do prédio e foi passando por ele e pelos outros, até a frente da fila... uma matrona tagarela e barulhenta, com um imenso guarda-chuva, um impermeável caro por cima do cheong-sam, o marido manso e humilde ao lado. "Foda-se, boneca", pensou Bartlett, "não vai tirar a minha vez. " Ajeitou-se numa posição melhor. Seu relógio marcava dez e trinta e cinco.
"E agora?", perguntou-se. "Não deixe que Orlanda o perturbe!
"A Struan, ou Gornt?
"Hoje é dia de escaramuça, amanhã — sexta-feira —, amanhã é dia de arrasar, o fim de semana é para reagrupar as forças, segunda é o dia do ataque final, e lá pelas três horas devemos conhecer o vencedor.
"Quem estou querendo que vença? Dunross ou Gornt?
"Gornt é um cara de sorte... foi um cara de sorte", pensou, confuso. "Meu Deus, Orlanda é uma parada! Será que a teria largado, se fosse ele? Claro. Claro que sim. Bem, talvez não... nada aconteceu. Mas teria me casado com ela no minuto em que isso fosse possível, e não mandado a nossa filha para Portugal... Gornt é um filho da puta safado. Ou danado de esperto. Qual dos dois?
"Ela botou as cartas na mesa direitinho... como a Casey, mas de modo diferente, embora o resultado seja o mesmo. Agora tudo está complicado, ou simples. Qual dos dois?
"Será que quero me casar com ela? Não.
"Quero deixá-la na mão? Não.
"Quero ir para a cama com ela? Claro. Então, planeje uma campanha, manobre até levá-la para a cama, sem compromisso. Não faça o jogo da vida pelas regras femininas. Vale tudo na guerra e no amor. E o que é o amor, afinal de contas? É como disse a Casey: o sexo é apenas uma parte dele.
"Casey. E quanto a ela? Não vai ser preciso esperar muito pela Casey, agora. E então vai ser a cama, o casamento, um adeus, ou o quê? Deus me livre de me casar de novo. Uma vez só já foi terrível. É estranho, há muito tempo que não penso nela. "
Quando Bartlett voltara do Pacífico, em 45, conhecera-a em San Diego, e casara-se em uma semana, cheio de amor e ambição. Jogara-se de corpo e alma no ramo de construções, no sul da Califórnia, começando o seu próprio negócio. A época era adequada na Califórnia, todo tipo de construção florescendo. O primeiro filho nascera dali a dez meses, o segundo um ano mais tarde, e o terceiro dez meses depois. E ele trabalhando o tempo todo, inclusive sábados e domingos, curtindo o trabalho. Era moço e forte, e estava tendo um êxito imenso. Mas estavam se afastando cada vez mais. Depois as brigas e as lamentações, e o "Você não tem mais tempo para passar conosco, e fodam-se os negócios, não me importam os negócios, e quero ir para a França e Roma, e por que você não vem cedo para casa?, você tem uma namorada, sei que tem uma namorada... "
Mas não havia namorada, só trabalho. E então, certo dia, a carta do advogado. Pelo correio.
"Merda", pensou Bartlett com raiva, sentindo ainda a mesma dor. "Mas, sou apenas um entre milhões, e já aconteceu antes e vai acontecer outra vez. Mesmo assim, uma carta dela, um telefonema dela, ainda machuca. Machuca e custa dinheiro. Custa um bocado de dinheiro, e os advogados ficam com a maior parte, uma boa parte, e habilmente atiçam o fogo entre nós para lucrarem ainda mais. Claro. Somos o ganha-pão deles, todos somos! Do berço à maldita sepultura, os advogados fomentam encrencas e se alimentam do nosso sangue. Merda. Os advogados é que são a verdadeira praga dos Estados Unidos. Só encontrei quatro bons em toda a minha vida! E o resto? São parasitas de todos nós. Ninguém está a salvo!
"É. Aquele filho da mãe do Stone! Ganhou uma fortuna à minha custa, transformou-a numa megera, virou-a, e às crianças, contra mim para todo o sempre e quase me destruiu, e ao meu negócio. Espero que o filho da mãe apodreça por toda a eternidade!"
Com esforço, Bartlett desviou o pensamento da ferida aberta e olhou para a chuva. Lembrou-se de que era apenas dinheiro, e que estava livre, livre, e isso o fez sentir-se ótimo.
"Deus! Estou livre, e existem Casey e Orlanda. "
Orlanda.
"Meu Deus!", pensou, a dor do desejo ainda presente, "eu estava doidão ainda há pouco. E Orlanda também. Puta merda, já é ruim o bastante com a Casey, mas agora são duas. "
Há dois meses não dormia com uma garota. A última vez fora em Londres, um encontro casual, um jantar casual, depois a cama. Ela estava hospedada no mesmo hotel, era divorciada, e não tinha havido problema. "O que foi que Orlanda disse? Uma trepada amistosa e um adeus encabulado? É, isso aí. Mas aquela moça não era encabulada. "
Ficou na fila, satisfeito, sentindo-se imensamente vivo, olhando a chuvarada, achando fantástico o cheiro da chuva na terra, a rua atulhada de pedras e lama, a torrente fazendo redemoinhos numa fenda grande do calçamento, e dançando no ar como cascatas de um riacho.
"A chuva vai trazer muita encrenca", pensou. "E Orlanda é muita encrenca, meu chapa. Claro. Mesmo assim, tem que haver um meio de levá-la para a cama. O que há nela que o deixa assim pirado? Parte é o rosto dela, parte é o corpo, parte é o olhar, parte é... Deus, admita, ela é toda mulher, e toda encrenca. É melhor esquecer Orlanda. Juízo, juízo, meu chapa. Como disse Casey, a fulana é dinamite!"