— Tome cuidado, Quinta Sobrinha — disse.
— Sim, claro, Sexto Tio. Posso ir até o fim com o senhor? — perguntou ela, alegremente.
— Só até a barraquinha de doces. Cuidado! Olhe, mais um caco de vidro!
— O Honorável Avô vai morrer?
— Cabe aos deuses decidir. A hora da morte é decisão dos deuses, não nossa, portanto, para que nos preocuparmos, heya?
— É — concordou ela, com ar importante. — É, os deuses são os deuses.
"Que todos os deuses afaguem o Honorável Avô e tornem suave o resto da sua vida", rezou ele, depois acrescentou, com cuidado, por medida de segurança:
— Ave Maria Mãe e José, abençoem o velho Avô. "Quem sabe se o Deus cristão, ou mesmo os deuses reais existem?", perguntou-se. "Melhor apaziguar a todos, se possível. Não custa nada. Talvez ajudem. Talvez estejam dormindo, ou tenham saído para almoçar, mas tudo bem. A vida é a vida, os deuses são os deuses, o dinheiro é o dinheiro, as leis têm que ser obedecidas, e hoje tenho que ser muito vivo. "
Na noite anterior, ele saíra com o sargento comissionado Mok e o Cobra. Fora a primeira vez que eles o levaram numa de suas batidas especiais. Haviam invadido três antros de jogo, mas, curiosamente, haviam deixado em paz cinco outros, muito mais prósperos, embora estivessem localizados no mesmo andar do mesmo cortiço, e ele pudesse ouvir o barulho das pedras de mah-jong e os gritos dos crupiês de fan-tan.
"Dew neh loh moh", pensou, "quem me dera poder ficar com parte do suborno!" Mas logo acrescentou mentalmente: "Afaste-se de mim, Satã! Prefiro muito mais fazer parte do sei, porque então terei um emprego seguro e importante para o resto da vida, conhecerei todo tipo de segredos, e esses segredos me protegerão, e então, quando me aposentar, os segredos farão de mim um homem rico".
Viraram uma esquina e chegaram à barraquinha de doces. Ele pechinchou com a velha desdentada por um minuto ou dois, depois pagou-lhe duas moedas de cobre, e ela deu à garotinha um bolinho de arroz-doce e uma boa porção de pedaços de casca de laranja seca ao sol, puxa-puxa, agridoces e cheirosos, enrolados num pedaço de jornal.
— Obrigada, Sexto Tio — disse a garotinha, abrindo um sorriso sob o chapelão.
— Espero que goste, Quinta Sobrinha — retrucou ele, cheio de carinho, satisfeito porque ela era bonita. "Se os deuses nos favorecerem, ela vai crescer e ser muito bonita", pensou, contente, "e então poderemos vender a virgindade dela por uma boa quantia, e depois os seus serviços, lucrativamente, para o bem da família. "
"Wu Óculos sentia-se muito orgulhoso por ter podido fazer tanto por esse ramo da família, nas horas de dificuldade. "Todos seguros e alimentados, e agora a minha porcentagem da fábrica de flores de plástico do Nono Tio, negociada tão pacientemente, pagará, com sorte, o meu aluguel daqui a um ou dois anos, e posso comer um bom mingau de arroz de Ning-tok grátis, três vezes por semana, o que me ajuda a poupar dinheiro, e evita que arranje dinheiro de suborno, tão fácil de obter, mas que arruinaria o meu futuro.
"Não. Que todos os deuses sejam testemunhas! Não vou aceitar dinheiro de suborno enquanto houver chance de entrar para o sei, mas não é sensato pagarem-nos tão pouco. Recebo trezentos e vinte HK por mês, depois de dois anos de serviço. Ayeeyah, é impossível compreender os bárbaros!"
— Agora, trate de ir andando, que eu volto amanhã — disse ele. — Cuidado onde pisa.
— Claro, Tio!
Ele se inclinou e ela o abraçou. Ele retribuiu o abraço e foi embora. Ela foi subindo a colina, com parte do bolinho de arroz já na boca, o gosto adocicado e enjoativo do doce de laranja, tão delicioso!
A chuva era forte e monótona. A água que extravasava do bueiro inundado carregava entulho pela trilha entre os barracos, mas ela subia a trilha com cuidado, desviando-se do entulho, fascinada pela corrente. Havia lugares em que a água era funda, e ali, onde o caminho era mais íngreme, parecia quase uma cascata. Sem aviso prévio, uma lata de cinco galões, com as beiradas irregulares, veio descendo com violência na direção dela, deixando de atingi-la por pouco e indo furar uma parede de papelão.
Ela ficou paralisada de susto.
— Vá andando, não há nada para roubar aqui! — berrou para ela um morador furioso. — Vá para casa! Não devia estar aqui. Vá para casa!
— Sim... sim — disse ela, e começou a andar depressa, a subida agora mais difícil. Nesse momento, a terra logo abaixo dela cedeu, e começou o deslizamento. Centenas de toneladas de lama, pedra e terra desataram a deslizar, enterrando tudo em sua descida. Em questão de segundos, descera mais de cinqüenta metros, destruindo as estruturas frágeis, dispersando homens, mulheres e crianças, enterrando alguns, mutilando outros, abrindo uma clareira lamacenta onde antes era a aldeia.
Então parou. Tão subitamente como começara.
Em toda a encosta fez-se um grande silêncio, quebrado apenas pelo ruído da chuva. Abruptamente, o silêncio cessou. Começaram os gritos e pedidos de socorro. Mulheres e crianças saíram correndo dos seus barracos poupados, abençoando os deuses pela sua segurança, aumentando o pandemônio e os lamentos de socorro. Amigos ajudavam amigos, vizinhos ajudavam vizinhos, mães procuravam os filhos, filhos, os pais, mas a grande maioria ficava apenas parada na chuva, abençoando a sua sorte por ter escapado do deslizamento.
A garotinha ainda se equilibrava na beirada do abismo onde a terra desabara. Olhava para dentro dele, incrédula. Uns três metros abaixo dos seus pés havia agora pontas agudas de rochas e lama, morte onde segundos antes era terra firme. A beirada estava desmoronando, e pequenas avalanches de lama e pedra desciam para dentro do abismo, ajudadas pelas águas que transbordavam do bueiro. Sentiu que escorregava. Com cuidado, deu um passo para trás; porém, um outro tanto de terra cedeu. Então ela parou, apavorada, os restos do bolinho de arroz ainda firmemente seguros nas mãos. Enterrou os dedos dos pés no solo macio, para tentar manter o equilíbrio.
— Não se mexa! — gritou um velho.
— Afaste-se da beirada! — berrou outro, e os demais olhavam, esperavam e prendiam a respiração para ver o que os deuses decidiriam.
Então uma lasca de dez metros da beirada desabou, e caiu dentro do buraco, levando consigo a garotinha. Ela ficou enterrada, mas só um pouquinho. Até os joelhos. Certificou-se de que seu bolinho de arroz estava seguro, e só então desatou a chorar.
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11h30m
O carro de polícia do superintendente Armstrong abriu caminho entre as multidões iradas que lotavam a rua diante do Ho-Pak, transbordando das calçadas, dirigindo-se para a delegacia de Aberdeen Leste. Outras turbas congestionavam as ruas diante de todos os outros bancos da área, pequenos ou grandes (até mesmo o Victoria, que ficava do outro lado da rua, em frente ao Ho-Pak), todo mundo esperando impaciente para sacar seu dinheiro.
Por toda parte a atmosfera estava volátil e perigosa, com a chuva torrencial aumentando a tensão. As barricadas erguidas para controlar a entrada e a saída das pessoas nos bancos eram guarnecidas por policiais igualmente irritados e ansiosos — vinte para mil pessoas, desarmados, exceto pelos cassetetes.
— Graças a Deus pela chuva — resmungou Armstrong.
— Senhor? — perguntou o motorista, o barulho irritante dos limpadores de pára-brisa mal adaptados abafando a sua voz.
Armstrong repetiu em voz mais alta, e acrescentou:
— Se estivesse quente e úmido, toda esta porra de lugar estaria pegando em armas. A chuva é uma dádiva dos céus.
— Sim, senhor. É, sim.
Dali a pouco o carro parou diante da delegacia. Ele entrou, apressado. O inspetor-chefe Donald C. C. Smyth estava à sua espera, com o braço esquerdo na tipóia.
— Desculpe ter demorado tanto — disse Armstrong. — O maldito tráfego está com um engarrafamento de quilômetros.
— Não faz mal. Desculpe, mas estou com pouca gente, meu velho. Aberdeen Oeste está colaborando, e a Central também, mas também têm lá os seus problemas. Merda de bancos! Teremos que nos contentar com um tira nos fundos — já está em posição, para o caso de algum dos bandidos querer levantar vôo — e nós na frente, com Wu Óculos.