— Obrigado pelo café. É o melhor que já tomei em muitos anos. Vamos indo?
Desajeitadamente, Smyth vestiu a capa de chuva do uniforme sobre a farda bem-cortada, ajeitou o braço na tipóia, pôs o quepe no ângulo atrevido de costume e saiu na frente. Enquanto estavam a caminho, Armstrong fez Wu repetir o que tinha acontecido, o que fora dito pelo jovem que afirmava ser um dos Lobisomens, e depois pela velha amah.
— Muito bem, Wu — disse Armstrong, quando o rapaz acabou. — Um excelente trabalho de vigilância e investigação. Excelente. O inspetor-chefe Smyth me falou que você quer entrar para o sei.
— Sim, senhor.
— Por quê?
— É importante, um setor importante do Departamento Especial, senhor. Sempre me interessei pela segurança, por manter nossos inimigos longe e a colônia, segura, e acho que seria muito interessante e importante. Gostaria de ajudar, se pudesse, senhor.
Momentaneamente, ficaram de ouvido atento ao gemido distante dos carros de bombeiro que vinha da colina acima.
— Algum filho da mãe cretino derrubou mais um fogareiro — comentou Smyth, com azedume. — Pombas, graças a Deus pela chuva!
— É — concordou Armstrong, depois virou-se para Wu. — Se os fatos confirmarem o que você relatou, indicarei o seu nome para a de ou para o sei.
Wu Óculos não pôde conter o amplo sorriso.
— Sim, senhor. Obrigado, senhor. Ah Tam é mesmo da minha aldeia. É sim, senhor.
Dobraram num beco. Multidões de fregueses, barraqueiros e lojistas debaixo de guarda-chuvas ou toldos de lona observaram-nos sombria e desconfiadamente, pois Smyth era o quai loh mais conhecido e temido em Aberdeen.
— É ali, senhor — sussurrou Wu.
Conforme o combinado, Smyth parou casualmente na barraca, do lado de fora da porta de entrada, olhando ostensivamente os legumes, o que deixou o proprietário imediatamente em choque. Armstrong e Wu passaram pela entrada, depois viraram-se abruptamente, e os três convergiram para o mesmo ponto. Subiram as escadas rapidamente, enquanto os dois policiais fardados que os seguiam a uma distância segura se aproximaram para cobrir a porta da entrada. Logo que a passagem estreita ficou segura, um deles subiu depressa um beco ainda menor, e deu a volta para se certificar de que o detetive à paisana ainda estava em posição, vigiando a única saída existente. Depois voltou correndo para reforçar as barricadas pouco guarnecidas diante do Victoria.
Por dentro o cortiço era tão esquálido e sujo quanto por fora, com entulho e lixo em cada patamar. Smyth ia na frente. Parou no terceiro patamar, desabotoou o coldre do revólver e se afastou para o lado. Sem hesitar, Armstrong jogou o corpo contra a porta frágil, arrombou-a e entrou rapidamente. Smyth seguiu-o de imediato, e Wu Óculos ficou de guarda na porta, nervoso. A sala era suja, com sofás e poltronas velhos, cortinas velhas e encardidas, o cheiro adocicado e rançoso de ópio e óleo de cozinha no ar. Uma matrona corpulenta de meia-idade fitou-os, boquiaberta, e largou o jornal. Os dois homens se dirigiram para as portas internas. Smyth abriu uma delas e deparou com um quarto de dormir desmazelado, a outra revelou um banheiro e uma privada sujos, a terceira outro quarto atulhado com catres para quatro pessoas, ainda por arrumar. Armstrong abriu a última porta, que dava para uma cozinha minúscula, atulhada, nojenta, onde Ah Tam se debruçava sobre uma pilha de louça suja na pia encardida. Ela o fitou, assustada. Às suas costas, outra porta. Imediatamente, ele se dirigiu para ela e a escancarou. Também estava vazio. Era mais um armário do que um quarto, sem janelas, com um respiradouro aberto na parede e espaço suficiente apenas para encaixar o pequeno catre de cordas, sem colchão, e uma cômoda desconjuntada.
Ele voltou para a sala, Ah Tam atrás dele, arrastando os pés. A respiração dele era normal, e seu coração estava se acalmando. A busca levara apenas alguns segundos. Smyth pegou os papéis e disse, meigamente:
— Lamento interromper, madame, mas temos um mandado de busca.
— Wat?
— Traduza para nós, Wu — ordenou Smyth, e imediatamente o jovem policial repetiu o que fora dito, e, como fora previamente combinado, começou a agir como se fosse o intérprete de dois policiais quai loh ignorantes que não sabiam falar cantonense.
A mulher ficou de queixo caído.
— De busca? — esganiçou-se. — Para revistar o quê? Nós aqui obedecemos a lei! Meu marido trabalha para o governo e tem amigos importantes, e se vocês estão procurando a escola de jogatina, não temos nada a ver com ela, e fica no quarto andar, nos fundos, e também não sabemos nada das piranhas fedorentas que se instalaram no 16 e que trabalham até altas horas, fazendo com que o resto de nós, gente civi...
— Chega! — falou Wu, bruscamente. — Somos policiais tratando de assuntos importantes! Esses senhores da polícia são importantes! Você é a mulher de Ch'ung, o lixeiro?
— Sou — respondeu, carrancuda. — O que quer da gente? Não fizemos na...
— Chega! — interrompeu Armstrong, em inglês, com arrogância deliberada. — Aquela é Ah Tam?
— Você! É Ah Tam?
— Quem, eu? Wat? — disse a velha amah, puxando nervosa o avental, sem reconhecer Wu.
— Então é Ah Tam! Está presa.
Ah Tam ficou branca, e a mulher de meia-idade soltou um palavrão e disse, atropeladamente:
— Ah! Então estão atrás de você! Hum, não sabemos nada sobre ela, exceto que a tiramos das ruas há alguns meses e lhe demos casa e um sala...
— Wu, diga a ela para calar a boca!
Ele disse, com maus modos. Ela obedeceu, ainda mais carrancuda.
— Esses senhores querem saber se tem mais alguém aqui.
— Claro que não. São cegos? Não violaram a minha casa, como assassinos, e viram com seus próprios olhos? — disse a megera, com truculência. — Não sei nada de nada.
— Ah Tam! Esses senhores querem saber onde fica o seu quarto.
A amah conseguiu falar, e começou a atropelar as palavras:
— O que quer comigo, Honorável Policial? Não fiz nada, não entrei ilegalmente, tenho meus documentos desde o ano passado. Não fiz nada. Sou uma pessoa civilizada, cumpridora das leis, que trabalhou a vida to...
— Onde fica o seu quarto? A mulher mais moça apontou.
— Ali — disse, na sua voz esganiçada e irritante —, onde mais poderia ficar? Claro que fica ali, depois da cozinha! Esses demônios estrangeiros não têm juízo? Em que outro lugar morariam as criadas? E você, seu verme velho! Metendo gente honesta em encrenca! O que foi que ela fez? Se roubou legumes, não tenho nada a ver com isso!
— Quieta, ou a levaremos para o nosso quartel-general, e na certa o juiz vai querer mantê-la sob custódia! Quieta!
A mulher ia começar a xingar, mas se conteve.
— Bem, agora... — começou a dizer Armstrong. Então, notou que vários chineses curiosos espiavam do patamar para dentro da sala. Ele os fitou, deu um passo repentino na direção deles, e eles sumiram. Fechou a porta, disfarçando o seu divertimento. — Agora, pergunte às duas o que sabem sobre os Lobisomens.
A mulher fitou Wu, boquiaberta. Ah Tam ficou ainda mais cinzenta.
— Quem, eu? Lobisomens? Nada! Por que iria saber sobre aqueles seqüestradores nojentos? O que têm a ver comiGo? Nada, absolutamente nada!
— E quanto a você, Ah Tam?
— Eu? Absolutamente nada — disse, em tom queixoso. — Sou uma amah respeitável, que faz o seu serviço, e nada mais!
Wu traduziu as respostas delas. Os dois homens notaram que a tradução era precisa, rápida e fácil. Os dois eram pacientes, e continuaram a fazer o joguinho que já tinham feito tantas vezes antes.
— Diga a ela que é melhor falar a verdade, e depressa
— falou Armstrong, olhando para ela de cara fechada. Não tinha raiva dela, e nem Smyth tinha. Só queriam a verdade. A verdade poderia levar à identidade dos Lobisomens, e quanto mais cedo os bandidos fossem enforcados por assassinato, mais fácil seria controlar Hong Kong, e mais cedo os cidadãos cumpridores da lei, incluindo eles próprios, poderiam ir tratar da sua vida, ou dos seus passatempos — ganhar dinheiro, andar com mulheres, apostar nas corridas. "É", pensou Armstrong, com pena da velha. "Vinte dólares contra um grampo quebrado como a megera não sabe de nada, mas Ah Tam sabe mais do que jamais nos contará. " — Quero a verdade. Diga-lhe isso!