— Verdade? Que verdade, Honorável Senhor? Como poderia esta pobre coitada ser...
Armstrong ergueu a mão dramaticamente.
— Chega!
Esse era outro sinal combinado. Imediatamente Wu Óculos começou a falar no dialeto de Ning-tok, que sabia que os outros dois não compreendiam.
— Irmã Mais Velha, sugiro que fale rápida e claramente. Já sabemos de tudo!
Ah Tam fitava-o, boquiaberta. Possuía apenas dois dentes tortos na arcada inferior.
— Hem, Irmão Mais Moço? — replicou no mesmo dialeto, desprevenida. — O que quer de mim?
— A verdade! Sei tudo a seu respeito! Ela olhou para ele, sem reconhecê-lo.
— Que verdade? Nunca o vi mais gordo!
— Não se lembra de mim? No mercado de aves? Você me ajudou a comprar uma galinha, e depois tomamos chá juntos. Ontem. Não se lembra? Contou-me sobre os Lobisomens, disse que iam dar-lhe uma enorme recompensa...
Os três viram o lampejo momentâneo nos olhos dela.
— Lobisomens? — começou, em tom de queixume. — Impossível! Foi outra pessoa. Você me acusa falsamente. Diga aos Nobres Senhores que nunca o vi...
— Cale a boca, seu bagulho velho! — disse Wu, bruscamente, e soltou um monte de palavrões. — Você trabalhava para Wu Ting-top, e sua patroa se chamava Fang-ling. Ela morreu há três anos, e eles eram donos da farmácia da encruzilhada! Eu mesmo conheço bem o local!
— Mentiras... mentiras...
— Diz que é tudo mentira, senhor.
— Ótimo. Diga-lhe que vamos levá-la para a delegacia. Lá, ela falará.
Ah Tam começou a tremer.
— Tortura? Vão torturar uma velha? Ai, ai, ai...
— Quando é que esse Lobisomem vai voltar? À tarde?
— Ai, ai, ai... não sei... disse que viria me ver, mas o ladrão não voltou mais. Emprestei-lhe cinco dólares para ir para casa e...
— Onde era a casa dele?
— Hem? Quem? Oh, ele... falou que era parente de um parente e... não me lembro. Acho que falou em North Point... não me lembro de nada.
Armstrong e Smyth esperaram, sondaram, e logo ficou evidente que a velha pouco sabia, embora se esquivasse às sondagens, enfeitando cada vez mais as mentiras.
— Vamos levá-la, de qualquer modo — disse Armstrong. Smyth concordou.
— Dá para você segurar as pontas até que eu mande uns dois homens? Acho que já está na hora de eu voltar.
— Claro. Obrigado.
Ele se retirou. Armstrong mandou Wu ordenar às duas mulheres que ficassem sentadas e caladas, enquanto ele fazia a revista. Elas obedeceram, assustadas. Ele entrou na cozinha e fechou a porta. Imediatamente, Ah Tam começou a puxar a sua longa trança suja.
— Jovem Irmão — sussurrou astutamente, sabendo que a patroa não entendia o dialeto de Ning-tok —, não sou culpada de nada. Só conheci o jovem demônio, como conheci você. Não fiz nada. As pessoas da mesma aldeia devem se manter unidas, heya? Um homem bonitão como você precisa de dinheiro... para as garotas, ou para a mulher. É casado, Honorável Irmão Mais Moço?
— Não, Irmã Mais Velha — disse Wu cortesmente, dando-lhe corda, como mandaram que desse.
Armstrong estava na porta do quartinho de Ah Tam, perguntando-se pela milionésima vez por que os chineses tratavam seus criados tão mal, por que os criados aceitavam trabalhar em condições tão miseráveis e nojentas, por que dormiam, moravam e prestavam serviços leais durante uma vida inteira, em troca de uma ninharia, pouco respeito e nenhum amor.
Lembrava-se de ter perguntado isso ao pai. O velho policial dissera:
— Não sei, meu rapaz, mas acho que é porque eles se tornam parte da família. Geralmente, é um serviço vitalício. Geralmente, a família deles também faz parte do trato. O criado se integra, e o how chew, ou seja, os aspectos positivos, é considerável. Não é preciso dizer que todos os criados se apossam de uma parte do dinheiro das despesas da casa, da comida, das bebidas, do material de limpeza, de tudo o que houver, não importa que seja de valor ou não, naturalmente com o conhecimento e aprovação integrais dos patrões, desde que isso seja mantido ao nível costumeiro... caso contrário, como poderiam pagar-lhes tão pouco, se eles não pudessem ganhar por fora?
"Talvez seja essa a resposta", pensou Armstrong. "É verdade que antes de um chinês aceitar um emprego, qualquer emprego, terá considerado o how chew do emprego com muito cuidado, e o valor do how chew é sempre o fator decisivo. "
O quarto fedia, e ele tentou ignorar o cheiro. Borrifos de água da chuva entravam pelo respiradouro, o barulho da chuva ainda forte, a parede inteira mofada e manchada por mil temporais. Ele fez uma revista metódica e cuidadosa, todos os sentidos aguçados. Havia pouco espaço onde esconder alguma coisa. A cama e os lençóis estavam relativamente limpos, embora houvesse muitos percevejos nos cantos do catre. Nada havia debaixo da cama, salvo um urinol lascado e malcheiroso e uma mala vazia. Umas velhas sacolas e uma bolsa a tiracolo nada revelaram. A cômoda continha umas poucas roupas, algumas jóias baratas, uma pulseira de jade de qualidade inferior. Escondida sob algumas roupas havia uma bolsa bordada de qualidade muito melhor. Dentro dela havia algumas cartas. Um recorte de jornal. E duas fotos.
O coração dele pareceu parar de bater.
Depois de um momento, foi para a cozinha, onde havia luz melhor, e olhou de novo para as fotos, mas não se havia enganado. Leu o recorte, com a cabeça tonta. Havia uma data no recorte e uma data numa das fotos.
No porão de estrutura semelhante a um favo de mel do QG da polícia, Ah Tam sentava-se numa cadeira dura e sem costas no centro de uma grande sala à prova de som, fortemente iluminada e pintada de branco, paredes brancas, teto branco, piso branco e uma única porta branca que parecia fazer parte da parede. Até mesmo a cadeira era branca. Ela estava sozinha, apavorada, e agora falava livremente.
— Bem, e o que sabe sobre o bárbaro que aparece no fundo da foto? — perguntou a voz seca e metálica de Wu, no dialeto de Ning-tok, vinda de um alto-falante oculto.
— Já contei e contei e não há... não sei, senhor — choramingou ela. — Quero ir para casa... já lhe contei, mal vi o demônio estrangeiro... ele só nos visitou essa única vez, ao que eu saiba, senhor... Não me lembro; faz anos, oh, posso ir agora? Já contei tudo, tudo...
Armstrong a espiava pelo falso espelho da sala de observação pouco iluminada, com Wu ao seu lado. Os dois homens estavam constrangidos e sérios. O suor orlava a testa de Wu, embora a sala fosse agradavelmente refrigerada. Um gravador girava, silencioso. Havia microfones e um monte de equipamentos eletrônicos às costas deles.
— Acho que ela já nos contou tudo o que precisamos saber — disse Armstrong, com pena dela.
— Sim, senhor — disse Wu, não deixando o seu nervosismo transparecer na voz. Era a primeira vez que fazia parte de um interrogatório do sei. Estava assustado e excitado, e doía-lhe a cabeça.
— Pergunte-lhe novamente onde arranjou a bolsa.
Wu fez o que ele mandou. Sua voz estava calma e autoritária.
— Mas já lhe contei inúmeras vezes — choramingou a velha. — Por favor, posso ir...
— Conte-nos mais uma vez, e depois poderá ir.
— Está bem... está bem... Vou contar de novo... Pertencia à minha patroa, que a deu para mim no seu leito de morte, ela me deu, juro e...
— Na última vez você falou que ela a deu na véspera de morrer. Bem, qual é a verdade?
Ansiosa, Ah Tam ficou puxando a trança suja.