— Eu... não me lembro, senhor. Estava com ela... quando morreu... não me lembro. — A velha ficou mexendo a boca, sem emitir som, depois falou aos borbotões, em tom queixoso: — Eu a peguei e escondi, depois que ela morreu, e havia aquelas velhas fotos... não tenho nenhum retrato da minha patroa, portanto peguei-as, e havia um tael de prata, também, que pagou parte da minha viagem para Hong Kong, durante a grande fome. Eu a peguei porque nenhum dos filhos, filhas ou família nojentos dela, que a odiavam e me odiavam, me teriam dado coisa alguma. Portanto, eu a peguei quando ninguém estava... ela me deu antes de morrer, e eu a escondi, é minha, ela me deu...
Ficaram ouvindo a velha falar e falar, até cansar. O relógio de parede marcava uma e quarenta e cinco. Há meia hora que a interrogavam.
— Por ora, chega, Wu. Vamos repetir tudo daqui a três horas, por precaução, mas acho que nos contou tudo. — Cansadamente, Armstrong pegou um telefone e discou. — Armstrong... pode levá-la agora de volta à cela — falou. — Certifiquem-se de que esteja confortável e seja bem tratada, e mandem o médico examiná-la outra vez.
Era procedimento normal do sei examinar os prisioneiros antes e depois de cada interrogatório. O médico dissera que Ah Tam tinha o coração e a pressão de uma moça de vinte anos.
Dali a um momento viram a porta branca, quase escondida, se abrir. Uma policial fardada do sei fez sinal para Ah Tam, bondosamente. Ela foi saindo, andando com dificuldade. Armstrong baixou as luzes, ligou o gravador para voltar atrás a fita. Wu enxugou a testa.
— Saiu-se muito bem, Wu. Aprende depressa.
— Obrigado, senhor.
O gemido estridente do gravador aumentou. Armstrong olhava para ele em silêncio, ainda em choque. O barulho cessou, e o grandalhão tirou a fita da máquina.
— Sempre marcamos a data, a hora exata e a duração exata do interrogatório, e usamos um codinome para o suspeito. Para segurança e sigilo. — Procurou um número num livro, marcou a fita, depois começou a preencher um formulário. — Fazemos a verificação comparando com este formulário. Nós o assinamos, como interrogadores, e colocamos aqui o código de Ah Tam — V-11-3. É altamente secreto, e arquivado no cofre. — Os olhos dele tornaram-se muito duros. Wu quase se encolheu. — Repito: É melhor você acreditar que em boca fechada não entra mosca, e que tudo no sei, tudo aquilo de que você participou hoje, é altamente secreto.
— Sim, senhor. Sim, pode contar comigo, senhor.
— É melhor também lembrar que o sei só obedece às próprias leis, ao governador e ao ministro em Londres. Somente. As boas leis inglesas, o jogo limpo e os códigos normais da polícia não se aplicam ao de ou ao sei... habeas-corpus, julgamentos públicos e apelações. Num caso do sei, não há julgamento, nem apelação, apenas uma ordem de deportação para a RPC ou Formosa, o que for pior. Entendeu?
— Sim, senhor. Quero ser parte do sei, senhor. Portanto, pode crer em mim. Não sou de saciar a sede com veneno — assegurou-lhe Wu, doente de esperança.
— Ótimo. Durante os próximos dias, está confinado a este QG.
Wu ficou de queixo caído.
— Mas, senhor, meu... sim, senhor.
Armstrong saiu na frente, e depois fechou a porta atrás de si. Entregou a chave e o formulário a um agente do sei que estava de guarda na recepção.
— Vou guardar a fita, por enquanto. Já assinei o recibo.
— Sim, senhor.
— Quer cuidar do guarda Wu? Vai ser nosso hóspede por alguns dias. Comece a anotar os dados dele... tem sido muito, muito, muito prestimoso. Vou recomendá-lo para o sei.
— Sim, senhor.
Deixou-os, foi para o elevador e saltou no seu andar, com um gosto nauseante e adocicado de apreensão na boca. Os interrogatórios do sei eram um anátema para ele. Odiava-os, embora fossem rápidos, eficientes e sempre apresentassem resultados. Preferia a batalha de intelectos à moda antiga, o uso da paciência, e não esses instrumentos psicológicos novos e modernos.
— É tudo danado de perigoso, se querem a minha opinião — resmungou, cruzando o corredor, o leve cheiro mofado do quartel-general nas narinas, odiando Crosse, o sei e tudo o que representavam, odiando os fatos que descobrira. Sua porta estava aberta.
— Ah, alô, Brian — disse, fechando a porta, a fisionomia sombria. Brian Kwok estava com os pés sobre a mesa, lendo pachorrentamente um dos matutinos comunistas chineses, com as vidraças molhadas de chuva às costas. — O que há de novo?
— Um artigo bem grande sobre o Irã — disse o amigo, entretido com o que lia. — Diz: "Os senhores supremos capitalistas da CIA, em conjunção com o xá tirano, acabaram com uma revolução popular no Azerbaijão. Milhares foram mortos", etc. Não acredito em tudo isso, mas parece que a CIA e a 92a Divisão de Pára-Quedistas apagaram o estopim naquela área, e os ianques agiram certo, pelo menos uma vez.
— Não vai adiantar porra nenhuma!
Brian Kwok ergueu os olhos. Seu sorriso desapareceu.
— O que foi?
— Estou me sentindo um lixo. — Armstrong hesitou. — Mandei buscar duas cervejas, depois almoçaremos. Que tal um curry? Está bem?
— Está, mas se está se sentindo um lixo, vamos deixar o almoço para outro dia.
— Não, não é a esse tipo de "lixo", que estou me referindo. É... é que detesto fazer interrogatórios brancos... isso me dá nos nervos.
Brian Kwok fitou-o.
— Interrogaram a velha amah ali? Porra, mas por quê?
— Ordens de Crosse. É um filho da mãe. Brian Kwok largou o jornal.
— É, sim, e estou certo de que tenho razão quanto a ele — falou, suavemente.
— Agora não, Brian. Quem sabe durante o almoço, mas agora não. Deus meu, mas como preciso de um drinque! Maldito Crosse e maldito sei! Não sou do sei, e no entanto ele age como se eu fosse um dos seus.
— É? Mas você vem junto no 16/2 desta noite. Pensei que tinha sido convocado.
— Ele não mencionou nada. O que é?
— Se ele não mencionou, é melhor eu ficar calado.
— Claro. — Era um procedimento normal do sei, para fins de segurança, minimizar a divulgação de informações, para que nem mesmo os agentes da mais alta confiança trabalhando no mesmo caso soubessem de todos os fatos. — Não vou ser convocado porra nenhuma — falou Armstrong, de cara feia, sabendo que, se Crosse ordenasse, não havia nada que ele pudesse fazer. — A batida tem algo a ver com a Sevrin?
— Não sei. Espero que sim. — Brian Kwok olhou atentamente para ele, depois sorriu. — Anime-se, Robert, tenho boas novas para você — disse, e Armstrong notou mais uma vez como o amigo era bonitão, dentes brancos e fortes, pele dourada, linhas do queixo firmes, olhos vivos e um ar de confiança atrevida.
— Você é um sacana bonitão — falou. — Quais são as boas novas? Deu um aperto no amigo Um Pé Só do Restaurante Para, e ele lhe contou quais os quatro primeiros lugares para sábado?
— Sonhador! Não, é sobre aquelas pastas que você apanhou ontem no escritório de Lo Dentuço, e passou para a Anticorrupção. Está lembrado? Do Ng Fotógrafo?
— Hem? Ah, sim.
— Parece que o nosso simpático convidado sino-americano, Thomas K. K. Lim, que está "em algum lugar do Brasil", é uma figura e tanto. As pastas dele são de ouro. De ouro mesmo! E em inglês, sendo assim o nosso pessoal da Anticorrupção não teve trabalho para lê-las. Você descobriu um tesouro!
— Ele tem ligações com Tsu-yan? — perguntou Armstrong, com a atenção imediatamente desviada.
— Tem. E com muitas outras pessoas. Pessoas muito importantes, mui...
— Banastasio? Brian Kwok sorriu.
— O próprio. Isso engloba direitinho John Chen, as armas, Tsu-yan, Banastasio e a teoria de Peter Marlowe.
— Bartlett?
— Ainda não. Mas Marlowe conhece alguém que sabe muita coisa que não sabemos. Acho que devemos investigá-lo. Você o fará?
— Claro! O que mais havia nos papéis?
— Thomas K. K. Lim é católico, um sino-americano de terceira geração que é uma verdadeira pega. Coleciona todo tipo de correspondência comprometedora, cartas, bilhetes, memorandos, etc. — Brian Kwok sorriu de novo o seu sorriso sem humor. — Nossos amigos ianques são piores do que pensávamos.