— Por exemplo?
— Por exemplo: uma certa família da Nova Inglaterra, muito conhecida e bem relacionada, está envolvida com certos generais, americanos e vietnamitas, na construção de diversas bases da força aérea americana, muito grandes e muito desnecessárias, em termos muito lucrativos para eles.
— Aleluia! Nomes?
— Nomes, postos e números. Se os principais envolvidos soubessem que o amigo Thomas tem tudo documentado, um estremecimento de horror percorreria os Augustos Corredores da Fama, o Pentágono, e diversos salões caros e cheios de fumaça.
Armstrong resmungou.
— Ele é o intermediário?
— Organizador, é como chama a si mesmo. Ah, está em excelentes termos com muita gente notável. Americanos, italianos, vietnamitas, chineses, os dois lados da cerca. Os papéis documentam toda a fraude. Outro plano é o de canalizar milhões de fundos dos Estados Unidos em mais um programa falso de ajuda ao Vietnam. Oito milhões, para ser preciso. Um milhão já foi até pago. O amigo Lim até mesmo discutiu como o h'eung yau de um milhão vai ser desviado para a Suíça.
— Podemos fazer com que tudo isso cole?
— Oh, sim, se pegarmos Thomas K. K. Lim, e se quisermos fazer com que cole. Perguntei ao Crosse, mas ele apenas deu de ombros e disse que não era da nossa conta. Que se os ianques quiserem roubar o governo deles, problema deles. — Brian Kwok sorriu, mas seus olhos, não. — É uma informação valiosa, Robert. Se até mesmo parte dela tornar-se conhecida, criará uma zorra dos diabos, até bem lá em cima.
— Ele vai passar a informação adiante, ao Rosemont? Deixar "vazar"?
— Não sei. Acho que não. Numa coisa ele está certo. Não tem nada a ver conosco. Que burrice incrível anotar tudo isso! Uma burrice. Merecem se ferrar. Quando tiver um minuto leia os papéis, são uma parada!
— Alguma ligação entre Lim e os outros bandidos? Lo Dentuço e o outro homem? Estão roubando os fundos da CARE?
— Oh, sim, devem estar, mas todas as pastas deles estão em chinês, portanto vai demorar mais para meter-lhes a mão. — Brian Kwok acrescentou, de modo estranho: — Curioso o Crosse ter farejado isso, quase como se soubesse que haveria uma ligação. — Baixou a voz. — Sei que estou certo a respeito dele.
O silêncio tornou-se mais pesado. A boca de Armstrong estava ressecada, com um gosto ruim. Desviou os olhos da chuva e olhou para Brian Kwok.
— O que é que sabe?
— Sabe o tal vice-cônsul americano, o bicha, aquele que está vendendo os vistos?
— O que é que tem?
— No mês passado Crosse jantou com ele. No apartamento dele.
Armstrong esfregou o rosto, nervosamente.
— Isso não prova nada. Ouça, amanhã pegamos as pastas. Amanhã o Sind...
— Talvez nós não as possamos ler.
— Pessoalmente, estou me cagando. Isso é assunto do sei, e eu sou do DIC, e é por isso...
Uma batida o interrompeu. A porta se abriu. Um garçom chinês entrou com uma bandeja e dois canecões de cerveja gelada, e abriu um sorriso cheio de dentes.
— Boa tarde, senhor — cumprimentou, oferecendo um deles para Brian Kwok. Entregou o outro a Armstrong, e se retirou.
— Boa sorte — falou Armstrong, odiando-se. Bebeu avidamente, depois foi trancar a fita no seu cofre.
Brian Kwok olhou-o atentamente.
— Tem certeza de que está bem, amigão?
— Claro que sim.
— O que foi que a velha falou?
— No começo, contou um monte de mentiras, um monte. E depois, a verdade. Inteirinha. Conto para você durante o almoço, Brian. Sabe como é... a gente acaba descobrindo as mentiras, se for paciente. Estou cheio de mentiras. — Armstrong terminou a sua cerveja. — Pombas, mas estava precisando disso.
— Quer a minha, também? Tome.
— Não, não, obrigado, vou tomar um uísque com soda antes do curry, e quem sabe mais outro. Acabe logo e vamos nos mandar.
Brian Kwok largou o canecão pela metade.
— Para mim já chega. — Acendeu um cigarro. — Como vai indo com a sua decisão de não fumar mais?
— Está duro. — Armstrong ficou vendo-o tragar profundamente. — Alguma coisa sobre o Voranski? Ou os assassinos dele?
— Sumiram em pleno ar. Temos as fotos deles. Portanto, nós os pegaremos, a não ser que estejam do outro lado da fronteira.
— Ou em Formosa.
Depois de uma pausa, Brian Kwok balançou a cabeça.
— Ou em Macau, ou na Coréia do Norte, ou no Vietnam, ou seja lá onde for. O ministro está uma arara com o Crosse por causa do Voranski, a MI-6 também, e a CIA também. O primeiro escalão da CIA em Londres está criando o maior rebu com o ministro, e ele está passando a bronca adiante para nós. É melhor que a gente agarre aqueles sacanas antes do Rosemont, senão vamos ficar desmoralizados. O Rosemont também está sendo superpressionado para entregar a cabeça deles. Ouvi dizer que ele pôs todos os seus homens atrás deles, achando que têm algo a ver com a Sevrin, e o porta-aviões. Ele está apavorado de que haja um incidente envolvendo o porta-aviões nuclear. — Brian Kwok acrescentou, com a voz mais dura: — Uma cretinice dos diabos ofender a RPC, trazendo-o para cá. Aquele monstro é um convite declarado para todos os agentes na Ásia.
— Se eu fosse soviético, estaria tentando infiltrá-lo. O sei está provavelmente tentando fazer o mesmo, agora. Crosse adoraria ter um agente a bordo. Por que não? — O grandalhão ficou olhando a fumaça em espiral. — Se eu fosse nacionalista, talvez colocasse algumas minas nele, para depois culpar a RPC... ou, vice-versa, para depois culpar Chang Kai-chek.
— É o que a CIA faria para deixar todo mundo puto da vida com a China.
— Corta essa, Brian!
Brian Kwok tomou um último gole, depois se levantou.
— Para mim chega. Vamos indo.
— Um momentinho. — Armstrong foi discar. — Aqui fala Armstrong, preparem outra sessão às dezessete para V-11-3. Vou querer...
Parou, vendo os olhos do amigo piscarem, depois ficarem vidrados, e segurou-o com facilidade quando ele caiu, deixando-o largado na cadeira. Fora de si, quase como se estivesse observando a si mesmo, repôs o fone no gancho. Agora, nada havia a fazer, senão esperar.
"Fiz o meu trabalho", pensou.
A porta se abriu e Crosse entrou, seguido de três agentes do sei à paisana, todos britânicos, todos graduados, todos tensos e sérios. Rapidamente, um dos homens colocou um capuz grosso e negro na cabeça de Brian Kwok, levantou-o com facilidade e saiu, seguido pelos outros.
Agora que tudo acabara, Robert Armstrong não sentia nada, nem remorso, nem choque, nem raiva. Nada. Sua mente lhe dizia que não havia nenhum engano, embora lhe dissesse igualmente que seu amigo de quase vinte anos não podia ser um agente comunista infiltrado. Mas era. As provas eram irrefutáveis. As provas que descobrira demonstravam conclusivamente que Brian Kwok era o filho de Fang-ling Wu, a antiga patroa de Ah Tam, quando, segundo sua certidão de nascimento e registros pessoais, sua mãe e seu pai tinham o sobrenome Kwok e haviam sido assassinados pelos comunistas em Cantão, em 43. Uma das fotografias mostrava Brian Kwok de pé ao lado de uma senhora chinesa miudinha, diante de uma farmácia numa encruzilhada de uma aldeia. A qualidade da foto era má, porém boa o suficiente para que se pudessem ler os caracteres do cartaz da loja e para que se reconhecesse um rosto, o rosto dele. Ao fundo, via-se um carro antigo. Por trás dele havia um europeu, com o rosto meio desviado. Wu Óculos identificara a loja como a farmácia da encruzilhada em Ning-tok, propriedade da família Tok-ling Wu. Ah Tam identificara a mulher como sua patroa.
— E o homem? Quem é o homem ao lado dela?
— Ah, é o filho dela, senhor. Já lhe contei. É o Segundo Filho Chu-toy. Agora, vive com os demônios estrangeiros do outro lado do mar, no norte, o norte da Terra das Montanhas Douradas — choramingara a mulher, lá no Quarto Branco.