— Está mentindo outra vez.
— Ah, não, senhor, é o filho dela, Chu-toy. É o seu Segundo Filho, nasceu em Ning-tok, e ajudei no parto dele com estas mãos. Era o Filho Número Dois da Mãe, que foi embora quando era pequeno...
— Foi embora? Para onde?
— Para... o País da Chuva, depois para a Montanha Dourada. Agora tem um restaurante e dois filhos... É comerciante lá, e veio para ver o Pai... O Pai estava morrendo, e ele veio como um filho obediente deve vir, mas depois foi embora, e a Mãe chorou e chorou...
— Com que freqüência visitava os pais?
— Ah, foi só essa vez, senhor, só essa vez. Agora mora longe, num lugar tão afastado, tão afastado... mas veio como deve vir um filho obediente, e depois foi embora. Foi por puro acaso que eu o vi, senhor. À Mãe me mandara ir visitar uns parentes na aldeia vizinha, mas eu me senti só, e voltei cedo e o vi... Foi pouco antes de ele ir embora. O Jovem Patrão foi embora num carro dos demônios estrangeiros...
— Onde ele arranjou o carro? Era dele?
— Não sei, senhor. Não havia carro em Ning-tok. Até mesmo o comitê da aldeia não tinha carro, nem mesmo o Pai, que era o farmacêutico da aldeia. O pobre Pai, que morreu sofrendo tanto! Ele era membro do comitê... Eles nos deixavam em paz, os homens do presidente Mao, os Estranhos... É, agiam assim porque, embora o Pai fosse um intelectual e um farmacêutico, sempre fora um seguidor secreto de Mao, embora eu jamais soubesse, senhor, juro que jamais soube. O pessoal do presidente Mao nos deixava em paz, senhor.
— Como se chamava o filho da sua Patroa? O homem do retrato? — repetira ele, tentando abalá-la.
— Chu-toy Wu, senhor, era o segundo filho dela... lembro quando foi mandado de Ning-tok para... este lugar horrível, este Porto Fragrante. Tinha cinco ou seis anos e foi mandado para um tio aqui e...
— Como se chamava o tio?
— Não sei, senhor, nunca me contaram, só me lembro da Mãe chorando e chorando quando o Pai o mandou estudar fora... Posso ir para casa agora? Por favor, estou cansada, por favor...
— Quando você nos disser o que queremos saber. Se nos contar a verdade.
— Ah, eu conto a verdade, qualquer coisa, qualquer coisa...
— Mandaram-no estudar em Hong Kong? Onde?
— Não sei, senhor. Minha Patroa nunca falou, só que foi estudar, e depois ela o tirou do pensamento, e eu também, oh, sim, era melhor, porque ele tinha ido embora para sempre. Sabe que sempre os segundos filhos têm que ir embora...
— Quando Chu-toy Wu voltou para Ning-tok?
— Foi há alguns anos, quando o Pai estava morrendo. Só voltou aquela vez, foi só uma vez, senhor, não se lembra de eu ter lhe dito? Eu me lembro de ter dito isso. É, foi só a vez da foto. A Mãe insistiu na foto, e chorou e suplicou que ele tirasse uma foto com ela... Ela devia estar sentindo a mão da morte, agora que o Pai se fora, e ela estava verdadeiramente só... Oh, ela chorou e chorou, e então Chu-toy fez a vontade dela, como compete a um filho obediente, e minha Patroa ficou tão contente...
— E o bárbaro da foto, quem é?
O homem estava meio virado de costas, ao fundo, não era fácil reconhecê-lo, de pé ao lado do carro estacionado junto da farmácia. Era um homem alto, europeu, as roupas amassadas e comuns.
— Não sei, senhor. Era o motorista, e foi ele que levou Chu-toy embora, mas o comitê da aldeia e o próprio Chu-toy curvaram-se diante dele muitas vezes, e comentou-se que era muito importante. Foi o primeiro demônio estrangeiro que vi na vida, senhor...
— E as pessoas do outro retrato? Quem são?
O retrato era antiqüíssimo, quase sépia, e mostrava um casal constrangido, em roupas de casamento malfeitas, fitando desanimadamente a câmera.
— Ah, mas é claro que são o Pai e a Mãe, senhor. Não lembra que já lhe disse? Disse muitas vezes. São a Mãe e o Pai. O nome dele era Ting-top Wu, e a sua tai-tai, a minha Patroa, era Fang-ling...
— E o recorte?
— Não sei, senhor, estava colado ao retrato, então deixei-o lá mesmo. A Mãe o havia colado ali, então não mexi nele. O que eu ia querer com essa bobagem de escrita dos demônios estrangeiros...
Robert Armstrong soltou um suspiro. O recorte amarelado era de um jornal chinês de Hong Kong, datado de 16 de julho de 1937, que falava de três jovens chineses que tinham se saído tão bem nos exames finais, que o governo de Hong Kong lhes concedera bolsas para irem estudar num colégio da Inglaterra. Kar-shun Kwok era o primeiro nome citado. Kar-shun era o nome chinês formal de Brian Kwok.
— Saiu-se muito bem, Robert — disse Crosse, fitando-o.
— Foi? — replicou, em meio à névoa do seu sofrimento.
— Foi, muito bem. Trouxe-me as provas diretamente, seguiu as instruções ao pé da letra, e agora o nosso toupeira está dormindo direitinho. — Crosse acendeu um cigarro e sentou-se à mesa. — Felizmente você tomou a cerveja certa. Ele suspeitou de alguma coisa?
— Não, Acho que não. — Armstrong tentou controlar-se. — Quer me dar licença, senhor, por favor? Sinto-me imundo. Tenho... tenho que tomar um banho. Desculpe.
— Sente-se um minuto, por favor. É, deve estar muito cansado. Muito cansativas, essas coisas.
"Deus!", Armstrong sentia vontade de gritar, angustiado, "é impossível! Impossível o Brian ser um agente secreto infiltrado, mas tudo se encaixa. Por que outro motivo teria um nome completamente diferente, uma certidão de nascimento diferente? Por que outro motivo teria uma cobertura tão cuidadosamente construída — que os pais dele foram mortos em Cantão durante a guerra, assassinados pelos comunistas? Por que outro motivo teria se arriscado a voltar secretamente para Ning-tok, arriscando tudo aquilo que construíra tão cuidadosamente ao longo de trinta anos, a não ser que o seu próprio pai estivesse mesmo morrendo? E se todos esses fatos são reais, então os outros automaticamente se sucedem: que devia estar em contato permanente com o continente, para saber que o pai estava à morte, que como superintendente da polícia de Hong Kong teria que ser persona-grata à RPC, para que lhe fosse permitido entrar e sair secretamente. E se era persona-grata, então tinha que ser um deles, preparado ao longo dos anos, estimulado ao longo dos anos. "
— Meu Deus! — murmurou —, teria facilmente se tornado comissário assistente, quem sabe até comissário...
— O que sugere agora, Robert? — perguntou Crosse, a voz suave.
Armstrong forçou a mente a voltar ao presente, o treinamento superando a angústia.
— Verifique o passado dele. Vamos encontrar o elo. É, o pai dele era uma minúscula engrenagem comunista, mas uma engrenagem de Ning-tok, apesar de tudo. Portanto, o parente de Hong Kong a quem foi enviado também deveria ser de lá. Devem ter mantido o Brian sob rédea curta na Inglaterra, no Canadá, aqui, em qualquer lugar... tão fácil fazer isso, tão fácil alimentar o ódio pelos quai loh, tão fácil para um chinês esconder esse ódio... Não é o povo mais paciente e reservado do mundo? É, vá investigar o passado e acabará por encontrar o elo e encontrar a verdade.
— Robert, tem razão de novo. Mas, primeiro, deve-se começar o interrogatório dele.
Armstrong sentiu uma onda gélida de horror invadir seu estômago.
— É — falou.
— Estou encantado em participar-lhe que essa honra será sua.
— Não.
— Você supervisionará o interrogatório. Nenhum chinês tomará parte nele, apenas agentes britânicos graduados. Exceto o Wu, Wu Óculos. É, será útil... apenas ele. É bom aquele rapaz.
— Não posso... não vou.
Crosse soltou um suspiro e abriu o grande envelope pardo que trouxera consigo
— O que acha disso?
Com mãos trêmulas, Armstrong pegou a foto. Era uma ampliação de 20 X 25 de um pedacinho da foto de Ning-tok, a cabeça do europeu que aparecia no último plano, ao lado do carro. O rosto do homem estava meio virado e indistinto, o granulado da ampliação denso.