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— Filho da mãe mentiroso!

— ... e qualquer um que tenha fundos no Ho-Pak pode ir até lá com a sua caderneta de depósito e receberá o seu dinheiro.

— E quanto às ações deles? Quando as liquidarem, quanto acha que vão valer? Dez centavos por dólar!

— Sabe Deus! Mas milhares vão perder as cuecas nesse colapso!

— Ei, tai-pan! Vai deixar suas ações irem lá para baixo, ou vai comprar?

— A Casa Nobre é tão forte quanto sempre foi, meu velho — disse Dunross, serenamente. — Meu conselho para vocês é que comprem!

— Quanto tempo pode esperar, tai-pan?

— Vamos superar este ligeiro problema, não se preocupe.

Dunross continuou a abrir caminho entre o povo, dirigindo-se para a saída, seguido por Linc Bartlett e Casey, bombardeado por perguntas. Ignorou a maioria com uma palavrinha amável, respondeu a algumas, e então viu-se frente a frente com Gornt, e os dois se enfrentaram em meio a um grande silêncio.

— Ah, Quillan, como se saiu hoje? — indagou, cortesmente.

— Muito bem, obrigado, Ian, muito bem. Meus sócios e eu estamos com três ou quatro milhões de vantagem.

— Tem sócios?

— Claro. Não se inicia um ataque à Struan de qualquer maneira... é claro que é preciso ter um apoio financeiro muito substancial. — Gornt sorriu. — Felizmente, a Struan é amplamente detestada por um bocado de gente boa, e isso há um século ou mais. Tenho prazer em lhe dizer que acabo de adquirir mais trezentas mil ações que vão estar à venda logo que a Bolsa abrir. Isso deve ser o bastante para fazer a sua casa desabar.

— Não somos um castelo de cartas. Somos a Casa Nobre.

— Até amanhã. É. Ou quem sabe até depois de amanhã, no máximo até segunda-feira. — Gornt olhou para Bartlett. — Nosso jantar de terça-feira ainda está de pé?

— Está. Dunross sorriu.

— Quillan, um homem pode se queimar, vendendo a descoberto num mercado tão volúvel. — Virou-se para Bartlett e Casey, e falou, de modo agradáveclass="underline" — Não concordam?

— Pode apostar que isso aqui não é como a nossa Bolsa em Nova York — replicou Bartlett, provocando uma risada geral. — O que está acontecendo aqui hoje mandaria toda a nossa economia para o diabo, hem, Casey?

— É — respondeu Casey, sem jeito, sentindo o olhar fixo de Gornt. — Alô — cumprimentou, olhando-o de relance.

— Sentimo-nos honrados por tê-los aqui — disse Gornt, com grande charme. — Posso cumprimentá-los pela sua coragem ontem à noite? Aos dois.

— Não fiz nada de especial — disse Bartlett.

— Nem eu — falou Casey, constrangida, tendo plena consciência de ser a única mulher na sala, e agora o centro de tantas atenções. — Se não tivesse sido pelo Linc e pelo Ian... pelo tai-pan, e você, e os outros, eu teria entrado em pânico.

— Ah, mas não entrou. Seu mergulho foi uma perfeição — disse Gornt, em meio a vivas.

Ela ficou calada, mas aquele pensamento a aqueceu, e não pela primeira vez. De alguma forma, sua vida estava diferente desde que tirara a roupa, sem pensar. Gavallan ligara para ela pela manhã, para saber como estava passando. Outros também. Na Bolsa, sentira a força dos olhares. Recebera muitos elogios. Muitos deles de estranhos. Sentia que Dunross, Gornt e Bartlett se lembravam, porque ela não os havia decepcionado. Ou a si mesma. "É", pensou, "você ganhou muito prestígio perante todos os homens. E fez crescer a inveja das mulheres. Curioso. "

— Está vendendo a descoberto, sr. Bartlett? — dizia Gornt.

— Não pessoalmente — disse Bartlett, com um sorrisinho. — Ainda não.

— Devia — disse Gornt, amavelmente. — Pode-se ganhar muito dinheiro num mercado em baixa, como estou certo de que sabe. Um bocado de dinheiro vai mudar de mãos com o controle da Struan. — Voltou a fitar Casey, excitado por sua coragem, seu corpo, e pela idéia de que iria passear com ela de barco no domingo. — E você, Ciranoush, está no mercado? — perguntou.

Casey ouviu o seu nome, e o modo como ele o pronunciou. Ficou excitada. "Cuidado", advertiu a si mesma. "Esse homem é perigoso. É. E o Dunross também, e o Linc também.

"Qual?

"Acho que quero os três", pensou, invadida por uma onda de calor. "

O dia fora excitante e formidável desde o primeiro momento, quando Dunross lhe telefonara, solícito. Depois, levantara-se, sem sentir nenhum mal-estar por causa do fogo ou dos vomitórios do dr. Tooley. Em seguida, passara toda a manhã trabalhando nos telefonemas, telegramas e telex para os Estados Unidos, alegremente, acertando problemas do imenso conglomerado da Par-Con, cimentando uma fusão que estava na agenda deles há meses, vendendo uma companhia com muito lucro, para adquirir uma outra que fortaleceria ainda mais a investida da Par-Con na Ásia... fosse lá quem fosse o parceiro deles. Depois, inesperadamente, fora convidada para almoçar com Linc... O querido, bonito, confiante e atraente Linc, pensou, lembrando-se do almoço deles no topo do Victoria and Albert, no imenso salão de refeições verde com vista para o porto, Linc tão atencioso, a ilha de Hong Kong e as estradas costeiras obscurecidas pela chuva torrencial. Meia toronja, uma pequena salada, Perrier, tudo perfeitamente servido, do jeito que ela queria. Depois, o café.

— Que tal irmos à Bolsa de Valores, Casey? Lá pelas duas e meia? — dissera ele. — O Ian nos convidou.

— Ainda tenho muita coisa a fazer, Linc, e...

— Mas aquele lugar é um barato, e as coisas que aqueles caras conseguem fazer são incríveis. Negociações escusas aqui são um meio de vida, e absolutamente legais. Deus, é fantástico, maravilhoso, um grande sistema! O que eles fazem aqui legalmente todos os dias daria uma pena de vinte anos nos Estados Unidos.

— O que não torna a coisa correta, Linc.

— Não, mas aqui é Hong Kong, suas regras os agradam. É o país deles, eles se sustentam, e o governo tira apenas quinze por cento em impostos. É o que eu lhe digo, Casey, se você quer dinheiro do "dane-se", é aqui que ele está.

— Tomara! Vá você, Linc, tenho um monte de coisas ainda por fazer!

— Podem esperar. Hoje pode ser o dia decisivo. Temos que estar lá para o golpe final.

— O Gornt vai ganhar?

— Claro, a não ser que Ian consiga um financiamento maciço. Ouvi dizer que o Victoria não vai apoiá-lo. E o Orlin não vai renovar o empréstimo, como previ!

— Foi o Gornt quem lhe contou?

— Pouco antes do almoço. Mas todo mundo sabe de tudo neste lugar. Nunca vi nada parecido.

— Então pode ser que o Ian saiba que você adiantou os dois milhões para o Gornt começar o ataque.

— Pode ser. Não importa, contanto que não saibam que a Par-Con está prestes a se tornar a nova Casa Nobre. Que tal soa "tai-pan Bartlett"?

Casey lembrou-se do sorriso repentino dele, e do calor que se transmitira a ela. Sentia-o de novo agora, ali, de pé na Bolsa de Valores, olhando para ele, montes de homens à volta dela, mas só três importantes: Quillan, Ian e Linc, os homens mais excitantes e cheios de vitalidade que conhecera em toda a vida. Sorriu para eles, igualmente, depois disse a Gornt:

— Não, não estou no mercado, não pessoalmente. Não gosto de jogar... o custo do meu dinheiro sai caro demais.

Alguém resmungou:

— Que coisa horrível de dizer!

Gornt não prestou atenção, e manteve os olhos fitos nela.

— Sensato, muito sensato. Claro, às vezes há uma coisa absolutamente certa, às vezes pode-se faturar alto, com um golpe mortal. — Olhou para Dunross, que ostentava seu sorriso curioso. — Em sentido figurado, é claro.

— É claro. Bem, Quillan, até amanhã.

— Ei, sr. Bartlett — chamou alguém —, já fechou negócio com a Struan, ou não?

— É — falou outro. — E o que o Incursor Bartlett pensa de uma incursão à moda de Hong Kong?

Novo silêncio. Bartlett deu de ombros.

— Uma incursão é uma incursão, seja onde for — disse, com cuidado —, e eu diria que esta está armada e iniciada. Mas a gente nunca sabe se ganhou até a contagem dos votos estar terminada. Concordo com o sr. Dunross. A gente pode se queimar. — Abriu novo sorriso, os olhos brejeiros. — Também concordo com o sr. Gornt. Às vezes também se pode faturar alto, com um golpe mortal. Em sentido figurado.