— Alguma vez saiu de Cantão... ou de Pequim?
— Por quê?
— Saiu?
Dunross hesitou. A Casa Nobre tinha muitas associações de longa data na China, muitos amigos antigos e de confiança. Alguns eram agora comunistas dedicados. Outros eram externamente comunistas, mas por dentro totalmente chineses, e portanto de visão ampla, reservados, cautelosos e apolíticos. Esses homens variavam de importância. Havia até um na junta governamental. E todos eles, sendo chineses, sabiam que a história se repetia, que as eras podiam mudar rapidamente, e que o imperador da manhã poderia tornar-se o cão escorraçado da tarde, que as dinastias se sucediam segundo os caprichos dos deuses, que o primeiro de cada dinastia inevitavelmente subia ao trono do Dragão com as mãos tintas de sangue, que sempre se devia estar de olho numa rota de fuga... e que certos bárbaros eram Velhos Amigos em quem se podia confiar.
Mas ele sabia que, acima de tudo, os chineses eram um povo prático. A China precisava de mercadorias e ajuda. Sem mercadorias e ajuda, ficava indefesa contra seu inimigo histórico, e único inimigo real, a Rússia.
Muitas vezes, por causa da confiança especial depositada na Casa Nobre, Dunross fora procurado oficial e não-oficialmente, mas sempre secretamente. Tinham muitos negócios particulares em vista, para todo tipo de maquinarias e mercadorias em falta, incluindo a esquadrilha de aviões a jato. Freqüentemente, tinha ido a lugares aonde outros não podiam ir. Uma vez tinha comparecido a uma reunião em Hangchow, a região mais linda da China, realizada para receber particularmente outros membros do Clube 49, que iam ser homenageados com um jantar, como convidados de honra da China. O Clube 49 era formado por empresas que tinham continuado a comerciar com a RPC após 1949, na maioria firmas britânicas. A Grã-Bretanha reconhecera o governo de Mao Tsé-tung como o governo da China, pouco depois que Chang Kai-chek abandonou o continente e fugiu para Formosa. Mesmo assim, as relações entre os dois governos sempre tinham sido tensas. Mas, por definição, as relações entre os Velhos Amigos não o eram, a não ser que um Velho Amigo traísse uma confiança, ou trapaceasse.
— Ah, fiz algumas viagens por fora — disse Dunross, despreocupadamente, sem querer mentir para o chefe do sei. — Nada de especial. Por quê?
— Poderia me dizer aonde foi, por favor?
— Sem dúvida, se você for mais específico, Roger — replicou, a voz endurecendo. — Somos comerciantes, e não políticos, e não espiões, e a Casa Nobre tem uma posição especial na Ásia. Há muitos anos estamos aqui, e é por causa dos comerciantes que a bandeira inglesa flutua... costumava flutuar sobre a metade do mundo. O que você quer saber exatamente, meu velho?
Fez-se uma longa pausa.
— Nada, nada de especial. Pois bem, Ian, vou esperar até termos o prazer de ler os documentos, depois serei mais específico. Obrigado, desculpe incomodá-lo. Até logo.
Dunross fitou o aparelho, preocupado. O que o Crosse queria saber?, perguntou-se. Muitas das transações que havia feito e que ainda faria certamente não se enquadrariam na política oficial do governo em Londres, e mais ainda em Washington. Sua atitude a curto e a longo prazo, em relação à China, era nitidamente oposta à deles. O que eles considerariam contrabando ele não considerava.
"Bem, enquanto eu for tai-pan", disse a si mesmo, com firmeza, "haja o que houver, fogo ou tufão, nossos elos com a
China continuarão sendo nossos elos com a China, e fim de papo. A maioria dos políticos em Londres e Washington não se dá conta de que os chineses são chineses em primeiro lugar e comunistas em segundo. E Hong Kong é vital para a paz na Ásia. "
— Sr. e sra. Jamie Kirk, senhor.
Jamie Kirk era um homenzinho pedante, de rosto rosado, mãos rosadas e um sotaque escocês agradável. A mulher dele era alta, grande e americana.
— Oh, quanto prazer em conhe... — começou Kirk.
— É, temos muito, sr. Dunross — interrompeu o vozeirão bem-humorado da mulher. — Diga logo o que tem para dizer, Jamie, benzinho, o sr. Dunross é um homem muito ocupado, e temos que ir fazer compras. Meu marido tem um embrulho para o senhor.
— É, da parte de Alan Medford G...
— Ele sabe que é da parte de Alan Medford Grant, benzinho — disse ela, satisfeita, tomando-lhe a palavra de novo. — Entregue-lhe o embrulho.
— Ah. Ah, sim, e também...
— Uma carta dele, também — disse ela. — O sr. Dunross é muito ocupado. Entregue logo tudo para ele, e vamos fazer compras.
— Ah, é, bem... — Kirk entregou o embrulho a Dunross. Media uns trinta e cinco por vinte e dois centímetros, e tinha uns dois centímetros e meio de espessura. Pardo, comum, e preso com muita fita adesiva. O envelope estava selado com lacre vermelho. Dunross reconheceu o lacre. — Alan disse para...
— Para entregar-lhe tudo pessoalmente, com lembranças dele — falou ela, com outra risada. Levantou-se. — Você é tão vagaroso, doçura! Bem, obrigada, sr. Dunross, vamos indo, benzi...
Interrompeu-se, espantada, quando Dunross ergueu uma mão imperiosa e falou com autoridade absoluta, embora cortês.
— Que tipo de compras quer fazer, sra. Kirk?
— Hem? Oh, algumas roupas... bem... quero mandar fazer algumas roupas, e o benzinho precisa de camisas, e...
Dunross ergueu a mão outra vez e apertou um botão. Claudia apareceu.
— Leve a sra. Kirk a Sandra Yi, imediatamente. Ela deverá levá-la imediatamente ao Lee Foo Tap, lá embaixo, e, por Deus, diga-lhe para fazer o melhor preço possível para ela, ou mandarei que o deportem! O sr. Kirk se encontrará lá com ela daqui a um momento!
Tomou a sra. Kirk pelo braço, e, antes que ela se desse conta, já estava fora da sala, toda satisfeita, Claudia solícita ao seu lado, ouvindo-a contar o que queria comprar.
Kirk soltou um suspiro que encheu o silêncio que se fez. Era um suspiro longo e sofrido.
— Ah, como gostaria de poder fazer isso! — disse sombriamente. Depois abriu um sorriso. — Och aye, tai-pan — falou, à moda escocesa —, o senhor é tudo o que Alan falou que era.
— É? Mas não fiz nada. Sua mulher queria fazer compras, não queria?
— É, mas... — Depois de uma pausa, Kirk acrescentou: — Alan falou que o senhor devia... bem... devia ler a carta enquanto eu estivesse aqui. Não... não contei isso a ela. Acha que devia?
— Não — disse Dunross, bondosamente. — Olhe, sr. Kirk, lamento ter que lhe dar más notícias, mas infelizmente Alan morreu num acidente de moto, na segunda passada.
Kirk ficou de queixo caído.
— O quê?
— Lamento lhe contar, mas achei melhor que soubesse. Kirk fitava as manchas deixadas pela chuva na vidraça, imerso em pensamentos.
— Que terrível! — disse, finalmente. — Malditas motos, são um perigo mortal. Ele foi atropelado?
— Não. Foi encontrado na estrada, caído ao lado da moto. Sinto muito.
— Terrível! Coitado do Alan. Ah, meu Deus! Fico contente que o senhor não tenha dito nada na frente da Frances, ela... gostava dele também. Eu... bem... eu... é melhor o senhor ler a carta, então... A Frances não era uma grande amiga, por isso não acho... coitado do Alan! — Baixou os olhos para as mãos. As unhas eram roídas e deformadas. — Coitado do Alan!
Para dar tempo a Kirk, Dunross abriu a carta, que dizia:
"Meu caro sr. Dunross: Por meio desta apresento-lhe um velho colega, Jamie Kirk, e sua mulher, Frances. Por favor, abra em particular o embrulho que ele está levando. Quero que lhe seja entregue em segurança, e Jamie concordou em dar uma paradinha em Hong Kong. Pode-se confiar nele o quanto se pode confiar em alguém, hoje em dia. E, por favor, não ligue para a Frances. Ela não é má. Na realidade, é boa para o meu velho amigo, está muito bem de vida, com o que herdou de maridos anteriores, o que dá ao Jamie a liberdade de que precisa para ficar sentado e pensar... um privilégio raríssimo, hoje em dia. A propósito, eles não trabalham no mesmo ramo que eu, embora saibam que sou um historiador amador com renda própria".