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Dunross teria sorrido, se não fosse pelo fato de estar lendo a carta de um homem morto. A carta terminava assim:

"Jarnie é geólogo, geólogo marinho, um dos melhores do mundo. Pergunte-lhe sobre o seu trabalho nos últimos anos, de preferência se Frances não estiver presente... não que ela não esteja por dentro de tudo o que ele sabe, mas intromete-se um pouco. Ele tem algumas teorias interessantes que talvez possam beneficiar a Casa Nobre e seu planejamento para uma eventualidade. Afetuosas lembranças, Alan Medford Grant".

Dunross ergueu os olhos.

— Alan disse que vocês são antigos colegas...

— Ah, é. Fomos colegas de escola em Charterhouse. Depois, fui para Cambridge, ele, para Oxford. É. Mantivemos contato ao longo dos anos, ocasionalmente, é claro. É. Já o conhecia há muito tempo?

— Há uns três anos. Eu também gostava dele. Talvez não se sinta com vontade de falar agora.

— Oh, não, tudo bem. Eu... é um choque, é claro, mas... bem... a vida continua. O velho Alan... um tipo gozado, não é? Com todos os seus papéis, livros, cachimbos, cinzas e chinelos de feltro. — Kirk juntou os dedos em triângulo, tristemente. — Suponho que deva dizer que ele era um tipo gozado. Ainda não me parece direito falar nele no passado... mas suponho que devamos. É. Ele sempre usava chinelos de feltro. Acho que nunca estive nos seus aposentos sem que ele estivesse de chinelos de feltro.

— Está se referindo ao apartamento dele? Nunca estive lá. Sempre nos encontrávamos em Londres, no meu escritório, embora ele tivesse ido a Ayr, uma vez. — Dunross forçou a memória. — Não me lembro dele usando chinelos de feltro, ali.

— Ah, sim, ele me falou de Ayr, sr. Dunross. É, me falou. Foi... bem... um ponto alto na vida dele. O senhor... tem muita sorte de ter uma propriedade daquelas.

— O Castelo Avisyard não é meu, sr. Kirk, embora pertença à minha família há mais de cem anos. Dirk Struan comprou-o para a mulher e a família... uma mansão, digamos assim. — Como sempre, Dunross sentiu uma súbita emoção ao pensar em toda aquela beleza, colinas suaves, lagos, charnecas, florestas, clareiras, seis mil acres ou mais, bom lugar para se atirar, para se caçar, o melhor que a Escócia tinha a oferecer.

__ Faz parte da tradição que o tai-pan atual seja sempre o senhor de Avisyard... enquanto for o tai-pan. Mas, é claro, todas as famílias, em especial as crianças das várias famílias, o conhecem bem. Férias de verão... O Natal em Avisyard é uma tradição maravilhosa. Carneiros inteiros, flancos de boi, miúdos de carneiro no Ano-Novo, uísque e grandes lareiras acesas, as gaitas de fole tocando. É um belo lugar. E uma fazenda produtiva. Gado, leite, manteiga... sem falar na destilaria de Loch Vey! Gostaria de poder passar mais tempo lá... minha mulher foi para lá hoje, para preparar tudo para as férias de Natal. Conhece aquela região?

— Um pouquinho. Conheço mais a região montanhosa. Minha família é de Inverness.

— Ah, então precisa vir visitar-nos quando estivermos em Ayr, sr. Kirk. Alan disse em sua carta que o senhor é geólogo, um dos melhores do mundo.

— Ah, bondade dele. Bem... foi bondade dele. Minha... especialidade é a geologia marinha. É, especialmente...

Interrompeu-se, abruptamente. — O que foi?

— Oh, hã... nada, nada mesmo, mas acha que Frances está bem?

— Sem dúvida. Quer que eu conte a ela sobre Alan?

— Não. Não, eu mesmo conto, depois. Não... pensando melhor, acho que vou fingir que ele não morreu, sr. Dunross. Farei de conta que o senhor não me contou, assim não estragarei o passeio dela. É. É o melhor, não acha? — Kirk animou-se um pouco. — Assim, poderemos saber da má notícia quando voltarmos para casa.

— Como queira. O senhor dizia? Especialmente o quê?

— Ah, sim... petrologia, que, como sabe, é o estudo amplo das rochas, incluindo sua interpretação e descrição. Dentro da petrologia, meu campo se restringiu recentemente às rochas sedimentares. Eu... bem... nos últimos anos tenho trabalhado num projeto de pesquisas como consultor sobre as rochas sedimentares paleozóicas, as porosas. É. O estudo se concentrou na plataforma costeira oriental da Escócia. Alan achou que o senhor gostaria de saber algo a respeito.

— Claro. — Dunross controlou sua impaciência. Fitava o embrulho sobre a mesa. Queria abri-lo e ligar para Johnjohn, e havia mais uma dúzia de coisas prementes. Havia tanto a ser feito, e ele ainda não tinha entendido a ligação que Alan fizera entre a Casa Nobre e Kirk. — Parece muito interessante — falou. — Para que era o estudo?

— Hem? — Kirk o fitava, espantado. — Hidrocarbonetos. — Diante do olhar inexpressivo de Dunross, apressou-se a acrescentar: — Os hidrocarbonetos são encontrados apenas nas rochas porosas sedimentares da era paleozóica. Petróleo, sr. Dunross, petróleo bruto.

— Ah! Estavam procurando petróleo?

— Ah, não! Era um projeto de pesquisas para determinar a possibilidade da presença de hidrocarbonetos a pouca distância da costa. Da costa da Escócia. Agrada-me poder dizer que acho que os haverá em abundância. Não muito perto, mas no mar do Norte. — O rosto rosado do homenzinho tornou-se mais rosado ainda, e ele enxugou a testa. — É. É, acho que deve haver um bom número de campos por lá.

Dunross estava perplexo, ainda sem entender a ligação.

— Bem, conheço alguma coisa sobre a perfuração em alto mar, no Oriente Médio e no golfo do Texas. Mas lá no mar do Norte? Santo Deus, sr. Kirk, aquele mar é o pior do mundo, provavelmente o mais inconstante do mundo, quase sempre turbulento, com ondas gigantescas. Como seria possível perfurar ali? Como seria possível instalar os equipamentos com segurança, como seria possível levar o petróleo a granel para terra, mesmo que fosse encontrado? E se fosse levado para terra, meu Deus, o custo seria proibitivo.

— Ah, sem dúvida, sr. Dunross — concordou Kirk. — Tudo o que o senhor disse está certíssimo, mas não é minha tarefa preocupar-me com o lado comercial, e sim descobrir nossos hidrocarbonetos, supremamente valiosos. — Acrescentou orgulhosamente: — É a primeira vez que se levanta a hipótese de eles existirem ali. Claro que é apenas uma teoria, minha teoria. Nunca se sabe ao certo antes de se perfurar, mas parte de minha perícia reside nas interpretações sísmicas, ou seja, estudo das ondas resultantes de explosões induzidas, e o enfoque que dei às últimas descobertas foi um tanto heterodoxo...

Dunross escutava agora apenas com a superfície da mente, tentando ainda entender por que Alan teria considerado isso importante. Deixou Kirk continuar por algum tempo, depois trouxe-o educadamente ao presente.

— O senhor me convenceu, sr. Kirk. Dou-lhe os parabéns. Quanto tempo vai ficar em Hong Kong?

— Ah, só até segunda-feira. Depois... bem... vamos para a Nova Guiné.

Dunross concentrou-se, muito preocupado.

— Onde, na Nova Guiné?

— Um lugar chamado Sukanapura, na costa setentrional. Fica na parte que pertence à Indonésia. Fui... — Kirk sorriu. — Desculpe, claro que o senhor sabe que o presidente Sukarno assumiu o controle da Nova Guiné holandesa em maio.

— "Tomou-a" seria mais apropriado. Se não fosse pelas pressões americanas imprudentes, a Nova Guiné holandesa ainda seria holandesa, e em situação bem melhor, acho eu. Não creio que seja boa idéia o senhor e sua esposa viajarem para lá, por enquanto. É arriscado, a situação política é muito instável, e o presidente Sukarno é hostil. A insurreição em Sarawak é patrocinada e apoiada pela Indonésia... ele se opõe francamente ao Ocidente, a toda a Malásia, e coloca-se a favor dos seus marxistas. Além disso, Sukanapura é um porto quente, nojento, antipático, com muitas moléstias para coroar todos os outros problemas.