— Oh, não precisa se preocupar, tenho uma saúde de escocês, e fomos convidados pelo governo.
— O que eu queria enfatizar é que, atualmente, existe muito pouca influência governamental.
— Ah, mas lá existem algumas rochas sedimentares muito interessantes que querem que eu examine. Não precisa se preocupar, sr. Dunross. Somos geólogos, não políticos. Tudo está combinado... na verdade, esse é o objetivo de toda a nossa viagem... não há com que se preocupar. Bem, tenho que ir andando.
— Ah! Vou oferecer um coquetel no sábado, das sete e meia às nove da noite — falou. — Quem sabe o senhor e sua mulher não gostariam de comparecer? Então poderemos conversar um pouco mais sobre a Nova Guiné.
— Oh, oh, mas quanta gentileza! Eu... bem... iremos com prazer. Onde...
— Mandarei um carro ir buscá-los. Agora talvez queira ir se encontrar com a sra. Kirk. Não tocarei em Alan, se é o que deseja.
— Ah! Ah, sim. Pobre Alan! Por um momento, discutindo as rochas sedimentares, cheguei a me esquecer dele. É curioso, não é?, como a gente se esquece com facilidade.
Dunross despachou-o com outra assistente e fechou a porta. Cuidadosamente, rompeu as fitas adesivas que selavam o pacote de Alan. Lá dentro havia um envelope e outro pacote. O envelope estava endereçado a "Ian Dunross, particular e confidencial". Ao contrário da outra carta, que fora escrita à mão, esta fora batida à máquina:
"Caro sr. Dunross: Esta lhe chegará às mãos, às pressas, por intermédio do meu velho amigo Jamie. Recebi notícias muito inquietantes. Há um outro 'vazamento' de segurança muito sério no nosso sistema britânico ou americano, e está bem claro que nossos adversários estão aumentando seus ataques clandestinos. Um pouco dessa atividade pode extravasar em cima até de mim, até o senhor, daí minha ansiedade. Do senhor porque pode ser que a existência da nossa série de documentos altamente secretos tenha sido descoberta. Se alguma coisa fora do comum me acontecer, por favor ligue para 871-6565, em Genebra. Peça para falar com a sra. Riko Gresserhoff. Para ela, meu nome é Hans Gresserhoff. O nome verdadeiro dela é Riko Anjin. Fala alemão, japonês e inglês... e um pouco de francês... e se eu ainda tiver algum dinheiro a receber, por favor, entregue-o a ela. Existem alguns papéis que ela lhe dará, alguns para transmissão. Por favor, entregue-os pessoalmente, quando for conveniente. Como já disse, é raro encontrar alguém em quem confiar. Confio no senhor. É a única pessoa na terra que sabe da existência dela, e seu nome real. Lembre-se, é vital que nem esta carta nem meus documentos anteriores saiam de suas mãos para as de qualquer pessoa.
"Primeiro, quero explicar sobre o Kirk: acredito que, dentro de uns dez anos, as nações árabes deixarão de lado suas diferenças e usarão o poder real que têm, não contra Israel diretamente, mas contra o mundo ocidental... forçando-nos a uma posição intoleráveclass="underline" abandonamos Israel... ou morremos de fome? Eles usarão o seu petróleo como arma de guerra.
"Se conseguirem se unir, um punhado de xeques e reis feudais na Arábia Saudita, Irã, Estados do golfo Pérsico, Iraque e Líbia poderão, quando lhes der na telha, cortar os suprimentos ocidentais e japoneses da única matéria-prima que lhes é indispensável. Terão uma oportunidade ainda mais sofisticada: aumentar os preços a níveis sem precedentes, e manter nossas economias nas suas mãos. O petróleo é a arma definitiva para os árabes. Invencível, enquanto dependermos do seu petróleo. Daí meu interesse imediato na teoria de Kirk.
"Hoje em dia, trazer um barril de petróleo à superfície de um deserto árabe custa cerca de oito cents. Um barril a granel, trazido do mar do Norte para terra, na Escócia, custaria sete dólares. Se o petróleo árabe pulasse do seu preço atual de três dólares o barril no mercado mundial para nove... acho que entendeu imediatamente aonde quero chegar. Então, o mar do Norte passaria a ser imensamente viável, e um tesouro nacional britânico.
"Jamie disse que os campos ficam ao norte e a leste da Escócia. O porto de Aberdeen seria o lugar lógico para trazê-lo para terra. Um homem sensato começaria a se interessar por desembarcadouros, imóveis, campos de pouso, em Aberdeen. Não se preocupe com o mau tempo. Os helicópteros serão os elos de conexão com os poços de perfuração. Dispendiosos, sim, mas viáveis. Além do mais, se aceitar minha previsão de que os trabalhistas ganharão a eleição próxima por causa do escândalo Profumo... "
O caso ganhara todos os jornais. Seis meses antes, em março, o secretário de Estado da Guerra, John Profumo, negara formalmente ter tido um caso com uma call girl notória, Christine Keeler, uma das várias moças que subitamente ganharam destaque internacional, assim como o seu cáften, Stephen Ward, até então apenas um renomado osteopata da alta sociedade londrina. Tinham circulado rumores não-confirmados de que a garota também estava tendo um caso com um dos adidos soviéticos, um conhecido agente do KGB, comandante Ievguêni Ivánov, que tinha sido chamado de volta à Rússia no mês de dezembro anterior. Durante o escândalo que se seguira, Profumo pedira demissão, e Stephen Ward se suicidara.
"É curioso que o caso tenha sido revelado à imprensa na hora perfeita para os soviéticos. Ainda não tenho provas, mas na minha opinião não foi apenas uma coincidência. Lembre-se de que faz parte da doutrina soviética fragmentar os países — Coréias do Norte e do Sul, Alemanhas Oriental e Ocidental, e daí por diante —, e depois deixar seus doutrinados subalternos fazerem o serviço para eles. Assim, acho que os socialistas pró-soviéticos vão ajudar a fragmentar a Grã-Bretanha em Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Sul e do Norte (pense no Eire e na Irlanda do Norte, uma arena feita de encomenda para as diabruras soviéticas).
"Agora, quanto à minha sugestão para o Plano de Contingência Número Um da Casa Nobre: ser circunspecto em relação à Inglaterra e concentrar-se na Escócia como base. O petróleo do mar do Norte tornaria a Escócia abundantemente auto-suficiente. A população é pequena, valente e nacionalista. Como entidade, a Escócia seria viável, e defensável... com um abundante suprimento exportável de petróleo. Uma Escócia forte talvez pudesse equilibrar a balança e ajudar uma Inglaterra claudicante... o nosso pobre país, sr. Dunross. Temo imensamente pela Inglaterra.
"Talvez esta seja mais uma das minhas teorias exageradas. Mas reconsidere a Escócia, Aberdeen, à luz de um novo mar do Norte. "
— Ridículo! — explodiu Dunross, e parou de ler por um momento, o pensamento incendiado. Depois aconselhou a si próprio: "Não perca a cabeça! Às vezes o Alan é muito imaginativo, dado a exageros. É um imperialista de direita que enxerga quinze vermelhos debaixo de cada cama. Mas, o que diz poderia ser possível. Se for possível, tem que ser levado em consideração. Se houvesse uma escassez mundial de petróleo e nós estivéssemos preparados, poderíamos ganhar uma fortuna", pensou, sua agitação aumentando. "Seria fácil começar a investir em Aberdeen agora, fácil começar uma retirada calculada de Londres sem prejudicar coisa alguma... Edimburgo oferece todas as modernas facilidades bancárias, de comunicação, portos, campos de pouso, tudo de que precisaríamos para operar eficientemente. A Escócia para os escoceses, com petróleo abundante para exportar? Completamente viável, mas não separada, e sim dentro de uma Grã-Bretanha forte. Mas, se a cidade de Londres, o Parlamento e a Threadneedle Street ficassem entupidos de esquerdistas... "
Os pêlos de sua nuca arrepiaram-se à idéia de uma Grã-Bretanha enterrada sob uma mortalha de socialismo de esquerda. "E quanto a Robin Grey? Ou Julian Broadhurst?", perguntou-se, gelado. "Sem dúvida nacionalizariam tudo, agarrariam o petróleo do mar do Norte, se houvesse algum, e dariam cabo de Hong Kong... já disseram que o fariam. "
Com esforço, guardou essa idéia para mais tarde, virou a página e continuou a ler.
"A seguir, acho que identifiquei três dos agentes infiltrados da Sevrin. A informação saiu cara (posso precisar de mais dinheiro antes do Natal), e não estou certo da sua exatidão. (Estou tentando reconferi-la imediatamente, pois dou-me conta da importância que tem para o senhor. ) Acredita-se que os toupeiras sejam: Jason Plumm, de uma companhia chamada Propriedades Asiáticas; Lionel Tuke, da companhia telefônica; e Jacques de Ville, da Struan... "