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Soltou a respiração. "Será que devo fazer pelo Duncan o que Chen-chen fez por mim?"

A carta continuava:

"Como já disse, não estou completamente certo, mas minha fonte geralmente é impecável.

"Lamento dizer que a guerra de espionagem tornou-se mais quente desde que descobrimos e prendemos os espiões Blake, Vassal (que trabalhava com códigos no Almirantado), Philby, Burgess e Maclean, todos desertores. A propósito, todos têm sido vistos em Moscou. Pode contar com o aumento radical da espionagem na Ásia. (Conseguimos provas contra o primeiro-secretário Skripov, da embaixada soviética em Camberra, Austrália, e o expulsamos do país em fevereiro, o que rompeu o círculo de espionagem dele, que era, creio eu, ligado à sua Sevrin e também tinha envolvimentos em Bornéu e na Indonésia. )

"O mundo livre agora está abundantemente infiltrado. A MI-5 e MI-6 estão maculadas. Até mesmo a CIA. Enquanto fomos ingênuos e confiantes, nossos oponentes perceberam, desde cedo, que o equilíbrio futuro dependeria tanto do poder econômico quanto do poder militar, e assim se puseram em campo para adquirir (roubar) nossos segredos industriais.

"Curiosamente, os meios de comunicação do mundo livre omitem-se em ressaltar que todos os avanços soviéticos baseiam-se originariamente em uma das nossas invenções ou técnicas roubadas, que sem os nossos cereais eles morreriam de fome, e que sem a nossa imensa e sempre crescente assistência financeira e créditos para comprar nossos cereais e tecnologia eles não poderiam abastecer e reabastecer toda a sua infra-estrutura militar-industrial, que mantém o seu império e povo embevecidos.

"Recomendo que use seus contatos na China para cimentá-los ainda mais. Os soviéticos cada vez mais encaram a China como o seu inimigo número 1. O que é igualmente estranho.

Parecem não ter mais aquele medo paranóico dos Estados Unidos, que, sem dúvida, atualmente são a potência militar e econômica mais forte da terra. A China, que é econômica e militarmente fraca, exceto no número de soldados disponíveis, não representa uma ameaça militar real para eles. Mesmo assim, a China os deixa apavorados.

"Um dos motivos é a fronteira de oito mil quilômetros que partilham. Outro é o sentimento de culpa nacional pelas vastas áreas de território chinês histórico que a Rússia soviética engoliu ao longo dos séculos; outro é o fato de saberem que os chineses são um povo paciente, de excelente memória. Um dia os chineses retomarão suas terras. Sempre retomaram suas terras, quando era militarmente viável fazê-lo. Já ressaltei muitas vezes que a pedra angular da política soviética (imperialista) é isolar e fragmentar a China, para conservá-la fraca. O grande bicho-papão deles é uma aliança tríplice entre a China, o Japão e os Estados Unidos. A sua Casa Nobre deve trabalhar neste sentido. (Também no sentido da criação de um mercado comum entre os Estados Unidos, o México e o Canadá, totalmente essencial, na minha opinião, a um continente americano estável. ) Por onde mais, senão através de Hong Kong — e portanto das suas mãos —, irá toda a riqueza destinada à China?

"Por último, voltando à Sevrin: corri um grande risco e me aproximei do nosso melhor auxiliar, de valor inestimável, no âmago do ultra-secreto Departamento 5 do KGB. Hoje ele me respondeu que a identidade de Arthur, o líder da Sevrin, é Classificação Um, fora até mesmo do alcance dele. A única pista que ele pôde me dar foi que o homem é inglês, e que uma de suas iniciais é R. Não é lá grande coisa, infelizmente.

"Aguardo poder revê-lo. Lembre-se: meus papéis não devem jamais cair nas mãos de qualquer outra pessoa. Lembranças, A. M. Grant. "

Dunross guardou de memória o número do telefone de Genebra, anotou-o em código no seu caderno de endereços e acendeu um fósforo. Ficou vendo o papel da carta encrespar-se e começar a queimar.

"R. Robert, Ralph, Richard, Robin, Rod, Roy, Rex, Rupert, Red, Rodney, e sempre de volta a Roger. E Robert. Robert Armstrong ou Roger Crosse ou... ou quem?

"Santo Deus!", pensou Dunross, sentindo-se fraco.

— Genebra 871-6565, ligação direta — pediu, no seu aparelho particular. O cansaço o envolveu. Dormira mal na noite anterior, os sonhos arrastando-o de volta aos tempos da guerra, de volta à sua cabine em chamas, o cheiro de queimado nas narinas. Depois acordara, gelado, escutando o barulho da chuva. Logo se levantara, silenciosamente, deixando Penn ferrada no sono, a Casa Grande quieta, exceto pela velha Ah Tat, que, como sempre, fizera o seu chá. A seguir, fora para o hipódromo, e depois fora perseguido o dia todo, os inimigos fechando o cerco, e nada senão más notícias. "Coitado do John Chen", pensou, depois esforçou-se para afastar o cansaço. "Talvez possa tirar uma soneca entre as cinco e as seis. Vou precisar estar alerta, hoje à noite. "

A telefonista fez a ligação, e ele ouviu o telefone tocar.

— Ja? — disse a voz suave.

— Hier ist Herr Dunross in Hong Kong. Frau Gresserhoff, bit te — falou, em bom alemão.

— Oh! — Uma longa pausa. — Ich bin Frau Gresserhoff, Tai-pan?

— Ah so desu! Ohayo gozaimasu. Anata wa Anjin Riko-san? — perguntou, em excelente japonês. Bom dia. Seu nome é também Riko Anjin?

— Hai. Hai, dozo. Ah, nihongo wa jouzu desu. — É. Ah, o senhor fala japonês muito bem.

— Iye, sukoshi, gomen nasai, — Não, lamento, só um pouquinho.

Como parte do seu treinamento, passara dois anos no escritório de Tóquio.

— Ah, sinto muito — continuou, em japonês —, mas estou ligando a respeito do sr. Gresserhoff. Já soube?

— Já. — Dava para notar a tristeza dela. — Já. Soube na segunda-feira.

— Acabo de receber uma carta dele. Disse que a senhora tem... tem algumas coisas para mim — falou, cautelosamente.

— Sim, tai-pan, tenho.

— Seria possível a senhora trazê-las para mim aqui? Infelizmente não posso ir aí.

— Sim. Sim, claro — falou, hesitante, num japonês suave e agradável. — Quando quer que eu vá?

— O mais depressa possível. Se for ao nosso escritório na Avenue Bern, daqui a duas horas, digamos ao meio-dia, haverá passagens e dinheiro à sua espera. Acredito que haja uma conexão da Swissair partindo hoje à tarde... se fosse possível...

Nova hesitação. Ele esperou pacientemente. A carta de Alan se contorcia no cinzeiro, enquanto queimava.

— É — falou. — Seria possível.

— Tomarei todas as providências para a senhora. Quer que alguém a acompanhe?

— Não, não, obrigada. — Ela falava tão baixo que ele teve que tapar a orelha com a mão para escutar melhor. — Por favor, desculpe-me por dar-lhe tanto trabalho. Eu mesma tomo as providências.

— Não é trabalho algum — disse, satisfeito por estar falando num japonês fluente e coloquial. — Por favor, vá ao meu escritório ao meio-dia... A propósito, o tempo aqui está quente e úmido. Ah, sinto muito, desculpe perguntar, mas seu passaporte é suíço ou japonês, e com que nome vai viajar?

Uma pausa ainda mais longa.

— Bem... acho que devo... é suíço, e devo viajar com o nome de Riko Gresserhoff.

— Obrigado, sra. Gresserhoff. Aguardo a sua chegada. Kiyotsukette — terminou. Boa viagem.

Pensativo, colocou o fone no gancho. A carta de Alan terminou de queimar, num filete de fumaça. Cuidadosamente, esmigalhou as cinzas, transformando-as em pó.

"Bem, e quanto a Jacques?"

46

17h45m

Jacques de Ville subiu pesadamente as escadarias do Hotel Mandarim, até o mezanino, cheio de gente tomando o chá do fim da tarde.

Tirou a capa de chuva e passou por entre a multidão, sentindo-se muito velho. Acabara de falar com a mulher, Susane, em Nice. O especialista de Paris fizera novo exame em Avril, e achara que os ferimentos internos dela talvez não fossem tão graves quanto se pensara inicialmente.