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— Ele falou que temos que ser pacientes — dissera-lhe Susanne no seu francês parisiense arrebatado. — Mas, Deus, como podemos? A pobre criança está desesperada, e perdendo o juízo. Fica repetindo: "Mas era eu quem estava dirigindo. Era eu, mamãe. Se não fosse por mim o meu Borge estaria vivo, se não fosse por mim... " Estou com medo do que possa acontecer com ela, chéri!

— Ela já sabe da... dos ferimentos internos?

— Não, ainda não. O médico achou melhor não contar até ter certeza — falou Susanne, começando a chorar.

Sofrendo muito, ele a acalmou como pôde, e disse que ligaria para ela dali a um hora. Durante algum tempo, ficou pensando no que devia fazer. Depois tomou suas providências, saiu do escritório e foi para o hotel.

A cabine telefônica pública perto da banca de jornais estava ocupada. Então ele comprou um jornal vespertino e olhou as manchetes. "Vinte mortos nos deslizamentos de lama na área de recolonização... A chuva deverá continuar... Será cancelado o Grande Dia das Corridas de sábado?... Kennedy adverte aos soviéticos para não interferirem no Vietnam... Tratado de Proscrição de Testes Atômicos assinado em Moscou por Dean Rusk, Andrei Gromiko e Sir Alec Douglas-Home, rejeitado pela França e pela China... Os comunistas malaios aumentam sua ofensiva... O segundo filho homem de Kennedy, que nasceu prematuramente, morre... Continua a caçada humana aos responsáveis pelo grande assalto ao trem, na Inglaterra... O escândalo Profumo prejudica o Partido Conservador... ''

— Com licença, senhor, está esperando pelo telefone? — perguntou uma americana, às suas costas.

— Ah, estou, sim. Desculpe, obrigado! Não notei que estava vazia.

Entrou na cabine, fechou a porta, usou a moeda e discou. O telefone do outro lado começou a tocar. Sentiu sua ansiedade aumentar.

— Pronto.

— O sr. Lop-sing, por favor — começou, ainda sem ter certeza de que aquela era a voz certa.

— Aqui não há nenhum sr. Lop-ting. Desculpe, é engano.

— Quero deixar um recado — falou, aliviado ao reconhecer a voz de Suslev.

— Discou o número errado. Procure no catálogo. Quando o código foi completado corretamente, ele começou a dizer:

— Desculpe ter liga...

— Qual é o seu número? — Suslev interrompeu-o com brusquidão.

Jacques deu-o imediatamente.

— É de uma cabine telefônica?

— É.

Imediatamente, a linha ficou muda. Enquanto desligava, sentiu um súbito suor nas mãos. O número de Suslev devia ser usado apenas numa emergência, mas era uma emergência. Ficou fitando o aparelho.

— Com licença, senhor — chamou a americana, do outro lado da porta de vidro. — Posso usar o telefone? É só um minutinho.

— Oh! Oh, eu... não vou demorar nada — falou Jacques, momentaneamente perturbado. Notou que agora havia três chineses esperando impacientes atrás dela. Olhavam-no com cara feia. — Eu... só mais um segundo. — Fechou de novo a porta, as costas molhadas de suor. Esperou, esperou, esperou, e então o telefone tocou. — Alô?

— Qual é a emergência?

— Eu... acabo de ter notícias de Nice. — Cuidadosamente, Jacques contou a Suslev a conversa que tivera com a mulher, sem mencionar nomes. — Vou para lá imediatamente, no vôo da noite... e achei melhor contar-lhe pessoalmente para que...

— Não, hoje à noite é muito cedo. Faça a reserva para amanhã, no vôo da noite.

Jacques sentiu seu mundo desabar.

— Mas falei com o tai-pan faz alguns minutos, e ele disse que eu podia ir esta noite. Já fiz a reserva. Volto daqui a três dias. Ela parecia muito perturbada ao telefone. Não acha que...

— Não! — disse Suslev, ainda mais bruscamente. — Ligo para você hoje à noite, conforme o combinado. Isso podia ter esperado até lá. Não use este número de novo a não ser que haja uma emergência de verdade!

Jacques abriu a boca para dar uma resposta malcriada, mas o aparelho já tinha sido desligado. Ele percebera a raiva do outro. "Mas é uma emergência", disse consigo mesmo, furioso, começando a discar de novo. "Susanne precisa de mim, assim como Avril. E o tai-pan aprovou a idéia. "

"Boa idéia, Jacques", dissera Dunross imediatamente. "Fique o tempo que for preciso. Andrew pode fazer a sua parte. "

"E agora... Merde, o que vou fazer? Suslev não é o meu guardião.

"Não é?"

De Ville parou de discar, suando frio, e desligou.

— Terminou, senhor? — chamou a americana, com seu sorriso insistente. Estava na casa dos cinqüenta, o cabelo tingido num tom azulado. — Tem uma fila esperando.

— Ah... ah, sim, desculpe. Abriu a porta.

— O senhor esqueceu o seu jornal — disse ela, educadamente.

— Oh, sim, obrigado.

Jacques de Ville voltou para pegá-lo e saiu da cabine, desalentado. Imediatamente, todos os chineses, três homens e uma mulher, adiantaram-se violentamente, tirando Jacques e a americana do caminho, a cotoveladas. A matrona corpulenta chegou primeiro até a porta, e bateu-a atrás de si, enquanto os outros se empurravam para ser o seguinte.

— Ei... era a minha vez — começou a americana, irada, mas eles nem lhe deram atenção, apenas xingaram-na, e à sua ascendência, de maneira direta e vulgar.

Suslev estava no apartamento pequeno de Kowloon, um dos locais seguros de Arthur, o coração ainda disparado pelo inesperado telefonema. Na sala havia um cheiro forte, úmido, sujo, de comida velha, e ele fitava o telefone, furioso com Jacques de Ville. "Seu bosta cretino sem mãe! Jacques está se tornando um risco. Hoje à noite direi ao Arthur o que deve ser feito com ele. Quanto mais cedo, melhor! É, e quanto mais cedo você se acalmar, melhor", advertiu a si mesmo. "Gente com raiva comete erros. Guarde a sua raiva!"

Com esforço, foi o que fez. Depois, saiu para o patamar escuro e descascado, trancando a porta atrás de si. Outra chave destrancou a porta de Ginny Fu, colada à dele.

— Quer vodca? — perguntou ela, com seu sorriso atrevido.

— Quero.

Ele retribuiu o sorriso, gostando de olhar para ela. A moça estava sentada de pernas cruzadas no sofá, usando apenas o sorriso. Estavam se beijando quando o telefone tocou pela primeira vez. Havia dois telefones no apartamento. O dela e o outro, o secreto, dentro do armário, que apenas ele usava. Arthur lhe dissera que era seguro, clandestino, não constava do catálogo, e era impossível colocar-lhe uma escuta. Mesmo assim, Suslev somente usava o outro apartamento e o seu telefone, para as emergências.

"Matieriebiets, Jacques", pensou, ainda nervoso devido ao toque repentino do seu telefone particular.

— Beba, továrich — falou Ginny, oferecendo-lhe o copo. — Depois me beba, heya?

Ele devolveu o sorriso, pegou a vodca e correu uma mão apreciativa pelo traseirinho jeitoso dela.

— Ginny, gólubuchka¹, você é uma boa garota.

¹ "Pombinha", em russo. (N. do E. )

— É claro. Eu a melhor garota para você. — Estendeu a mão e acariciou o lóbulo da orelha dele. — Nós fuque-fuque, heya?

— Por que não? — Ele bebeu o líquido ardente devagar, querendo que durasse bastante. Os dedinhos ágeis dela desabotoavam-lhe a camisa. Ele fez com que ela parasse por um momento e beijou-a. Ela gostou do beijo, e retribuiu-o da mesma forma.

— Espere até sem roupa, heya? — disse Ginny, com uma risadinha abafada.

— Na semana que vem vou embora, sabe? — disse ele, dando-lhe um abraço apertado. — Que tal você vir junto, hem? O passeio que sempre lhe prometi?

— Oh! Oh, verdade? — O sorriso dela era imenso. — Quando? Quando? Não está brincando?

— Você pode vir comigo. Vamos parar em Manila. Nossa primeira parada será em Manila, depois vamos para o norte, e voltamos para cá dentro de um mês.

— Ah, um mês inteiro... ah, Gregy! — Ela o abraçou com toda a sua força. — Vou ser a melhor garota de comandante de navio de toda a China!