— É, vai, sim.
— Quando vai... quando vamos?
— Na semana que vem. Aviso quando.
— Ótimo. Amanhã, vou tirar passaporte...
— Não, nada de passaporte, Ginny. Jamais o darão a você. Aqueles vibliadoks impedirão você. Jamais deixarão que venha comigo... ah, não, gólubuchka, aquela polícia suja não deixará que venha comigo.
— Então, que faço, heya?
— Vou contrabandeá-la para dentro do navio numa arca!
— Ele soltou uma risada gostosa. — Ou quem sabe num tapete mágico. Hem?
Ela ergueu para ele os olhos escuros, marejados e ansiosos.
— Verdade você me leva? Verdade? Um mês no seu navio, heya?
— Pelo menos um mês. Mas não conte a ninguém. A polícia me vigia o tempo todo, e se souber, não deixará que você venha comigo. Compreendeu?
— Todos os deuses sejam testemunhas não vou contar ninguém, nem minha mãe — jurou Ginny com veemência, depois abraçou-o de novo com a imensidão da sua felicidade.
— Eeee, fico com muito prestígio, como mulher de comandante! — Outro abraço, e ela deixou os dedos vagarem, e ele estremeceu involuntariamente. Ela riu e começou a despi-lo de novo. — Vou dar você o melhor, agora. O melhor.
Ela usou os dedos e os lábios com perícia, tocando, tateando, movendo-se contra ele, concentrando-se na sua tarefa até que ele soltou uma exclamação e tornou-se um só, juntamente com os deuses, nas Nuvens e Chuva. As mãos e os lábios dela continuaram nele, sem deixá-lo, até que a última fraçãozinha de prazer se esgotasse. Depois, ela parou, e enroscou-se contra ele, escutando o seu respirar profundo, muito contente por ter feito bem o seu trabalho. Ela própria não experimentara as Nuvens e Chuva, embora tivesse fingido várias vezes, para aumentar o prazer dele. Apenas duas vezes, entre todas as que tinham dormido juntos, ela chegara ao clímax, e em ambas estava muito bêbada, e não tinha mesmo certeza se chegara ou não. Era somente com o Terceiro Cozinheiro de Sanduíches Noturno Tok, do Victoria and Albert, que ela chegava ao clímax todas as vezes. "Que todos os deuses abençoem a minha sorte!", pensou, contente. "Com um mês de viagem e o dinheiro extra que Grigóri vai me dar, e, com sorte, mais um ano com ele, teremos dinheiro bastante para abrir o nosso restaurante. Poderei ter filhos e netos, e tornar-me uma só pessoa com os deuses. Ah, que sorte tenho!"
Ela agora estava cansada, pois esforçara-se muito. Por isso, acomodou-se mais confortavelmente de encontro ao corpo dele, fechando os olhos, gostando dele, grata aos deuses por terem-na ajudado a superar o nojo inicial que sentia pelo tamanho dele, pela sua pele de sapo branca e o cheiro rançoso do seu corpo. "Graças a todos os deuses!", pensou, satisfeita, pegando no sono.
Suslev não estava dormindo. Deixava o pensamento vagar, mente e corpo em paz. O dia fora bom, a não ser por um pequeno detalhe ruim. Depois de ter-se encontrado com Crosse na pista de corridas, voltara para o navio, abismado de que pudesse estar havendo um "vazamento" de segurança no Ivánov. Codificara a informação de Crosse sobre a Operação Dry Run e todas as outras coisas, e transmitira-as da segurança do seu camarote. Mensagens recebidas alertavam-no de que Voranski só seria substituído na próxima visita do Soviétski Ivánov, que o psicólogo perito em interrogatórios com substâncias químicas, Koronski, estava à disposição para vir de Bangkok com aviso prévio de doze horas, e que ele, Suslev, devia assumir a direção da Sevrin, e manter contato direto com Arthur.
"Não falhe na obtenção das pastas de A. M. Grant. "
Ele se recordava do arrepio que tomara conta dele às palavras "não falhe". Tão poucos fracassos, tantos sucessos! Mas só as falhas e fracassos eram lembrados. "Onde estará o 'vazamento' de segurança a bordo? Quem mais leu as pastas de A. M. Grant, além de mim? Apenas Dmítri Metkin, meu imediato. Não pode ser ele. O 'vazamento' deve vir de outro lugar.
"Até onde posso confiar em Crosse?
"Não demais, mas sem dúvida o sujeito é o agente mais valioso que temos no campo capitalista da Ásia, e tem de ser protegido custe o que custar. "
A sensação do corpo de Ginny contra o dele era agradável. Ela respirava suavemente, com um leve estremecimento de vez em quando, o peito subindo e descendo. Os olhos dele atravessaram a porta e foram se fixar no relógio antigo que ficava num nicho numa das prateleiras desarrumadas da cozinha, em meio a garrafas, latas e recipientes meio usados. A cozinha ficava numa recâmara que dava para a sala. Ali, no único dormitório, a cama era imensa e ocupava quase todo o quarto. Ele a comprara para ela logo que se haviam conhecido, havia dois, quase três anos. Era uma boa cama, limpa, macia, mas não macia demais, uma mudança para melhor do seu beliche a bordo.
E Ginny também era uma amante agradável. Dócil, tranqüila, não criava caso. Seu cabelo negro-azulado era curto, uma franja reta caindo sobre a testa alta, como ele gostava... que contraste com Vertinskaia, sua amante em Vladivostok, de olhos cor de avelã rasgados, a longa cabeleira castanha ondulada e o gênio de uma gata selvagem. A mãe dela era uma verdadeira princesa Zergueiev, e o pai, um insignificante comerciante mestiço chinês que comprara a mãe num leilão quando ela estava com treze anos. Ela estava num dos caminhões de gado cheio de crianças que fugiam da Rússia depois do holocausto de 17.
"Liberação, não holocausto", disse alegremente para si mesmo. "Ah, mas é bom deitar com a filha de uma princesa Zergueiev quando se é neto de um camponês que trabalhava nas terras dos Zergueiev. "
Pensar nos Zergueiev fez com que se lembrasse de Aleksei Travkin. Sorriu consigo mesmo. "Pobre Travkin, que idiota! Será que eles realmente vão mandar a princesa Nestorova, a mulher dele, para Hong Kong, no Natal? Duvido. Mas talvez o façam, e Travkin morrerá de choque ao ver aquela bruxa velha das neves, desdentada, enrugada e cheia de artrite. Melhor poupar-lhe essa agonia", pensou, apiedado. "Travkin é russo, e não é um mau homem. "
Olhou de novo para o relógio. Agora, marcava seis e vinte. Sorriu consigo mesmo. Nada a fazer durante algumas horas, exceto dormir, comer, pensar e planejar. Depois, o encontro cuidadoso com o deputado inglês, e, no fim da noite, encontrar-se com Arthur de novo. Soltou uma risadinha abafada. Divertia-o muito saber segredos que Arthur não conhecia. "Mas, afinal, o Arthur também guarda lá os seus segredos", pensou, sem raiva. "Talvez já esteja sabendo dos deputados. É inteligente, muito inteligente, e também não confia em mim.
"Esta é a grande lei: nunca confie noutra pessoa (homem, mulher ou criança) se quiser permanecer vivo, em segurança e longe das garras inimigas.
"Eu estou em segurança porque conheço as pessoas, sei como ficar de boca fechada, e sei como incrementar a política do Estado puramente como parte do meu próprio plano de vida.
"Tantos planos maravilhosos para levar a cabo! Tantos golpes excitantes a serem dados e nos quais tomar parte! E ainda há a Sevrin... "
Deu nova risadinha, e Ginny se mexeu...
— Durma, princesinha — murmurou carinhosamente, como se falasse a uma criança. — Durma.
Obediente, ela não acordou de verdade, apenas tirou o cabelo dos olhos e se ajeitou melhor.
Suslev deixou seus olhos se fecharem, o corpo dela, gostoso, contra o seu. Pousou o braço sobre as ancas dela. A chuva diminuíra durante a tarde. Agora, notou que tinha parado. Bocejou e pegou no sono, sabendo que o temporal ainda não terminara o seu serviço.
47
18h25m
Robert Armstrong esvaziou o copo de cerveja.
— Mais uma — falou, com voz pastosa, fingindo estar bêbado. Estava no Namorada Boa Sorte, um bar lotado e barulhento de Wanchai, no cais do porto, cheio de marujos americanos do porta-aviões nuclear. Recepcionistas chinesas assediavam os fregueses com bebidas, e aceitavam em troca pilhérias, toques e drinques aguados, a preços altos. Ocasionalmente, uma delas pedia um uísque de verdade e o mostrava ao parceiro, para provar que aquele era um bar dos bons, onde não havia trapaça.