Acima do bar ficavam os quartos, mas não era conveniente para os marujos se utilizarem deles. Nem todas as garotas eram limpas ou cuidadosas, não por livre escolha, mas por ignorância. E, no final da noite, podiam afanar-lhes a grana, embora só os muito bêbados fossem roubados. Afinal de contas, não havia necessidade: os marujos estavam dispostos a gastar tudo o que tinham.
— Quer fuque-fuque? — perguntou a criança excessivamente pintada.
"Dew neh loh moh para todos os seus ancestrais", teve vontade de lhe dizer. "Você devia estar em casa, na cama, lendo livros escolares. " Mas não o disse. Não ia adiantar nada. Provavelmente, os próprios pais lhe haviam arranjado aquele emprego, agradecidos, para que toda a família pudesse sobreviver um pouco melhor.
— Quer tomar alguma coisa? — perguntou, sem revelar que falava cantonense.
— Escocês, escocês — pediu a criança, imperiosamente.
— Por que não pede chá, e eu lhe dou o dinheiro, de qualquer maneira? — disse ele, com azedume.
— Fodam-se todos os deuses e as mães dos deuses, não sou trapaceira! — Altivamente, a garota mostrou-lhe o copo sujo que o garçom jogara sobre a mesa. Continha mesmo uísque, dos mais baratos. A garota esvaziou o copo sem uma careta. — Garçom! Outro escocês e outra cerveja! Você bebe, eu bebo, depois nós fuque-fuque. Armstrong olhou para ela.
— Como se chama?
— Lily. Lily Chop. Vinte e cinco dólares, pouco tempo.
— Quantos anos tem?
— Bastante. Quantos anos você?
— Dezenove.
— Hum, tiras sempre mentem!
— Como sabia que sou um tira?
— Patroa contou. Só vinte dólares, heya?
— Quem é a patroa? Onde está?
— Atrás do bar. Ela mama-san.
Armstrong forçou a vista, em meio à fumaceira. A mulher era uma magricela na casa dos cinqüenta que suava e dava duro, mantendo um papo constante e vulgar com os marinheiros enquanto atendia aos pedidos.
— Como ela soube que sou tira? Lily deu de ombros de novo.
— Escute, ela mandou deixar você contente, ou eu no olho da rua. Vamos subir, heya? Por conta da casa, nada de vinte dólares.
A menina se levantou. Dava para ver o medo dela, agora.
— Sente-se — ordenou.
Ela sentou-se, com mais medo ainda.
— Se eu não agrado, ela me joga na...
— Você me agrada. — Armstrong soltou um suspiro. Era um truque antigo. Se você ia, pagava, se não ia, pagava, e o patrão sempre mandava uma jovenzinha. Entregou-lhe cinqüenta dólares. — Tome. Vá e dê para a mama-san, com meus agradecimentos. Diga a ela que agora não posso fuque-fuque porque estou incomodado! O Honorável Vermelho está comigo!
Lily fitou-o, boquiaberta, depois casquinou como uma velha.
— Eeee, fodam-se todos os deuses! Essa é boa!
E lá se foi ela, equilibrando-se com dificuldade, sobre os saltos altos, o cheong-sam vulgar fendido bem alto, mostrando as pernas e nádegas magras, muito magras.
Armstrong acabou a cerveja, pagou a conta e ficou de pé. Imediatamente, tomaram conta da sua mesa, e ele foi abrindo caminho até a porta por entre os marujos suados e ruidosos.
— Será sempre bem-vindo — disse a mama-san, quando ele passou por ela.
— Claro — respondeu ele, sem malícia.
A chuva agora não passava de uma garoa, e estava ficando escuro. Na rua havia muitos outros marujos bagunceiros, todos americanos — os comandantes dos navios britânicos tinham dado ordem ao seu pessoal para não entrar naquela área por alguns dias. Sentia a pele úmida e quente sob a capa de chuva. Dali a um momento, tinha saído da Gloucester Road e do cais do porto e subia a O'Brien Road, no meio do povo, pisando nas poças d'água, a cidade com cheiro bom de coisa limpa e lavada. Na esquina, dobrou a Lochart Road, e finalmente achou o beco que procurava. Estava movimentado, como de costume, com barraquinhas de rua, lojas e cães esqueléticos, galinhas engaioladas, patos secos fritos e carnes pendendo de ganchos, legumes e frutas. Pouco além do começo do beco ficava uma barraquinha com bancos, sob um toldo de lona para proteger da garoa. Ele fez um gesto de cabeça para o proprietário, escolheu um canto na sombra, pediu um prato de talharim de Cingapura — fininho, levemente frito, seco, com pimenta, temperos, camarão cortidinho e verduras frescas — e esperou.
Brian Kwok.
Sempre de volta a Brian Kwok.
E sempre de volta aos quarenta mil em notas usadas que encontrara na gaveta da sua mesa, aquela que mantinha sempre trancada.
"Concentre-se", disse para si mesmo, "ou vai escorregar. Vai cometer um erro. Não pode se dar a esse luxo!"
Estava exausto, e sentia-se sujo, uma sujeira que água quente e sabonete não conseguiam limpar. Com esforço, fez os olhos buscarem a presa, os ouvidos escutarem os sons da rua, e o nariz saborear a comida.
Tinha acabado de esvaziar a tigela quando viu o marujo americano. O homem era magro, usava óculos, e era bem mais alto que os pedestres chineses, embora caminhasse levemente curvado. Estava abraçado a uma mulher da rua. Ela segurava um guarda-chuva, cobrindo-os, e puxava o braço dele.
— Não. Por aí, não, benzinho — pedia. — Meu quarto outro lado... compreende?
— Claro, boneca, mas primeiro vamos para este lado, e depois para o seu lado. Tá? Vamos, querida.
Armstrong encolheu-se mais na sombra. Observou-os enquanto se aproximavam, perguntando-se se ele seria o tal. O sotaque era sulista, doce, e ele tinha vinte e tantos anos. Enquanto andavam pela rua movimentada, ele olhava de um lado para outro, procurando se orientar. Depois, Armstrong notou que ele vira a loja do alfaiate num dos cantos do beco, chamada Ternos Feitos à Mão, de Pop-ting, e, do lado oposto, um restaurante pequeno e aberto, iluminado com lâmpadas nuas e com um cartaz toscamente escrito pregado num poste: bem-vindos os marinheiros americanos. A coluna de caracteres chineses que encimava a porta dizia: mil anos de saúde para O RESTAURANTE MAO TSÉ-TUNG.
— Vamos, boneca — disse o marujo, animando-se. — Vamos tomar uma cerveja aqui.
— Lugar não presta, benzinho, melhor vir meu bar, heya? Melhor...
— Porra, vamos tomar uma cerveja aqui! — Entrou no restaurante aberto e sentou-se a uma das mesas de plástico, volumoso no seu impermeável. Ela o seguiu, de cara amarrada. — Cerveja! Duas cervejas! San Miguel, tá? Sacou?
De onde estava, Armstrong podia vê-los nitidamente. Uma das mesas estava ocupada por quatro cules, que tomavam sopa de talharim ruidosamente. Lançaram um breve olhar para o marujo e a garota. Um deles fez um comentário obsceno, e os outros riram. A garota enrubesceu e deu-lhes as costas. O marinheiro cantarolava enquanto olhava ao seu redor com cuidado, bebericando a cerveja. Depois levantou-se.
— Tenho que ir à privada.
Sem hesitar, dirigiu-se para a parte dos fundos, atravessando a cortina de contas carcomidas, o empregado do balcão a observá-lo com azedume. Armstrong soltou um suspiro e relaxou. A armadilha fora acionada.
Dali a um momento, o marinheiro voltou.
— Vamos — disse —, vamos sair daqui.
Esvaziou o copo, pagou, e eles se retiraram de braços dados, como haviam chegado.
— Quer mais talharim de Cingapura? — o dono da barraquinha perguntou grosseiramente a Armstrong, os olhos hostis meras fendas no rosto de maçãs altas.
— Não, obrigado. Só outra cerveja.
— Não tem cerveja.
— Fodam-se você e toda a sua descendência — sibilou Armstrong num perfeito cantonense de sarjeta. — Será que sou algum idiota da Montanha Dourada? Não, sou um freguês da sua merda de restaurante. Arranje-me uma merda duma cerveja ou mandarei meus homens abrirem o seu Saco Secreto e darem os amendoins que você chama de tesouro ao cachorro mais próximo!
O homem ficou calado. Emburrado, foi até a barraquinha vizinha, pegou uma San Miguel, trouxe-a e colocou-a sobre o balcão, aberta. Os outros fregueses ainda fitavam Armstrong, espantados. Abruptamente, ele escarrou ruidosamente e lançou um olhar gélido ao homem mais próximo. Viu que ele estremeceu e desviou o olhar. Inquietos, os demais voltaram a se concentrar nas suas tigelas, constrangidos por estarem na presença de um policial bárbaro que tinha as péssimas maneiras de soltar palavrões daquele jeito, na língua deles.