Armstrong ajeitou-se mais confortavelmente no banquinho, depois correu os olhos pela rua e pelo beco, esperando pacientemente.
Não teve que esperar muito até ver o europeu pequeno, atarracado e robusto subindo o beco, junto à parede, parando e espiando a vitrine de uma loja de sapatos baratos por trás das barraquinhas que lotavam o beco estreito.
"Ah, é um profissional", pensou Armstrong, muito satisfeito, sabendo que o homem estava usando o vidro como espelho para observar o restaurante. O homem não tinha pressa. Usava um impermeável de plástico e um chapéu informe, e não chamava a atenção. Seu corpo ficou momentaneamente oculto quando um cule passou por ele, oscilando sob a carga de pesados embrulhos em cada extremidade do pedaço de bambu que levava aos ombros. Armstrong notou as panturrilhas retesadas do cule, cheias de varizes, enquanto vigiava os pés do outro homem. Eles se moveram, e o homem saiu do beco, coberto pelo cule, e não parou, subindo a rua.
"Ele é muito bom", pensou o policial com admiração, sem perdê-lo de vista. "O sacana já fez isso antes. Deve ser do KGB, para ser esperto assim. Bem, não vai demorar muito, agora, meu rapaz, para você ser fisgado", falou com seus botões, sem rancor, como o faria um pescador ao ver uma truta gorda rondando a isca.
O homem estava olhando as vitrines de novo. "Venha, peixinho. "
O homem agia exatamente como uma truta. Desfilava longamente, afastava-se e voltava, mas sempre com muito cuidado, e sem chamar a atenção. Finalmente, entrou no restaurante aberto, sentou-se e pediu uma cerveja. Armstrong soltou um suspiro, agora feliz.
Pareceu haver passado um tempo interminável até que o homem também se levantasse, perguntasse onde ficava o banheiro, caminhasse por entre os poucos fregueses e atravessasse a cortina de contas. Dali a pouco reapareceu, e foi para a sua mesa. Imediatamente os quatro cules que jantavam atacaram-no pelas costas, prendendo-lhe os braços e deixando-o indefeso, enquanto outro amarrava-lhe uma coleira alta e dura no pescoço. Os outros fregueses do restaurante, fregueses de verdade, e não policiais disfarçados do sei, ficaram boquiabertos. Um deles largou os pauzinhos com que comia, dois fugiram, e os outros ficaram imóveis.
Armstrong levantou-se calmamente do seu banquinho e foi para lá. Viu o chinês carrancudo de trás do balcão tirar o avental.
— Cale a boca, seu filho da mãe — disse o sujeito, em russo, para o homem que xingava e se debatia, impotente. — Boa noite, superintendente — disse a Armstrong com um sorriso maroto. Chamava-se Malcolm Sun, era um agente graduado do sei, e o chinês mais antigo naquele 16/2. Fora ele que organizara a intercepção, pagara ao cozinheiro que trabalhava nesse turno e tomara o seu lugar.
— Boa noite, Malcolm. Saiu-se muito bem. — Armstrong voltou a atenção para o agente inimigo. — Como se chama? — perguntou, amavelmente.
— Quem você? Solta... Solta! — falou o homem, num inglês com forte sotaque.
— Ele é todo seu, Malcolm — disse Armstrong. Imediatamente Sun falou, em russo:
— Escute, seu filho da puta, sabemos que você é do Ivánov, que é um mensageiro, e que acaba de pegar um material deixado pelo americano do porta-aviões nuclear. O filho da mãe já está sob custódia, e é melhor...
— Mentiras! Cometeram um erro — gaguejou o homem em russo. — Não sei nada de nenhum americano. Soltem-me!
— Como se chama?
— Vocês cometeram um erro. Soltem-me!
Uma multidão de espectadores boquiabertos cercava agora o restaurante.
Malcolm Sun virou-se para Armstrong.
— Este está preparado, senhor. Não entende russo direito. Parece que teremos que prendê-lo — falou, com um sorriso retorcido.
— Sargento, vá buscar o camburão.
— Sim, senhor.
Um outro agente se afastou rapidamente, enquanto Armstrong chegava mais perto. O russo era grisalho, um homem atarracado, de olhos pequenos e irados. Estava absolutamente preso, sem chance de escapar ou de pôr a mão no bolso ou na boca, para destruir as provas ou a si mesmo.
Armstrong revistou-o habilmente. Nenhum manual ou rolo de filme.
— Onde o colocou? — perguntou.
— Eu não compreendo!
O ódio do homem não incomodava Armstrong. Não tinha raiva dele. O sujeito era apenas um alvo que fora preso na armadilha. "Quem será que denunciou esse pobre sacana, que está morto de medo, e com razão, que agora está arruinado para sempre junto ao KGB e ao seu pessoal, e que pode se considerar um homem morto? Por que será que a batida é nossa, e não de Rosemont e da sua turma da CIA? Como foi que nós ficamos sabendo da entrega do material, e não os ianques? Como foi que Crosse ficou sabendo de tudo isso?" Crosse apenas lhe dissera onde e como, e que o material ia ser deixado por um marujo do porta-aviões e apanhado por alguém do Ivánov.
— É o responsável, Robert. E, por favor, não entorne o caldo.
— Não o farei. Mas, por favor, arranje outra pessoa para o Brian...
— Pela última vez, Robert, vai fazer o interrogatório de Kwok, e está subordinado ao sei até que eu o libere. E se você reclamar mais uma vez, farei com que o expulsem da polícia, de Hong Kong, com que perca sua aposentadoria. E não preciso lembrar-lhe de que o braço do sei é muito comprido. Duvido que voltasse a trabalhar, a não ser que virasse criminoso. E, então, que Deus tenha piedade de você. Fui claro?
— Sim, senhor.
— Ótimo. Brian estará pronto para você às seis horas, amanhã de manhã.
Armstrong estremeceu. "Que sorte impossível tivemos ao pegá-lo! Se Wu Óculos não fosse de Ning-tok... se a velha amah não tivesse falado com o Lobisomem... se a corrida ao banco... Deus, meu, quantos ses! Mas é assim que se pega um peixe dos grandes. Na maioria das vezes, sorte pura, e nada mais. Santo Deus, Brian Kwok! Pobre coitado!
Estremeceu de novo.
— Está bem, senhor? — perguntou Malcolm Sun.
— Estou. — Armstrong voltou a olhar para o russo. — Onde enfiou o filme, o rolo de filme?
O homem fitava-o, desafiador.
— Não compreende! Armstrong soltou um suspiro.
— Compreende, e muito bem. — O camburão preto atravessou a multidão espantada e parou. Dele saltaram mais homens do sei. — Ponham-no lá dentro e não o soltem — disse Armstrong para aqueles que o seguravam. A multidão olhava, tagarelava e vaiava enquanto o homem era carregado para o camburão. Armstrong e Sun entraram atrás dele e fecharam a porta.
— Pode arrancar, motorista — ordenou Armstrong.
— Sim, senhor.
O motorista atravessou a multidão com cuidado e entrou no tráfego congestionado, dirigindo-se para o QG da Central.
— Pois bem, Malcolm. Pode começar.
O agente chinês pegou uma faca ultra-afiada. O soviético empalideceu.
— Como se chama? — perguntou Armstrong, sentado num banco à sua frente.
Malcolm Sun repetiu a pergunta em russo.
— D... Dmítri Metkin — resmungou o homem, ainda seguro firmemente pelos quatro homens, e incapaz de mover um dedo, quer da mão quer do pé. — Marinheiro, primeira classe.
— Mentiroso — falou Armstrong. — Prossiga, Malcolm. Malcolm Sun pôs a faca sob o olho esquerdo do homem, e ele quase desmaiou.
— Isso fica para mais tarde, espião — falou Sun, em russo, com um sorriso gélido. Habilmente, com violência malévola e deliberada, Sun cortou fora rapidamente a capa de chuva. Armstrong revistou-a com muito cuidado, enquanto Sun usava a faca com perícia, cortando fora a camiseta de marinheiro e o resto das roupas que o homem vestia, até deixá-lo nu. A faca não o cortara uma só vez, nem mesmo de leve. Uma revista cuidadosa, feita duas vezes, nada revelou. Nem nos sapatos, ou na sola dos sapatos.