— A não ser que seja uma cópia em micropontos, e nós a tenhamos deixado passar até agora, tem que estar nele — falou Armstrong.
Prontamente os homens que seguravam o russo o dobraram ao meio e Sun pegou as luvas cirúrgicas, a pomada cirúrgica e sondou profundamente. O homem se crispou e gemeu, e lágrimas de dor escorreram-lhe dos olhos.
— Dew neh loh moh — exclamou Sun, contente. Seus dedos retiraram um pequeno tubo de celofane.
— Não o soltem! — falou Armstrong rapidamente. Quando se certificou de que o homem estava seguro, fitou o pacotinho cilíndrico. Dentro dele podia enxergar os círculos de ponta dupla de um rolo de filme.
— Parece um Minolta — falou, distraidamente. Usando alguns lenços de papel, embrulhou com cuidado o tubo de celofane e sentou-se de novo em frente ao homem.
— Sr. Metkin, é acusado segundo a Lei dos Segredos Oficiais de tomar parte num ato de espionagem contra o governo de Sua Majestade e seus aliados. Qualquer coisa que disser será anotada e usada como prova contra o senhor. Bem, senhor — continuou, suavemente —, foi apanhado. Todos pertencemos ao Serviço Especial de Informações, e não estamos sujeitos às leis normais, da mesma forma que o seu KGB. Não queremos machucá-lo, mas podemos detê-lo para sempre, se quisermos. Na solitária, se quisermos. Queremos um pouco de cooperação. Apenas as respostas a algumas perguntas. Se o senhor se recusar, extrairemos as informações que queremos. Usamos muitas das suas técnicas do KGB, e podemos, às vezes, até ir além delas. — Notou um lampejo de terror nos olhos do homem, mas algo lhe dizia que aquele homem seria difícil de ser dobrado. — Qual o seu nome verdadeiro? O seu nome oficial no KGB?
O homem apenas o fitava.
— Qual o seu posto no KGB?
O homem ainda o fitava. Armstrong soltou um suspiro.
— Posso deixar meus amigos chineses se encarregarem de você, se preferir, meu velho. Eles não gostam nem um pouquinho de vocês. Seus exércitos soviéticos invadiram a aldeia de Malcolm Sun, na Manchúria, e a destruíram, assim como à família dele. Lamento, mas preciso ter o seu nome oficial no KGB, seu posto no Soviétski Ivánov, e sua posição oficial.
Novo silêncio hostil. Armstrong deu de ombros.
— Vá em frente, Malcolm.
Sun estendeu a mão e arrancou o pé-de-cabra grosseiro, e, enquanto os quatro homens viraram Metkin brutalmente de bruços e abriram-lhe as pernas, Sun enfiou a ponta. O homem berrou.
— Espere... espere... — falou, ofegante, no seu inglês gutural — espere... sou Dmítri... — Outro berro. — Nikolai Leonov, major, comissário político...
— Chega, Malcolm — falou Armstrong, abismado com a importância da sua presa.
— Mas, senhor...
— Chega — falou Armstrong com aspereza, deliberadamente protetor, assim como Sun era deliberadamente hostil. Com força e violência, Sun devolveu o pé-de-cabra ao gancho onde estivera preso. — Levantem-no — ordenou Armstrong, sentindo pena do homem, da indignidade sofrida. Mas o truque jamais deixava de produzir nome e posto verdadeiros, se fosse feito imediatamente. Era um truque, pois jamais enfiariam fundo, e o primeiro grito era sempre de pânico, nunca de dor. A não ser que o agente inimigo desse logo o serviço, eles se deteriam, e depois continuariam o interrogatório no QG, de modo adequado e supervisionado. A tortura não era necessária, embora alguns fanáticos a utilizassem, contrariando ordens. "Esta é uma profissão perigosa", pensou, amargamente. "Os métodos do KGB são mais brutais e os chineses têm uma atitude diferente em relação à vida e à morte, ao vitorioso e ao derrotado, à dor e ao prazer... e ao valor de um berro. "
— Não nos leve a mal, major Leonov — disse, bondosamente, quando os outros o haviam erguido e sentado no banco, ainda firmemente agarrados a ele. — Não queremos machucá-lo... ou deixar que se machuque.
Metkin cuspiu nele e começou a soltar palavrões, lágrimas de terror, ódio e frustração escorrendo-lhe pelo rosto. Armstrong fez um sinal para Malcolm Sun, que pegou o chumaço de algodão preparado e segurou-o com firmeza sobre o nariz e a boca de Metkin.
O cheiro pesado, adocicado e enjoativo do clorofórmio encheu a atmosfera abafada. Metkin se debateu, impotente por um momento, depois cedeu. Armstrong verificou os olhos e o pulso dele, para se certificar de que não estava fingindo in-consciência.
— Podem largá-lo, agora — disse-lhes. — Todos trabalharam muito bem. Providenciarei para que conste um elogio nas suas folhas de serviço. Malcolm. É melhor cuidarmos muito bem dele. Pode tentar o suicídio.
— É. — Sun recostou-se com os outros, no camburão em movimento, que se arrastava pelo tráfego intenso de maneira irritante, parando e andando. Mais tarde, ele deu voz ao pensamento que estava em todas as cabeças. — Dmítri Metkin, aliás Nikolai Leonov, major, KGB, comissário político do Ivánov. O que um peixão desses está fazendo num trabalhinho simples como esse?
48
19h5m
Linc Bartlett escolheu com cuidado a gravata. Estava usando uma camisa azul-clara, um terno marrom-claro e a gravata era marrom com uma listra vermelha. Havia uma cerveja aberta sobre a cômoda, a lata orvalhada pelo frio. O dia inteiro ele debatera consigo mesmo se devia ou não sair com Orlanda, se devia ou não contar a Casey.
O dia fora excelente para ele. Primeiro, o desjejum com Orlanda, depois uma ida a Kai Tak, para dar uma olhada no seu avião e certificar-se de que poderia usá-lo para o vôo com Dunross a Taipé. O almoço com Casey, depois a emoção na Bolsa. Depois que a Bolsa fechara, ele e Casey haviam tomado a balsa para Kowloon. Toldos de lona para proteger da chuva impediam a visão e tornavam o convés claustrofóbico, a travessia desagradável. Mas era agradável estar com Casey, e ele sentia ainda mais a sua presença devido à existência de Orlanda, e a seu dilema.
— Ian chegou ao fim da linha, não é, Linc?
— Eu diria que sim, claro. Mas ele é esperto. A batalha ainda não terminou, somente o primeiro ataque.
— Como pode se pôr de pé? As ações dele estão a preço de banana.
— Claro, comparando com a semana passada, mas não conhecemos a sua taxa de rentabilidade. Esta Bolsa é como um ioiô — você mesma o disse —, e perigosa. Nisso Ian tem razão.
— Aposto que ele está sabendo dos dois milhões que você entregou ao Gornt.
— Talvez. Não é nada que ele próprio não fizesse, se tivesse a oportunidade. Vai receber Seymour e Charlie Forrester?
— Vou. O vôo da Pan Am está no horário, e uma limusine irá me buscar. Sairei assim que chegarmos. Acha que eles vão querer jantar?
— Não. Os dois estarão bombardeados com a diferença dos fusos horários. — Ele abrira um sorriso. — Espero. —
Tanto Seymour Steigler III, o advogado deles, quanto Charlie Forrester, o chefe da divisão de espuma, tinham uma vida social muito intensa. — A que horas chega o vôo deles?
— Às quatro e cinqüenta. Voltaremos lá pelas seis da tarde.
Às seis, tinham tido uma reunião com Seymour Steigler... Forrester não se sentia bem, e fora direto para a cama.
O advogado deles era nova-iorquino, um homem bonitão, de cabelos pretos ondulados, ficando grisalhos, olhos escuros e olheiras profundas.
— Casey me contou os detalhes, Linc — dissera ele. — Parece que estamos em grande forma.
Como tinham previamente combinado, Bartlett e Casey haviam explicado toda a transação ao advogado, excluindo a combinação secreta com Dunross quanto aos navios dele.
— Há umas duas cláusulas que quero incluir, Linc, para nos proteger — dissera Steigler.
— Tudo bem. Mas não quero a transação renegociada. Quero tudo encerrado até terça-feira, como planejamos.
— E quanto à Rothwell-Gornt? Que tal eu dar uma sondada nela, hem? Podemos passar a perna na Struan.