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— Merece os parabéns, Roger. Se o agente soviético vai ser mandado para Londres, não é melhor enviar também Brian Kwok? As mesmas razões não se aplicam a ele?

— Não, senhor, acho que não. Podemos cuidar de Kwok aqui muito mais depressa e melhor. Nós é que precisamos saber o que ele sabe... Londres não compreenderia. Kwok é uma ameaça a Hong Kong, não à Grã-Bretanha. É um agente da RPC... o outro sujeito é soviético. Os dois nem se comparam.

Sir Geoffrey soltou um forte suspiro, sabendo que Crosse tinha razão.

— Concordo. Hoje foi um dia terrível, Roger. Primeiro, a corrida aos bancos, depois a Bolsa de Valores... as mortes, e ontem à noite o pobre Sir Charles Pennyworth e a mulher do Toxe... e hoje de manhã, as mortes por deslizamento de lama, em Aberdeen... a Casa Nobre oscilando... e parece que esta frente de temporal vai se transformar num maldito tufão que provavelmente acabará com as corridas de sábado... e agora as suas notícias, um marujo americano trai o seu país, seu navio e sua honra por uns míseros dois mil dólares?

Crosse deu novamente o seu sorriso débil.

— Talvez dois mil dólares não sejam uma ninharia para ele.

"Vivemos uma época terrível", ia dizer Sir Geoffrey, mas sabia que não era a época. Simplesmente as pessoas eram pessoas, a cobiça, o orgulho, a luxúria, a avareza, o ciúme, a gula, a raiva e o desejo de poder ou dinheiro governavam as pessoas, e as governariam para sempre. A maioria delas.

— Obrigado por ter vindo, Roger. Novamente, devo dar-lhe os parabéns. Direi isso também ao ministro. Boa noite.

Viu Crosse se afastar, alto, confiante e mortífero. Quando a porta de ferro no muro alto foi trancada atrás dele pelo seu ajudante-de-ordens, Sir Geoffrey Allison deixou vir à tona mais uma vez a verdadeira pergunta que não fora feita.

"Quem ê o agente infiltrado na minha polícia?"

O documento de A. M. Grant era bem claro. O traidor era agente soviético, não chinês. Brian Kwok fora descoberto por puro acaso. Por que Roger não chamara a atenção para o óbvio?

Sir Geoffrey estremeceu. Se Brian podia ser um toupeira, qualquer um podia. Qualquer um.

50

20h17m

Quase antes de ele ter tirado o dedo da campainha, a porta se abriu.

— Ah, Linc — disse Orlanda, sem fôlego, extravasando felicidade. — Pensei que não viria mais. Entre, por favor.

— Desculpe o atraso — disse Bartlett, ofuscado pela sua beleza e carinho. — O tráfego está terrível, as balsas congestionadas, e não pude arranjar um telefone.

— Você está aqui, portanto não está atrasado, nem um pouco. Estava com medo de que... — Acrescentou, atropelando as palavras: — Estava com medo de que você não voltasse, e eu ficaria arrasada. Pronto, já falei, e todas as minhas defesas estão por terra, mas estou tão feliz por vê-lo que não me importo.

Ela ficou na ponta dos pés e beijou-o, um beijo ligeiro e feliz. Tomou-lhe o braço e fechou a porta atrás dele.

Seu perfume era delicado e leve, mas ele o sentia como uma presença física. Usava um vestido de gaze branca à altura dos joelhos, que farfalhava quando ela se movia, justo no pescoço e nos pulsos. Mostrava, e ao mesmo tempo não mostrava, a sua pele dourada.

— Estou tão feliz por você estar aqui — repetiu ela, pegando o guarda-chuva dele e colocando-o no porta-guarda-chuvas.

— Eu também.

A sala ainda era mais bonita à noite, na sua maior parte iluminada por velas, as portas de vidro altas que davam para o terraço abertas. Eles estavam logo abaixo da cerração, e a cidade se esparramava montanha abaixo, na direção do mar, as luzes tornando-se nubladas à passagem de grupos de nuvens baixas. O nível do mar ficava duzentos metros abaixo deles. Kowloon e o porto estavam na penumbra, mas ele sabia que os navios estavam lá, e podia ver o grande porta-aviões atracado, seu grande convés inclinado todo iluminado, os jatos de nariz afilado iluminados, a ponte cinzenta tentando tocar o céu... a bandeira americana pendendo úmida e sem vida.

— Ei — disse ele, debruçando-se na amurada do terraço —, mas que bela noite, Orlanda!

— Ah, é. É, sim. Venha se sentar.

— Prefiro ficar olhando a vista, se você não se importa.

— Claro, o que você quiser está bem, o que quiser. Seu terno lhe fica muito bem, Linc, e adoro a sua gravata. — Ela falou alegremente, querendo elogiá-lo, embora achasse que a gravata não combinava muito bem. "Não faz mal", pensou, "ele não liga para as cores, como o Quillan, e precisa de ajuda. Vou fazer o que Quillan me ensinou, não criticar, mas sair e comprar uma do meu gosto e dá-la a ele. Se gostar, ótimo. Se não gostar, tudo bem, pois que importância tem... quem vai usar é ele. O azul, o azul combinaria com os olhos de Linc e ficaria melhor com a camisa. " — Você se veste muito bem.

— Obrigado, você também.

Estava se lembrando do que Casey dissera sobre a gravata, e como ele ficara furioso com ela o tempo todo, enquanto viajava de balsa, enquanto esperava um táxi. E a velha que pisara no pé dele, empurrando-o para roubar o seu táxi, mas ele a passara para trás, xingando-a também.

Só agora sua febre de raiva tinha passado. "O prazer de Orlanda ao me ver foi o responsável", pensou. "Faz anos que Casey não fica iluminada, como uma árvore de Natal, ou diz alguma coisa quando... ora, pro diabo tudo isso. Hoje não vou me preocupar com Casey. "

— A vista é fantástica, e você é uma boneca linda! Ela riu.

— Você também é lindo e... oh, a sua bebida, desculpe... — Rodopiou na direção da cozinha, a saia esvoaçando. — Não sei por quê, mas você me faz sentir-me como uma colegial — disse ela. Voltou dali a um momento. Na bandeja havia um pote de cerâmica com patê, torradinhas frescas e uma garrafa de cerveja gelada. — Espero que goste.

Era Anweiser.

— Como soube a minha marca?

— Você me contou hoje de manhã, não se lembra? — Ela ficou radiante ao notar o prazer evidente dele. — Contou também que gosta de beber pelo gargalo.

Ele pegou a cerveja, abrindo um sorriso.

— Isso também vai constar do artigo?

— Não. Não, decidi não escrever a seu respeito.

— Por quê? — perguntou ele, notando a súbita seriedade dela.

Ela se servia de um copo de vinho branco.

— Decidi que nunca poderia fazer-lhe justiça num artigo. Por isso não o escreverei. Além disso, não creio que lhe agradasse esse artigo pendendo sobre você. — Levou a mão ao coração. — Juro por Deus, nada de artigo, tudo é particular. Nada de artigo, nem de jornalismo, juro por Nossa Senhora — acrescentou, falando sério.

— Ei, não precisa ser dramática!

Ela estava de costas para a amurada, apoiando-se nela, uma queda de vinte e quatro metros até o concreto lá em baixo. Ele viu a sinceridade no seu rosto, e acreditou nela piamente. Estava aliviado. O artigo era a única falha, o único ponto perigoso para ele... isso, e o fato de ela ser jornalista. Inclinou-se e beijou-o de leve, deliberadamente de leve.

— Selado com um beijo. Obrigado.

— Certo.

Ficaram olhando a vista, por um momento.

— A chuva acabou de vez?

— Espero que não, Linc. Precisamos de uma boa série de temporais para encher os reservatórios. Ficar limpo é tão difícil, e ainda só temos água de quatro em quatro dias. — Deu um sorriso maroto, como o de uma criança. — Ontem à noite, durante a chuvarada, despi-me e tomei banho aqui. Foi fantástico. Deu até para lavar o cabelo.

Pensar nela ali, à noite, nua, mexeu com ele.

— É melhor tomar cuidado — disse. — A amurada não é muito alta. Não quero você escorregando.

— É gozado, morro de medo do mar, mas as alturas não me incomodam nem um pouco. Você salvou mesmo a minha vida.