— Que nada! Você teria se salvado sem mim.
— Talvez, mas você salvou o meu prestígio. Sem você ali, eu teria feito um papelão. Portanto, obrigada pelo meu prestígio.
— E, aqui, isso é mais importante do que a vida, não é?
— Às vezes, é, sim. Por que diz isso?
— Estava pensando em Dunross e em Quillan Gornt. Esses dois estão se digladiando, principalmente, por causa de prestígio.
— É. Tem razão, naturalmente. — Acrescentou, pensativa: — Os dois são homens excelentes, por um lado, e demônios, por outro.
— O que quer dizer?
— São ambos implacáveis, ambos muito, muito fortes, muito duros, competentes e... dão-se bem com a vida. — Enquanto falava, passava patê numa torradinha e oferecia-a a ele, as unhas longas e perfeitas. — Os chineses têm um ditado: Chan ts'ao, chu ken... quando arrancar ervas daninhas, cuide de se livrar das raízes. As raízes daqueles dois vão fundo na Ásia, muito fundo, fundo demais. Seria difícil livrar-se dessas raízes. — Sorveu o seu vinho, e deu um ligeiro sorriso. — E provavelmente não é uma boa idéia, não para Hong Kong. Quer mais patê?
— Por favor. Está uma delícia. Foi você quem fez?
— Foi. É uma velha receita inglesa.
— Por que não seria bom para Hong Kong?
— Ah, talvez porque eles se equilibram. Se um destruir o outro... ah, não estou me referindo apenas ao Quillan ou ao Dunross. Estou me referindo às hongs em si, às companhias, a Struan e a Rothwell-Gornt. Se uma devorar a outra, talvez a remanescente torne-se forte demais, pois não haverá concorrência. Então talvez o tai-pan tome-se ambicioso demais, talvez resolva esvaziar Hong Kong. — Ela deu um sorriso hesitante. — Desculpe, estou falando demais. É só uma idéia. Outra cerveja?
— Claro, daqui a pouco, obrigado. Mas é uma idéia interessante.
"É", pensava Bartlett, "uma idéia que não tinha me ocorrido... ou a Casey. Esses dois são necessários um ao outro? "E Casey e eu? Somos necessários um ao outro?" Ele viu que ela o observava, e retribuiu-lhe o sorriso.
— Orlanda, não é segredo que estou pensando em fazer negócio com um dos dois. Se fosse eu, por qual dos dois você se decidiria?
— Por nenhum dos dois — falou imediatamente, e achou graça.
— Por quê?
— Você não é britânico, não é um dos "rapazes", não é sócio hereditário de nenhum dos clubes, e, não importa quanto dinheiro e poder tenha aqui, é a rede dos "rapazes" que finalmente decidirá o que vai ser.
Ela pegou a garrafa vazia e foi buscar outra.
— Acha que eu não me sairia bem?
— Oh, não foi isso o que eu quis dizer, Linc. Você perguntou sobre a Struan ou a Rothwell-Gornt, sobre fazer negócios com uma delas. Se fizer, eles serão os vencedores, no final.
— São assim tão espertos?
— Não. Mas são asiáticos, e aqui é o lugar deles. Aqui o ditado é T'ien hsia wu ya i pan hei.., todos os corvos sob os céus são negros... o que significa que todos os tai-pans são iguais, e que se unirão para destruir quem vem de fora.
— Quer dizer que nem Ian nem Quillan aceitariam de bom grado um sócio?
Ela hesitou.
— Acho que estou falando do que não entendo, Linc. Não sei nada de negócios. Apenas nunca soube de um americano que tenha vindo para cá e feito grande sucesso.
— E quanto ao Biltzmann, Superfoods, e à sua compra de controle acionário da General Stores?
— Biltzmann é uma piada. Todos o odeiam e torcem para que se dê mal, até mesmo o Pug... Pugmire. Quillan tem certeza de que se dará mal. Não, nem mesmo Cooper e Tillman obtiveram sucesso. Eles eram mercadores ianques dos primeiros dias, Linc, mercadores de ópio... estavam até mesmo sob a proteção de Dirk Struan. São até aparentados, os Struans e os Coopers. A Bruxa Struan casou a filha mais velha, Emma, com o velho Jeff Cooper. Velho Nariz de Gancho era o seu apelido quando ficou senil. Conta-se que o casamento foi sua retribuição a ele por tê-la ajudado a destruir Tyler Brock. Já ouviu falar neles, Linc? Os Brocks, Sir Morgan, e o pai dele, Tyler, e a Bruxa?
— Peter Marlowe contou-nos algumas das histórias.
— Se quiser conhecer a verdadeira Hong Kong, deve falar com a Titia Olhos Vivos... Sarah Chen, a tia solteirona de Phillip Chen. É uma figura, Linc, e vivíssima! Dizem que tem oitenta e oito anos. Acho que é mais velha. Ela é filha de Sir Gordon Chen, o filho ilegítimo de Dirk Struan com a sua amante Kai-sung, e da famosa beldade Karen Yuan.
— Quem é essa?
— Karen Yuan era neta de Robb Struan. Robb era meio irmão de Dirk, e tinha uma amante chamada Yau Ming Soo, com quem teve uma filha, Isobel. Isobel casou-se com John Yuan, um filho ilegítimo de Jeff Cooper. John Yuan tornou-se um famoso pirata e contrabandista de ópio, e Isobel morreu como jogadora notória, tendo, por duas vezes, perdido a fortuna do marido jogando mah-jong. Assim, foi a filha de Isobel e John, Karen, que se casou com Sir Gordon Chen... na realidade, ela foi a segunda mulher dele, mais uma concubina do que uma mulher, embora o casamento fosse perfeitamente legal. Aqui, mesmo nos dias de hoje, se você é chinês, pode ter legalmente quantas mulheres quiser.
— Muito conveniente!
— Para o homem! — sorriu Orlanda. — Então, esse pequeno ramo dos Yuans descende dos Coopers... os T'Chungs e os Chens de Dirk Struan, os Sungs, Tups e Tongs, de Aristotle Quance, o pintor... Aqui em Hong Kong é costume os filhos herdarem o sobrenome da mãe, geralmente uma garota insignificante vendida pelos pais como concubina.
— Pelos pais?
— Quase sempre — disse ela, naturalmente. — Tung t'ung yu ming, ouça os céus e siga o destino. Especialmente quando se está morrendo de fome. — Ela deu de ombros. — Não há vergonha nisso, Linc, nem desprestígio, não na Ásia.
— Como é que você sabe tanto sobre os Struans, os Coopers, e amantes e coisa e tal?
— Aqui é um lugar pequeno, e todos gostamos de segredos, mas não existem segredos de verdade em Hong Kong. O pessoal daqui, o verdadeiro pessoal de Hong Kong, sabe quase tudo sobre os outros. Como já disse, nossas raízes aqui são profundas. E não se esqueça de que os Chengs, Yuans e Sungs são eurasianos. Como já lhe contei, os eurasianos casam-se com eurasianos. Portanto, temos que conhecer as nossas origens. Não somos desejados pelos britânicos ou chineses como maridos ou esposas, somente como amantes. — Ela sorveu o vinho, e ele ficou encantado com a delicadeza de seus movimentos, sua graça. — É costume das famílias chinesas anotarem sua genealogia no livro da aldeia, é a única legalidade que possuem. Isso lhes dá continuidade. Nunca tiveram certidões de nascimento. — Ela sorriu para ele. — Voltando à sua pergunta: tanto Ian Dunross quanto Quillan Gornt adorariam seu dinheiro e seu conhecimento do mercado americano. E com qualquer um deles você teria lucro aqui... se se contentasse em ser o sócio comanditário.
Pensativo, Bartlett fixou os olhos na vista da cidade.
Ela esperou pacientemente, deixando que ele pensasse, imóvel. "Ainda bem que Quillan foi um bom professor, e um homem tão esperto!", pensou. "E, oh, tão sensato! Tinha razão de novo."
Pela manhã, ligara para ele, em lágrimas, na sua linha particular, para relatar o que havia acontecido.
— Ah, Quillan, acho que estraguei tudo...
— O que foi que você disse, e o que foi que ele disse? Ela lhe contara, exatamente, e ele a tranqüilizara.
— Acho que não tem com que se preocupar, Orlanda. Ele vai voltar. Se não esta noite, amanhã.
— Ah, tem certeza? — dissera ela, agradecida. Tenho. Agora enxugue essas lágrimas e escute.
A seguir, ele lhe dissera o que fazer e o que usar, e, acima de tudo, como ser mulher.
"Ah, como sou feliz de ser mulher!", pensou, lembrando, agora com tristeza, os velhos tempos em que ela e Quillan tinham sido felizes, ela com dezenove anos, amante dele já há dois, e não mais tímida ou temerosa — da cama, dele ou de si mesma —, e como às vezes saíam à noite no iate dele, só os dois, e ele lhe dava conselhos.