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— Você é mulher e yan de Hong Kong. Portanto, se quiser ter uma boa vida e coisas bonitas, ser querida, amada, levada para a cama e ter segurança neste mundo, seja fêmea.

— Como, meu querido?

— Pense apenas na minha satisfação e no meu prazer. Dê-me paixão quando eu estiver precisando, tranqüilidade quando eu estiver precisando, privacidade quando eu estiver precisando, e felicidade e discrição o tempo todo. Cozinhe como um gourmet, conheça os bons vinhos, seja sempre discreta, proteja sempre a minha imagem, o meu prestígio, e nunca seja ranzinza.

— Mas, Quillan, você faz a coisa parecer tão unilateral!

— Sei. E é, claro que é. Em troca, eu farei a minha parte com igual paixão. Mas é isso o que quero de você, nada menos do que isso. Você quis ser minha amante. Expliquei-lhe tudo antes de começarmos, e você concordou.

— Sei que concordei, e adoro ser sua amante, mas... mas às vezes o futuro me preocupa.

— Ah, minha boneca, não tem com que se preocupar. Sabe que as nossas regras foram combinadas previamente. Nós renovaremos a nossa combinação anualmente, desde que você o queira, até completar vinte e quatro anos, e depois, se você resolver me deixar, eu lhe darei o apartamento, dinheiro bastante para necessidades razoáveis, e um belo dote para um marido adequado. Nós concordamos, e seus pais aprovaram...

Tinham aprovado mesmo. Orlanda se recordava de como a mãe e o pai haviam aprovado entusiasticamente a ligação... como até mesmo a tinham sugerido. Ela acabara de voltar do colégio, nos Estados Unidos, quando eles lhe contaram que Quillan lhes tinha pedido permissão para aproximar-se dela, dizendo que havia se apaixonado por ela.

— Ele é um bom homem — dissera o pai —, e prometeu cuidar bem financeiramente de você, se você concordar. A escolha é sua, Orlanda. Achamos que devemos recomendá-la.

— Mas, papai, só faço dezoito anos no mês que vem, e além disso quero voltar para os Estados Unidos, para morar lá. Estou certa de que posso conseguir um cartão verde para permanecer lá.

— É, você pode ir, filha — dissera a mãe —, mas será pobre. Nós não lhe podemos dar nada, nenhuma ajuda. Que emprego vai conseguir? Quem vai sustentá-la? Se aceitar, dentro de pouco tempo você poderá ir com uma renda, com propriedades aqui para sustentá-la.

— Mas ele é tão velho! Ele...

— O homem não envelhece como a mulher — ambos haviam dito. — Ele é forte, respeitado, e há anos que tem sido bom para nós. Prometeu cuidar de você com carinho, e os arranjos financeiros são generosos, não importa quanto tempo fique com ele.

— Mas eu não o amo.

— Você fala bobagem em oito direções! Sem a proteção dos lábios, os dentes ficam frios! — dissera a mãe, zangada. — Esta oportunidade que lhe está sendo oferecida é como o cabelo da fênix e o coração do dragão! O que precisa fazer em troca? Apenas ser mulher, honrar e obedecer a um bom homem durante alguns anos, compromisso renovado anualmente. E, mesmo depois, os anos poderão não ter fim, se você quiser, e for fiel e esperta. Quem sabe? A mulher dele é inválida, e está definhando. Se você o satisfizer e o respeitar, por que não se casaria com você?

— Casar com uma eurasiana? Quillan Gornt? — exclamou ela.

— Por que não? Você não é apenas eurasiana, é portuguesa. Ele já tem filhos e filhas britânicos, heya? Os tempos estão mudando, mesmo aqui em Hong Kong. Se você fizer o melhor possível, quem sabe? Dê-lhe um filho daqui a um ano ou dois, com a permissão dele, e quem sabe? Os deuses são os deuses, e se quiserem, podem fazer trovejar num céu claro. Não seja burra! Amor? O que é essa palavra para você?

Orlanda Ramos agora olhava para a cidade lá embaixo, sem vê-la. "Que burra e ingênua eu era então!", pensou. "Ingênua e muito burra. Mas agora não sou mais. Quillan foi um bom professor. "

Ergueu os olhos para Linc Bartlett, sem se mover, não querendo perturbá-lo.

"É, fui muito bem treinada", falou com seus botões. "Fui treinada para ser a melhor mulher que qualquer homem pode ter, que Bartlett jamais terá. Nada de erros, desta vez. Ah, não, nada de erros. Quillan me orientará, ajudará a remover Casey. Serei a sra. Linc Bartlett. Que todos os deuses e demônios sejam testemunhas, é isso o que tem que acontecer.

Não demorou para que ele desviasse os olhos da cidade, tendo pensado bastante no que ela havia dito. Ela o observava, com um sorrisinho que ele não pôde decifrar.

— O que foi?

— Só estava pensando em como tive sorte em conhecê-lo,

— Sempre elogia os homens?

— Não, só aqueles que me agradam... e são tão raros quanto o cabelo da fênix ou o coração de um dragão. Patê?

— Obrigado. — Ele o aceitou. — Não está comendo?

— Vou aguardar o jantar. Tenho que cuidar da minha dieta. Não sou como você.

— Eu me exercito diariamente. Jogo tênis, quando posso, e golfe. E você?

— Jogo um pouco de tênis. Sou boa andarilha, mas ainda estou tomando lições de golfe. — "É", pensou ela, "esforço-me ao máximo para ser a melhor em tudo o que faço, e sou a melhor para você, Linc Bartlett, no mundo inteirinho. "O tênis dela era muito bom, e o golfe também, porque Quillan insistira em que ela fosse competente em ambos os jogos... porque ele gostava deles. — Está com fome?

— Morrendo.

— Você falou em comida chinesa. É o que realmente quer?

— Para mim tanto faz — disse ele, dando de ombros.

— O que você quiser.

— Tem certeza?

— Absoluta. Por quê? O que você está querendo?

— Venha aqui um momento.

Ele a seguiu. Ela abriu a porta da sala de jantar. A mesa estava elegantemente posta para dois. Flores, e uma garrafa de Verdicchio no gelo.

— Linc, faz tanto tempo que não cozinho para ninguém — disse ela, naquele seu jeito de atropelar as palavras que ele achava uma graça. — Mas quis cozinhar para você. Se você quiser, tenho um jantar italiano preparado. Macarrão fresco aglio e olio, piccata de vitela, uma salada, zabaione, café espresso e conhaque. Que tal? Levo só vinte minutos para dar os toques finais, e você pode ler o jornal enquanto espera. Depois, podemos deixar tudo para a amah arrumar quando voltar, e ir dançar ou passear de carro. O que acha?

— A comida italiana é a minha preferida, Orlanda! — exclamou, entusiasticamente. A seguir, uma lembrança vadia veio à tona, e por um momento ele ficou se perguntando com quem comentara que a comida italiana era a sua preferida. Teria sido com Casey... ou com Orlanda, pela manhã?

51

20h32m

Brian Kwok acordou sobressaltado. Num momento estava tendo um pesadelo, no outro já acordara, mas de alguma forma ainda estava na cova funda e escura do sono, o coração batendo, a mente desordenada, e não havia diferença entre o sono e a vigília. Ficou tomado de pânico. Depois, percebeu que estava nu, e ainda na mesma escuridão morna da cela, e lembrou-se de quem era, e onde estava.

"Eles devem ter me drogado", pensou. Tinha a boca seca, a cabeça lhe doía. Recostou-se no colchão pegajoso, tentando pôr as idéias em ordem. Lembrava-se vagamente de ter estado na sala de Armstrong, e antes disso com Crosse, discutindo o 16/2, mas não por muito tempo. Depois disso, lembrava-se apenas de ter acordado naquela escuridão, tateando em busca das paredes, para se orientar, sentindo-as bem perto, abafando o terror de saber que fora traído e estava indefeso nas entranhas do qg da polícia, dentro de uma caixa sem janelas e com uma porta em algum lugar. "Depois, adormeci, exausto, e acordei com vozes iradas... ou será que sonhei isso?... e depois adormeci de novo e... não, comi primeiro. Não comi primeiro? ... foi, uma lavagem a que chamaram de jantar, e chá frio... Vamos, pense, é importante pensar e se lembrar... É, eu me lembro, um ensopado horrível e chá frio. Depois, mais tarde, o desjejum. Ovos. Será que foram os ovos primeiro, depois o ensopado, ou vice-versa? É, as luzes se acenderam por um momento enquanto eu comia, o tempo suficiente para eu comer... Não, as luzes se apagaram e lembro-me de ter ficado no escuro, e detestei comer na escuridão. E depois mijei no balde, na escuridão, voltei para o colchão e me deitei de novo.