"Há quanto tempo estou aqui? Preciso contar os dias. "
Exausto, girou as pernas para fora do catre e foi tropeçando até uma parede, os membros doendo tanto quanto a cabeça. "Preciso me exercitar", pensou, "tenho que limpar meu organismo das drogas e ficar com a cabeça desanuviada e pronta para o interrogatório. Preciso preparar minha cabeça para quando eles me atacarem, quando começarem de verdade... quando pensarem que amoleci... aí eles me manterão acordado até me dobrarem.
"Não, não vão me dobrar. Sou forte, estou preparado, e conheço algumas das armadilhas.
"Quem me denunciou?"
O esforço para solucionar esse problema era demasiado. Portanto, reuniu suas forças e tentou alguns débeis movimentos de ginástica, flexionando os joelhos. A seguir, ouviu passos abafados que se aproximavam. Apressadamente, tateou em busca do catre e voltou a deitar-se, fingindo que dormia, sentindo o coração doendo dentro do peito enquanto sufocava o seu terror.
Os passos se detiveram. Ouviu-se o barulho de um ferrolho correndo, e um alçapão se abriu. Um raio de luz penetrou na cela, e uma mão que mal se via pousou um prato e uma xícara de metal.
— Coma o desjejum, e depressa! — disse a voz, em cantonense. — Vai ser interrogado dentro em breve.
— Escute, quero... — chamou Brian Kwok, mas o alçapão já se fechara, o ferrolho já fora corrido, e ele estava sozinho no escuro, com o eco das próprias palavras.
"Fique calmo", ordenou a si mesmo. "Acalme-se e pense. "
Abruptamente, a cela se inundou de luz. A luz lhe doía nos olhos. Quando sua vista se adaptou à claridade, Brian viu que a luz vinha de apliques no teto, e lembrou-se de já tê-los visto antes. As paredes eram escuras, quase negras, e pareciam fechar-se sobre ele. "Não se preocupe com elas", pensou. "Já viu celas escuras antes, e, embora nunca tenha tomado parte em um interrogatório, conhece os princípios e alguns dos macetes. "
Sentiu uma onda de náusea subir-lhe à boca ao pensar no que o esperava.
Mal se distinguia a porta, e o alçapão ficava igualmente oculto. Podia sentir os olhares, embora não pudesse ver nenhum visor. No prato havia dois ovos fritos e um pedaço grosso de pão. O pão estava levemente torrado. Os ovos estavam frios, engordurados e inapetecíveis. Na xícara havia chá frio. Não havia talheres.
Bebeu o chá sofregamente, tentando sorvê-lo devagar. Mas num instante acabou, e a pequena quantidade não havia saciado a sua sede. "Dew neh loh moh, o que eu não daria por uma escova de dentes, uma garrafa de cerveja e... "
As luzes se apagaram da mesma maneira inesperada com que tinham sido acesas. Ele levou muito tempo para se adaptar de novo à escuridão. "Fique calmo, é só escuridão e luz, luz e escuridão. É só para confundir e desorientar. Fique calmo. Aceite cada dia por vez, cada interrogatório por vez. "
O terror voltou. Tinha consciência de que não estava realmente preparado, que não tinha experiência suficiente, que não sabia o que fazer se o inimigo o capturasse, o inimigo comunista da RPC, embora tivesse recebido algum treinamento de sobrevivência contra captura. "Mas a RPC não é o inimigo. O inimigo real são os britânicos e os canadenses, que fingiram ser amigos e mestres. Eles é que são o inimigo real.
"Não pense nisso. Não tente convencer-se. Tente apenas convencê-los.
"Preciso agüentar firme. Preciso fingir que é um engano durante o máximo de tempo que puder, e depois... depois contar a história que inventei ao longo dos anos, e confundi-los. É o meu dever. "
A sede era alucinante. E a fome.
Brian Kwok tinha vontade de jogar a xícara vazia e o prato contra a parede, gritar e pedir socorro, mas isso seria um erro. Sabia que era preciso controlar-se e conservar cada partícula de força disponível, para poder lutar.
"Use a cabeça. Use o seu treinamento. Ponha a teoria em prática. Pense no curso de sobrevivência na Inglaterra, no ano passado. Agora, o que faço?"
Lembrou-se que parte da teoria de sobrevivência dizia que era preciso comer, beber e dormir sempre que possível, pois nunca se sabia quando o alimento, a bebida e o sono iam ser cortados. E que se devia usar os olhos, o nariz, o tato e a inteligência para manter a noção do tempo no escuro, e lembrar que os captores sempre cometem algum erro, e que, se se percebe o erro, pode-se ter noção de tempo, e se se tiver noção de tempo, então será possível manter-se equilibrado e engabelá-los, e não divulgar o que não pode ser divulgado — nomes exatos e contatos verdadeiros. "Confronte a sua inteligência com a deles", era a regra. "Mantenha-se ativo, force-se a observar. "
"Será que eles cometeram algum erro? Será que esses demônios bárbaros britânicos já cometeram algum deslize? Só uma vez", pensou, excitado. "Os ovos! Os britânicos estúpidos e os seus ovos no café da manhã!"
Sentindo-se agora melhor e totalmente desperto, saiu do catre, tateou até achar o prato de metal e pousou suavemente a xícara ao lado dele. Os ovos estavam frios, e a gordura, endurecida, mas ele os mastigou, comeu o pão e sentiu-se melhor. Comer com as mãos no escuro era esquisito e desconfortável, especialmente sem ter onde limpar os dedos, a não ser na própria nudez.
Estremeceu. Sentia-se abandonado e sujo. A bexiga estava cheia, e ele foi tateando até chegar ao balde preso à parede. O balde fedia.
Com o dedo indicador, mediu habilmente o nível do balde. Estava parcialmente cheio. Urinou, e mediu o novo nível. Calculou mentalmente a diferença. "Se não acrescentaram nada para me confundir, mijei três ou quatro vezes. Duas vezes por dia? Ou quatro vezes por dia?"
Esfregou o dedo sujo contra o peito, e sentiu-se mais sujo ainda, mas era importante usar toda e qualquer coisa para se manter equilibrado e com noção do tempo. Deitou-se de novo. Não saber se estava claro ou escuro, se era dia ou noite, dava-lhe náuseas. Sentiu um enjôo subir-lhe à boca, mas dominou-o e forçou-se a lembrar do Brian Kwok que eles, os inimigos, pensavam que era Brian Kar-shun Kwok, e não o outro homem, o homem quase esquecido cujo sobrenome era Wu, o nome de família era Pah, e cujo nome adulto era Chu-toy.
Lembrou-se de Ning-tok, do pai e da mãe, e de ter sido mandado para Hong Kong no seu sexto aniversário, para estudar, querendo aprender e crescer para ser um patriota como os pais e o tio, que vira ser açoitado até a morte na praça da aldeia, por ser patriota. Aprendera com os parentes de Hong Kong que "patriota" e "comunista" queriam dizer a mesma coisa, e não "inimigos do Estado". Que os suseranos do Kuomintang eram tão maus quanto os demônios estrangeiros que haviam forçado a China a assinar tratados desiguais, e que o único patriota verdadeiro era aquele que seguia os ensinamentos de Mao Tsé-tung. Lembrava-se de quando entrara para a primeira das muitas fraternidades secretas, trabalhando para ser o melhor pela causa da China e de Mao, que era a causa da China, aprendendo com mestres secretos, sabendo que era parte da nova grande onda de revolução que devolveria o poder à China, tirando-o dos demônios estrangeiros e seus lacaios, jogando-os para sempre ao mar.
Ganhara a bolsa de estudos! Aos doze anos!
Ah, como tinham ficado orgulhosos seus mestres secretos! Depois, a ida para o país dos bárbaros, agora falando perfeitamente a língua deles, e a salvo contra seus pensamentos e costumes nefastos. A ida para Londres, a capital do maior império que o mundo já vira, que ia ser humilhado e destroçado algum dia, mas, naquela época, em 1937, ainda vivia o seu último florescer.
Dois anos lá. Odiando a escola inglesa e os meninos ingleses... "Lig-lig-lé, lá vai o seu China na ponta do pé... ", mas disfarçando, disfarçando as lágrimas, os mestres da sua nova fraternidade ajudando-o, orientando-o, colocando perguntas e respostas dentro do contexto, mostrando-lhe a beleza da dialética, de fazer parte da verdadeira revolução inquestionável. Nunca questionar, nunca haver a necessidade de questionar.