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Depois, a guerra com a Alemanha, e a evacuação com todos os outros escolares para a segurança no Canadá, todo aquele período maravilhoso em Vancouver, Colúmbia Britânica, na costa do Pacífico, toda aquela imensidão, as montanhas e o mar, o Bairro Chinês florescente, com boa comida de Ning-tok... e um novo ramo da fraternidade mundial, e mais mestres, sempre alguém sábio com quem conversar, sempre alguém pronto a explicar e aconselhar... sem ser aceito pelos colegas de escola, mas derrotando-os academicamente, no boxe e nos outros esportes, tornando-se monitor, jogando bem críquete e tênis... parte de seu treinamento.

"Sobressaia, Chu-toy, meu filho, sobressaia e seja paciente para a glória do partido, para a glória de Mao Tsé-tung, que é a China", tinham sido as últimas palavras que o pai lhe dissera, palavras secretas gravadas na sua mente desde os seis anos, e repetidas no seu leito de morte.

Entrar para a Real Polícia Montada Canadense fora parte do plano. Fora fácil sobressair na rpmc, designado para o Bairro Chinês, os molhes e os atalhos, falando inglês, mandarim e cantonense (o seu dialeto de Ning-tok enterrado bem fundo). Fora fácil tornar-se um bom policial naquela bela cidade portuária. Logo se tornara único, o perito chinês de Vancouver, de confiança, destacado, lutando implacavelmente contra os crimes que os bandidos tríades do Bairro Chinês exploravam: ópio, morfina, heroína, prostituição e a eterna jogatina ilegal.

Seu trabalho fora elogiado tanto por seus superiores quanto pelos líderes da fraternidade, que eram igualmente contra o domínio das quadrilhas, o tráfico de drogas e o crime, ajudando-o a prender e a descobrir, sendo seu único interesse secreto o funcionamento interno da rpmc: como a rpmc contrata, despede, promove, examina, investiga, vigia, e quem controla o quê, onde e como. Mandado de Vancouver para Ottawa, por seis meses, emprestado por um chefe de polícia agradecido para dar assistência a uma investigação sigilosa de uma quadrilha de tóxicos chinesa, fizera novos e importantes contatos canadenses, e contatos com a fraternidade, aprendendo mais e mais, desbaratando a quadrilha e sendo promovido. Não é difícil controlar o crime e ser promovido quando se trabalha e se tem amigos secretos às centenas, com olhos secretos por toda parte.

Então, viera o fim da guerra, e o pedido de transferência para a polícia de Hong Kong... a parte final do plano.

Mas não queria ir, não queria partir, amando o Canadá e amando-a. Jeannette. Jeannette de Bois. Tinha dezenove anos, era franco-canadense de Montreal, e falava francês e inglês. Os pais dela, franco-canadenses de muitas gerações, gostavam dele, aprovavam-no, não se importavam que ele fosse chinois, como o chamavam, carinhosamente. Ele tinha então vinte e um anos, e em breve seria comandante, com uma grande carreira à frente, casamento à vista, para dali a mais ou menos um ano...

Brian Kwok mudou de posição no colchão, angustiado. Sentia a pele pegajosa, e a escuridão parecia sufocá-lo. Fechou as pálpebras pesadas e deixou o pensamento voltar para ela e para aquela época ruim de sua vida. Lembrava-se de como discutira com a fraternidade, com o líder, dizendo que podia servir melhor no Canadá do que em Hong Kong, onde seria apenas um entre muitos. No Canadá era único. Em alguns anos faria parte da hierarquia da polícia de Vancouver.

Mas todos os seus argumentos tinham fracassado. Com tristeza, reconhecera que eles tinham razão. Sabia que, se tivesse ficado, acabaria por passar para o outro lado, romperia com o partido. Havia então muitas perguntas sem resposta, graças à leitura de documentos oficiais sobre os soviéticos, o KGB, os gulags, e muitos amigos, canadenses e nacionalistas. Hong Kong e a China eram remotas, seu passado era remoto. Jeannette estava ali, ele a amava, e à vida deles, seu carro "envenenado" e o prestígio entre os seus pares, encarando-os agora como iguais, não mais como bárbaros.

O líder lhe recordara o seu passado, que os bárbaros são apenas bárbaros, que precisavam dele em Hong Kong, onde a batalha apenas começava, onde Mao ainda não era o presidente Mao, ainda não era vitorioso, ainda lutava contra Chang Kai-chek.

Amargamente, obedecera, odiando estar sendo forçado, sabendo que estava em poder deles, e que obedecia apenas por causa desse poder. Em seguida, os quatro anos excitantes até 1949, e a vitória total, incrível, inacreditável, de Mao. Depois, entocara-se de novo, usando suas brilhantes habilidades para lutar contra o crime, que para ele era um anátema, uma desgraça para Hong Kong e uma mancha na face da China.

E então a vida tornara-se boa de novo. Fora escolhido para altas promoções, e os britânicos ligados a ele o respeitavam porque vinha de uma excelente escola inglesa, tinha um belo sotaque inglês de "alta classe", e era um desportista inglês como a elite do império o fora, antes dele.

"E agora estamos em 1963, e tenho trinta e nove anos; amanhã... não, amanhã não, no domingo, no domingo vai haver a subida do morro, e no sábado as corridas, e Noble Star... será Noble Star, ou Pilot Fish de Gornt, ou Butter-scotch Lass de Richard Kwok, não, Richard Kwang, ou o azarão de John Chen, Golden Lady? Acho que apostaria meu dinheiro em Golden Lady... cada tostão, é, as economias de toda a vida. E também vou apostar no Porsche, embora seja uma burrice, mas vou. Tenho que fazê-lo, porque o Crosse mandou, e Robert concorda, e os dois disseram que tenho que apostar também a minha vida, mas, meu Deus, agora Golden Lady está mancando no paddock, mas a aposta já foi feita, e foi dada a largada, e eles estão correndo. Vamos, Golden Lady, vamos, pelo amor de Mao, não ligue para as nuvens escuras e para os raios! Vamos, todas as minhas economias e a minha vida dependem da sua amaldiçoada, nojenta, oh, Deus, presidente, não me desampare... "

Estava agora entregue profundamente aos sonhos, sonhos maus, sonhos induzidos por drogas, e o Vale Feliz¹ era o Vale da Morte. Seus olhos não sentiram as luzes se acenderem nem a porta se abrir.

¹ Em inglês, Happy Valley, nome do hipódromo de Hong Kong. (N. do E. )

Estava na hora de recomeçar.

Armstrong olhou para o amigo, apiedado dele. As luzes foram cuidadosamente diminuídas. Ao lado dele estava o agente Malcolm Sun, um guarda e o médico do sei. O dr. Dorn era um especialista, um homem garboso, levemente calvo, com a vivacidade de um passarinho. Tomou o pulso de Brian Kwok, tirou-lhe a pressão e auscultou-lhe o coração.

— Fisicamente o cliente está bem, superintendente — disse, com um leve sorriso. — A pressão e os batimentos do coração estão um pouco alterados, mas isso era de se esperar.

Fez as anotações no gráfico e entregou-o a Armstrong, que lançou um olhar ao relógio, anotou a hora e também assinou o gráfico.

— Pode prosseguir — disse.

O médico encheu a seringa com cuidado. Com o mesmo cuidado, aplicou a injeção nas nádegas de Brian Kwok com uma agulha nova. Quase não deixou marca, apenas uma gotinha de sangue, que ele enxugou.

— Hora do jantar, quando quiserem — disse, com um sorriso.

Armstrong apenas balançou a cabeça. O guarda do sei havia acrescentado mais um pouco de urina ao balde, e aquilo também foi anotado no gráfico.

— Esperteza dele ter medido o nível, não pensei que faria isso — comentou Malcolm Sun. Raios infravermelhos instalados nas luzes do teto tornavam fácil controlar os mínimos movimentos de um cliente. — Dew neh loh moh, quem teria imaginado que ele fosse um toupeira? Ele era sempre tão danado de esperto!

— Vamos torcer para que o pobre sacana não seja esperto demais — falou Armstrong, com azedume. — Quanto mais cedo falar, melhor. O Velho não vai desistir dele.

Os outros olharam para ele. O jovem guarda do sei estremeceu.