O dr. Dorn rompeu o silêncio, constrangido.
— Devemos manter ainda o ciclo de duas horas, senhor? Armstrong lançou um olhar para o amigo. A primeira droga fora ministrada, através da caneca de cerveja, por volta da uma e meia da tarde. Desde então, Brian Kwok tinha estado numa Classificação Dois — uma rotina de dormir-acordar-dormir-acordar conseguida com substâncias químicas. A cada duas horas. Injeções para acordar pouco antes das quatro e meia, seis e meia e oito e meia, e isso continuaria até as seis e meia da manhã, quando começaria o primeiro interrogatório sério. Dez minutos depois de cada injeção, o cliente era arrancado artificialmente do sono, a fome e a sede aumentadas pela droga. Engolia a comida e o chá frio, e logo as drogas neles contidas começavam a fazer efeito, rapidamente. Um sono profundo, muito profundo, logo ajudado por outra injeção. Escuridão e luzes fortes alternadas, vozes metálicas e silêncio alternados. Depois, o despertar. Desjejum. Duas horas depois, jantar. E duas horas depois, desjejum de novo. Para uma mente incrivelmente desorientada, doze horas virariam seis dias... mais, se o cliente agüentasse: doze dias a cada hora exata. Nenhuma necessidade de tortura física, apenas escuridão e desorientação, o bastante para se descobrir o que se quer do cliente inimigo, ou para fazê-lo assinar o que se quiser, acreditando que a verdade dos seus captores é a sua verdade.
Qualquer um.
Qualquer um, depois uma semana de dormir-acordar-dor-mir, seguida de dois ou três dias de nenhum sono.
Qualquer um.
"Oh, Deus todo-poderoso", pensou Armstrong, "seu pobre
sacana desgraçado! Você vai tentar se agüentar e não vai adiantar nada. Nada mesmo. "
Mas, então, parte da mente de Armstrong lhe gritou: "Mas ele não é seu amigo, e sim um agente inimigo, apenas um 'cliente' e inimigo que atraiçoou você, e tudo, e todos durante anos. Provavelmente foi ele quem entregou Fong-fong e seus rapazes, que estão agora numa cela nojenta e fétida recebendo o mesmo tratamento, mas sem médicos, controle e cuidados.
"Apesar disso, será que se pode sentir orgulho deste tipo de tratamento... será que alguma pessoa civilizada pode?
"Não.
"É necessário entupir um corpo indefeso com um monte de substâncias químicas nojentas?
"Não... é, sim, às vezes é. E matar às vezes é necessário, cães danados, gente... ah, sim, há gente má, e os cães danados são maus. É. É preciso usar essas técnicas psíquicas modernas, criadas por Pávlov e outros soviéticos, criadas pelos comunistas sob o regime do KGB. Ah, mas será preciso segui-los?
"Meu Deus, sei lá! Mas sei que o KGB está tentando nos destruir a todos, e rebaixar-nos ao nível dele e... "
Os olhos de Armstrong voltaram a entrar em foco, e viu que todos o fitavam.
— O quê?
— Devemos manter o ciclo de duas horas, senhor? — repetiu o médico, inquieto.
— Sim, e às seis e meia começaremos a primeira entrevista.
— O senhor mesmo vai fazê-la?
— Está nas ordens, puta que o pariu! — explodiu Armstrong. — Porra, não sabe ler?
— Oh, desculpe — replicou o médico imediatamente. Todos sabiam da amizade de Armstrong pelo cliente, e das ordens de Crosse para ele conduzir o interrogatório. — Quer um sedativo, meu velho? — perguntou o dr. Dorn, solícito.
Armstrong xingou-o obscenamente e saiu, zangado porque o médico conseguira fazê-lo perder a paciência. Subiu ao andar mais alto do prédio, onde ficava o salão de reunião dos oficiais,
— Garçom!
— Pronto, senhor!
Sua caneca de cerveja logo apareceu, mas daquela vez o liquido suave e escuro que adorava, amargo e maltado, não lhe saciou a sede ou limpou sua boca. Mil vezes ele se perguntava o que faria se fosse pego por eles e colocado, nu, dentro de uma cela daquelas, conhecendo a maioria das técnicas e práticas, e estando preparado. "Melhor do que o desgraçado do Brian", pensou amargamente. "O pobre sacana sabe tão pouco! É, mas será que saber mais ajuda alguma coisa, quando se é o cliente?"
Sentiu a pele pegajosa do suor provocado pelo medo, ao pensar no que esperava Brian Kwok.
— Garçom!
— Sim, senhor, já vou!
— Boa noite, Robert. Posso sentar-me com você? — perguntou o inspetor-chefe Donald C. C. Smyth.
— Oh, alô. Sim... sente-se — disse, sem entusiasmo, ao homem mais moço.
Smyth sentou-se no banquinho ao lado dele e ajeitou mais confortavelmente o braço na tipóia.
— Como vai indo a coisa?
— Rotina.
Armstrong viu Smyth balançar a cabeça, e pensou como lhe caía bem o seu apelido. O Cobra. Smyth era bonitão, suave, sinuoso como uma cobra, com o mesmo tipo mortal de ameaça e o mesmo hábito de lamber os lábios de vez em quando com a ponta da língua.
— Pombas! Ainda acho impossível acreditar que seja o Brian. — Smyth era um dos poucos que sabia sobre Brian. — Que coisa chocante!
— É
— Robert, o diretor do Departamento de Investigações Criminais — o chefe supremo de Robert — me ordenou que assumisse o caso dos Lobisomens enquanto você estiver ocupado. E quaisquer outros que você queira que eu assuma.
— Está tudo nos arquivos. O sargento Tang-po é meu número 2... é um bom detetive. Muito bom, na verdade. — Armstrong tomou grandes goles de cerveja e acrescentou, com cinismo: — E muito bem relacionado.
Smyth sorriu.
— Ótimo, isso ajuda.
— Só não vá organizar a porra do meu distrito.
— Deus me livre, amigão. Aberdeen Leste exige todas as minhas habilidades. Bem, e quanto aos Lobisomens? Continua a vigilância sobre Phillip Chen?
— Sim. E a mulher.
— Interessante que antes de Dianne se casar com aquele velho sovina ela era Mai-wei T'Chung, hem? Interessante que um dos primos dela seja o Sung Colibri.
Armstrong fitou-o.
— Andou fazendo o seu dever de casa?
— Tudo parte do serviço. — Smyth acrescentou, sombriamente: — Gostaria de pegar esses Lobisomens bem rapidinho. Já recebemos três telefonemas apavorados em Aberdeen Leste. De gente que recebeu telefonemas dos Lobisomens, exigindo h'eung yau "muito lapidinho", caso contrário, um seqüestro. Parece que a coisa se repete por toda a colônia. Se três cidadãos apavorados ligaram para nós, pode apostar que trezentos outros não tiveram coragem. — Smyth sorvia o seu uísque com soda. — Isso não é bom para os negócios, nada bom. A vaca tem apenas uma certa quantidade de gordura. Se não pegarmos logo os Lobisomens, os sacanas terão sua própria Casa da Moeda... alguns telefonemas rápidos e o dinheiro irá pelo correio, as pobres vítimas felizes por pagarem para fugir às atenções deles... e qualquer outro bandido safado com visão também vai entrar nessa jogada.
— Concordo. — Armstrong terminou a cerveja. — Quer outra?
— É por minha conta. Garçom! Armstrong ficou vendo sua cerveja ser servida.
— Acha que há alguma ligação entre John Chen e Sung Colibri? — Lembrava-se de Sung, o rico armador seqüestrado há seis anos, e sorriu amargamente. — Pombas, há anos que não penso nele!
— Nem eu. Os casos não são semelhantes, e pusemos os seqüestradores por vinte anos na cadeia, onde vão apodrecer, mas nunca se sabe. Pode ser que haja uma ligação. — Smyth deu de ombros. — Dianne Chen devia odiar John Chen, e estou certo de que ele a odiava, todo mundo sabe disso. Assim como o velho Colibri. — Ele riu. — O outro apelido do Colibri no... digamos... no comércio é Intrometido.
Armstrong soltou um resmungo. Esfregou os olhos cansados.
— Pode valer a pena ir ver a mulher de John, Barbara. Ia fazê-lo amanhã, mas... bem, pode valer a pena.
— Já marquei hora. E vou em primeiro lugar para Sha Tin. Pode ser que os sacanas locais tenham deixado escapar alguma coisa, na chuva.
— Boa idéia. — Inquieto, Armstrong ficou observando o Cobra tomar o seu uísque. — No que está pensando? — perguntou, sabendo que havia algo.