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Smyth olhou-o nos olhos.

— Há muita coisa que não entendo nesse seqüestro. Por exemplo: por que os Grandes Dragões ofereceram uma recompensa tão grande pela recaptura de John, vivo ou morto?

— Pergunte-lhes.

— Já perguntei. Pelo menos, pedi a alguém que conhece um deles. — O Cobra deu de ombros. — Nada. Absolutamente nada. — Hesitou. — Vamos ter que escarafunchar o passado de John.

Armstrong sentiu uma pontada gélida, que disfarçou.

— Boa idéia.

— Sabia que Mary o conhecia? Da época em que foram prisioneiros de guerra, em Stanley?

— Sabia — disse Armstrong, tomando sua cerveja sem sentir-lhe o gosto.

— Ela podia nos dar uma pista... digamos... se o John estava ligado ao mercado negro, no campo. — Seus olhos azul-claros mantinham-se fitos nos olhos azul-claros de Armstrong. — Pode valer a pena perguntar.

— Vou pensar no assunto. É, vou pensar. — O grandalhão não tinha raiva do Cobra. Se estivesse no lugar dele, também teria perguntado. Os Lobisomens eram uma barra pesada, e a primeira onda de terror já varrera a sociedade chinesa. "Quantas outras pessoas sabem do caso de Mary com John Chen?", perguntou a si mesmo. "Ou sabem dos quarenta mil que ainda estão abrindo um buraco a fogo na minha mesa, ainda abrindo um buraco a fogo na minha alma?" — Faz muito tempo.

— É.

Armstrong ergueu a cerveja.

— Seus "amigos" o estão ajudando?

— Digamos que recompensas e pagamentos substanciais estão sendo feitos... prazerosa e agradecidamente, devo acrescentar, pela nossa fraternidade do jogo. — O sorriso sardônico deixou o rosto de Smyth. E a gozação. — Temos que pegar aqueles malditos Lobisomens depressa, ou eles vão realmente bagunçar o nosso coreto.

52

21h15m

Wu Quatro Dedos estava na popa alta do junco motorizado que se agitava nas ondas encapeladas, em alto-mar, todas as luzes diminuídas.

— Escute, seu Lobisomem de bosta — sibilou, irritado, para Kin Bexiguento, que jazia trêmulo aos seus pés, no tombadilho, alucinado de dor, amarrado com cordas e grossas correntes. — Quero saber quem mais faz parte da sua quadrilha de merda, e onde você conseguiu a moeda, a meia moeda. — Não houve resposta. — Acorde o filho da mãe!

De bom grado, Poon Bom Tempo derramou outro balde de água do mar sobre o jovem largado no chão. Como isso não surtiu efeito, debruçou-se com a faca na mão. Imediatamente Kin Bexiguento berrou e saiu do seu estupor.

— O que é, o que é, senhor? — berrava. — Chega... o que é, o que deseja?

Wu Quatro Dedos repetiu o que dissera. O jovem soltou outro berro agudo quando Poon Bom Tempo o cutucou com a faca.

— Já lhe contei tudo... tudo... — Desesperadamente, sem acreditar que pudesse haver tanta dor no universo, sem ligar para mais nada, ele balbuciou de novo quem eram os membros da quadrilha, todos os seus nomes e endereços verdadeiros. Falou até na velha amah de Aberdeen. —... meu pai me deu a moeda... não sei onde... ele a deu para mim sem dizer onde... a conseguiu... juroooooo...

Sua voz foi sumindo. Desmaiou de novo. Quatro Dedos soltou uma cusparada de nojo.

— Os jovens de hoje não têm resistência!

A noite estava escura, e um vento mal-humorado soltava rajadas de vez em quando sob uma cerração baixa, o motor potente e redondo ronronando gostoso, o junco andando apenas o suficiente para diminuir o inevitável balanço e caturro das ondas. Estavam alguns quilômetros a sudoeste de Hong Kong, pouco além das rotas marítimas, as águas da RPC e a vasta foz do rio Pearl a bombordo, o mar aberto a boreste. Todas as velas tinham sido recolhidas.

Ele acendeu um cigarro e tossiu.

— Que todos os deuses amaldiçoem todos os desgraçados dos tríades!

— Quer que o acorde outra vez? — perguntou Poon Bom Tempo.

— Não. Não, o filho da mãe contou a verdade, o quanto sabia da verdade. — Os dedos calosos de Wu se estenderam e tocaram nervosamente a meia moeda que usava agora ao redor do pescoço, sob a camiseta de meia esmolambada, certificando-se de que ainda estava ali. Um nó de ansiedade subiu-lhe à garganta à idéia de que a moeda pudesse ser genuína, pudesse ser o tesouro perdido de Phillip Chen. — Saiu-se muito bem, Poon Bom Tempo. Hoje à noite receberá uma gratificação. — Seus olhos dirigiram-se para o sudeste, buscando o sinal, que já estava atrasado. Mas Wu ainda não estava preocupado. Automaticamente, seu nariz farejou o vento, e sua língua provou-o, travoso e cheio de sal. Os olhos varreram o céu, o mar e o horizonte. — Logo vai chover mais — resmungou.

Poon acendeu outro cigarro na sua guimba, depois apagou a guimba no convés com o pé descalço, caloso.

— Será que vai estragar as corridas de sábado? O velho deu de ombros.

— Se for a vontade dos deuses. Acho que vai chover a cântaros amanhã, de novo. A não ser que o vento mude de direção. A não ser que o vento mude de direção, podemos ter os Ventos do Demônio, os Ventos Supremos, e esses sacanas podem nos espalhar pelos Quatro Mares. Mijo nos Ventos Supremos!

— Eu mijarei neles se não houver corrida. Meu faro me diz que quem vai ganhar é o cavalo do Banqueiro Kwang.

— Hum! Aquele meu sobrinho fedorento, bajulador, bem que está precisando que sua sorte mude! O idiota perdeu o seu banco!

Poon escarrou e cuspiu, para dar sorte.

— Graças a todos os deuses por Choy Lucrativo! Como Quatro Dedos, seus capitães e seu pessoal tinham sacado os seus fundos do Ho-Pak, graças à informação de Paul Choy... e como ele próprio ainda estava curtindo os grandes lucros obtidos pela manipulação ilícita das ações da Struan, feitas pelo filho, Wu batizara-o de Choy Lucrativo. Por causa do lucro, perdoara a transgressão do filho. Mas apenas no coração. Como era prudente, o velho nada demonstrava externamente, exceto para seu amigo e confidente, Poon Bom Tempo.

— Traga-o para o convés.

— E quanto a este Lobisomem filho da puta? — O dedo do pé caloso de Poon cutucou Kin. — O jovem Lucrativo não gostou nada dele, nem desse assunto, heya?

— Está na hora de ele crescer, de saber como tratar os inimigos, de conhecer os valores reais, não os valores agourentos, xexelentos, insensatos da Montanha Dourada. — O velho cuspiu no convés. — Ele esqueceu quem é e onde estão seus interesses.

— Você mesmo disse que não se manda um coelho contra um dragão. Ou um peixinho contra um tubarão. Você deve levar em consideração o seu investimento, e não se esqueça de que Choy Lucrativo lhe devolveu vinte vezes tudo o que gastou com ele em quinze anos. No mercado do dinheiro, é um Grande Dragão, e tem só vinte e seis anos. Deixe-o onde fica melhor, melhor para você e melhor para ele, heya?

— Hoje ele fica melhor aqui. O velho marujo coçou a orelha.

— Não sei, não, Quatro Dedos. Isso os deuses é que decidirão. Quanto a mim, eu o teria deixado em terra. — Agora, Poon Bom Tempo estava observando o sudeste. Sua visão periférica percebera alguma coisa. — Está vendo?

Depois de algum tempo, Quatro Dedos sacudiu a cabeça.

— Há tempo de sobra, de sobra.

— É. — O velho marujo olhou para o corpo amarrado com correntes feito uma galinha depenada. Seu rosto se abriu num sorriso. — Eeee, mas quando Choy Lucrativo ficou branco como uma água-viva ao primeiro grito e primeiro sangue deste filho da puta, tive que peidar para soltar o riso e não o desmoralizar!

— Os jovens de hoje não têm resistência — repetiu Wu. Depois acendeu um outro cigarro e balançou a cabeça. — Mas tem razão. Depois desta noite, Lucrativo vai ficar no seu lugar para se tornar ainda mais lucrativo. — Lançou um olhar para Kin Bexiguento. — Está morto?

— Ainda não! Que puto sujo e sem mãe! Bater no Filho Número Um do Chen da Casa Nobre com uma pá, e depois nos contar mentiras, heya? E cortar a orelha do Chen e culpar o pai e os irmãos, e também mentir sobre isso! E depois pegar o resgate mesmo sem poder entregar a mercadoria! Terrível!