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— Revoltante! — O velho deu uma risadinha. — E mais terrível ainda deixar-se prender. Mas você mostrou ao sacana o erro das suas atitudes nojentas, Poon Bom Tempo. Os dois riram, sentindo-se felizes juntos.

— Quer que corte fora a outra orelha dele, Quatro Dedos?

— Ainda não. Breve, muito breve. Poon coçou a cabeça de novo.

— Há uma coisa que não entendo. Por que me mandou colocar o cartaz deles no Filho Número Um, e deixá-lo lá, como eles planejavam? — Olhou para Quatro Dedos, franzindo o cenho. — Quando este fornicador estiver morto, todos os Lobisomens estarão mortos, heya? Então, para que vai servir o cartaz?

Quatro Dedos casquinou.

— Tudo fica claro para aquele que espera. Paciência — disse, muito satisfeito consigo mesmo. O cartaz insinuava que os Lobisomens estavam vivos. Se apenas ele e Poon soubessem que estavam mortos, a qualquer hora ele poderia ressuscitá-los, ou a ameaça deles. Ao seu bel-prazer. "É", pensou, feliz, "mate um para aterrorizar dez mil! Os Lobisomens podem facilmente tornar-se uma fonte contínua de renda extra, a um custo muito baixo. Alguns telefonemas, um ou dois seqüestros criteriosos, quem sabe outra orelha. Paciência, Poon Bom Tempo. Logo vai compreen... " Interrompeu-se. Os dois homens focalizaram os olhos no mesmo local, na escuridão. Um cargueiro pequeno e mal-iluminado acabava de aparecer. Dali a um momento, duas luzes piscaram no seu mastro. Imediatamente, Wu foi para a torre de comando e lampejou um sinal em resposta. O cargueiro lampejou a confirmação. — Ótimo — disse Wu, feliz, lampejando a reconfirmação. A tripulação no convés também tinha visto as luzes. Um deles desceu para buscar o resto dos marujos, e os outros foram para seus postos. Os olhos de Wu pousaram em Kin Bexiguento. — Primeiro ele — falou, com ar malévolo. — Tragam meu filho aqui.

Debilmente, Paul Choy subiu ao convés. Sorveu com gosto o ar fresco, pois o fedor lá embaixo era de amargar. Subiu a escada que levava à popa. Quando viu a nojeira vermelha e o corpo mutilado no convés, seu estômago se revoltou mais uma vez e ele deitou cargas ao mar.

— Dê uma mão ao Poon Bom Tempo — disse Quatro Dedos.

— O quê?

— Está com os ouvidos cheios de vômito? — berrou o velho. — Dê-lhe uma mão.

Assustado, Paul Choy cambaleou para junto do velho ma-rujo, enquanto o timoneiro observava, interessado.

— O que quer... que eu faça?

— Pegue as pernas dele!

Paul Choy tentou dominar a náusea que sentia. Fechou os olhos. Suas narinas estavam cheias do cheiro de vômito e sangue. Abaixou-se, pegou as pernas e parte da grossa corrente, cambaleou e quase caiu. Poon Bom Tempo estava carregando a maior parte do peso, e podia tê-lo carregado todo, e mais Paul Choy, se fosse preciso. Sem esforço, equilibrou Kin Bexiguento na amurada.

— Deixe-o aí!

Como já havia combinado com Quatro Dedos, o velho marujo se afastou, deixando Paul Choy por sua conta, com o corpo inconsciente e mutilado largado precariamente contra si.

— Jogue-o ao mar! — ordenou Wu.

— Mas, pai... por favor... ele... não está morto... ainda não está morto. Por favor...

— Jogue-o ao mar!

Desnorteado de medo e repulsa, Paul Choy tentou puxar o corpo de novo para bordo, mas o vento soprou e inclinou o junco, e o último dos Lobisomens caiu no mar e afundou sem deixar vestígios. Impotente, Paul Choy ficou olhando as ondas batendo contra a madeira. Notou que havia sangue em suas mãos e em sua camisa. Outra onda de náusea tomou conta dele, atormentando-o.

— Tome!

Asperamente, Wu entregou um frasco ao filho. Continha uísque, dos bons. Paul Choy engasgou um pouco, mas seu estômago não devolveu o uísque. Wu voltou-se para a torre de comando, fez sinal ao timoneiro para que guiasse o barco em direção ao cargueiro, a todo o vapor. Paul Choy quase caiu, mas conseguiu agarrar-se à amurada e ficar de pé, despreparado para o inesperado do ronco do motor e do aumento da velocidade. Quando voltou a se equilibrar, olhou para o pai. Agora, o velho estava junto da casa do leme, com Poon Bom Tempo perto dele, e ambos olhavam para dentro da escuridão. Paul Choy pôde ver o naviozinho, e seu estômago deu voltas. Odiou novamente o pai, odiou estar a bordo, envolvido no que obviamente era contrabando... e, para coroar, o horror do Lobisomem.

"Seja lá o que aquele pobre filho da puta tenha feito", pensou, enraivecido, "isso não lhe dava o direito de fazer justiça com as próprias mãos. Ele tinha que tê-lo entregue à polícia, para ser preso, enforcado, ou lá o que fosse. "

Wu sentiu o olhar do outro fito nele, e olhou para trás. Sua fisionomia não se alterou.

— Venha cá — ordenou, a mão sem um dos dedos apontando para a amurada à sua frente. — Fique aqui.

Entorpecido, Paul Choy obedeceu. Era muito mais alto que o pai e Poon Bom Tempo, mas não passava de um pedaço de palha comparado com qualquer um dos dois.

O junco varava a escuridão num rumo de intercepção, o mar negro e a noite negra, iluminados apenas por um raio de luar que penetrava a cerração. Logo estavam perto da popa da embarcação, a boreste, cada vez mais próximos. A embarcação era pequena, vagarosa e muito velha, e mergulhava de modo inquietante nas vagas que se formavam.

— É um cargueiro costeiro — explicou Poon Bom Tempo —, uma traineira Tai, é como as chamamos. Há dúzias das sacanas em águas asiáticas. São a escória dos mares, Choy Lucra-tico, tripuladas por lixo humano, capitaneadas por lixo humano, e todas vazam como armadilhas de pegar lagostas. A maioria infesta a rota de Bangkok, Cingapura, Manila, Hong Kong, ou qualquer outro lugar para onde tenham carga. Essa vem de Bangkok. — Escarrou e cuspiu, enojando de novo o rapaz. — Não gostaria de viajar numa dessas putas fedorentas. Ela...

Interrompeu-se. Houve outro breve sinal faiscante. Wu respondeu. Então, todos os que estavam a bordo viram a água espadanar a boreste da traineira, quando algo pesado caiu no mar. Imediatamente Quatro Dedos deu o sinal de "parar máquinas". O súbito silêncio era ensurdecedor. Os vigias da proa olhavam para dentro da escuridão. O junco oscilou e deu uma guinada, enquanto diminuía de velocidade.

Então, um dos vigias da proa fez sinal com uma bandeira. Imediatamente, Wu mandou ligar as máquinas e fez uma correção. Outro sinal silencioso, outra mudança de direção, e depois um movimento mais brusco e excitado da bandeira.

Imediatamente, Wu inverteu a marcha. A hélice girou com mais força na água. Depois, ele desligou o motor, e o junco dirigiu-se, guinando, para mais perto da linha de bóias oscilantes. O velho nodoso parecia fazer parte do barco, enquanto Paul Choy o observava, os olhos fitos no mar à frente. Habilmente, Wu manobrou o junco pesado no rumo das bóias. Dali a alguns momentos, um marujo com uma vara comprida e en-curvada debruçou-se do convés superior e enganchou a linha. As bóias grosseiras foram trazidas para bordo habilmente pelos outros marujos, e a linha foi presa com firmeza a um balaústre. Com perícia e prática, o marinheiro-chefe do convés cortou fora as bóias e lançou-as ao mar, enquanto outros marujos se certificavam de que os fardos presos à outra extremidade da linha, abaixo da superfície, estavam a salvo. Paul Choy agora podia ver os fardos nitidamente. Eram dois, de cerca de um metro por um e oitenta, e estavam bem amarrados a uma corda, debaixo d'água, seu peso mantendo a linha grossa esticada. Com a carga atrelada em segurança ao lado do navio, embora ainda cerca de um metro e meio abaixo da superfície, o mari-nheiro-chefe do convés fez um sinal. Imediatamente, Quatro Dedos fez zarpar o junco a uma velocidade de cruzeiro e lá se foram eles, num curso diferente.

Toda a operação fora feita em silêncio, sem esforço, e em segundos. Dali a um momento as luzes de âncora fracas da traineira Tai haviam desaparecido na escuridão, e eles estavam sozinhos no mar mais uma vez.

Wu e Poon Bom Tempo acenderam cigarros.

— Muito bom — disse Poon Bom Tempo. Quatro Dedos não replicou, os ouvidos atentos ao ronco agradável dos motores. "Não há problema com eles", pensou. Seus sentidos testaram o vento. "Nenhum problema com ele. " Seus olhos varreram a escuridão. "Também nada ali", disse a si mesmo. "Então, por que você está inquieto? Será o Sétimo Filho?"