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Lançou um olhar para Paul Choy, que estava a bombordo, de costas para ele. Não, ali também não havia perigo.

Paul Choy fitava os fardos. Deixavam um pequeno rastro. Sua curiosidade aumentou. Estava se sentindo um pouquinho melhor agora, o uísque a aquecê-lo e o sal cheirando bem, e mais a emoção do encontro e o fato de estar longe e seguro.

— Por que não os traz para bordo, pai? Pode perdê-los. Wu fez sinal a Poon para responder.

— É melhor deixar a colheita do mar para o mar, Choy Lucrativo, até que seja bem seguro levá-la para terra. Heya?

— Meu nome é Paul, não Lucrativo. — O rapaz voltou a olhar para o pai, e estremeceu. — Não havia necessidade de assassinar aquele fornicador!

— Não foi o comandante que o fez — disse Poon Bom Tempo, respondendo pelo velho. — Foi você, Choy Lucrativo. Foi você que o jogou ao mar, vi nitidamente. Eu estava a meio passo de distância.

— Mentiras! Tentei puxá-lo de volta! E de qualquer maneira, foi ele que ordenou. Ele me ameaçou.

O velho marujo deu de ombros.

— Diga isso a um bom juiz dos demônios estrangeiros, Choy Lucrativo, e isso não será nem um pouquinho lucrativo, porra!

— Meu nome não é Lu...

— O Comandante das Frotas chamou-o de Lucrativo. Portanto, por todos os deuses, você é Lucrativo para sempre. Heya? — acrescentou, rindo para Quatro Dedos.

O velho nada disse, apenas sorriu, deixando ver seus poucos dentes quebrados, o que fez sua careta mais assustadora.

A cabeça calva e o rosto curtido balançaram, concordando. Depois, fitou o filho. Paul Choy estremeceu, apesar de toda a sua força de vontade.

— Seu segredo está a salvo comigo, meu filho. Não tema. Ninguém a bordo deste barco viu coisa alguma. Não é, Poon Bom Tempo?

— Não, nada. Por todos os deuses, grandes e pequenos! Ninguém viu nada.

Paul Choy devolveu-lhe o olhar, carrancudo.

— Não se pode embrulhar fogo com papel!

— Neste barco se pode — riu-se Poon Bom Tempo.

— É — concordou Wu, a voz áspera. — Neste barco pode-se guardar um segredo para sempre. — Acendeu outro cigarro, escarrou e cuspiu. — Não quer saber o que há naqueles fardos?

— Não.

— É ópio. Entregue em terra, o trabalho desta noite renderá duzentos mil para mim, só para mim, com muitas gratificações para a tripulação.

— O lucro não vale o risco, não para mim. Ganhei para você... — Paul Choy se interrompeu.

Wu Quatro Dedos olhou para ele. Cuspiu no convés, passou o governo do barco para Poon Bom Tempo e dirigiu-se aos grandes assentos estofados que circundavam a popa.

— Venha cá, Choy Lucrativo — ordenou. Assustado, Paul Choy sentou-se no lugar indicado. Agora, estavam sozinhos.

— Lucro é lucro — disse Wu, muito zangado. — Dez mil é o seu lucro. O bastante para comprar uma passagem aérea de ida e volta para Honolulu, e tirar dez dias de férias.

Viu o lampejo momentâneo de alegria inundar o rosto do filho, e sorriu intimamente.

— Nunca vou voltar — disse Paul Choy, corajosamente.

— Nunca.

— Ah, vai. Agora vai. Pescou em águas muito perigosas.

— Nunca voltarei. Tenho um passaporte americano e... — E uma prostituta japonesa, heya?

Paul Choy fitou o pai, surpreso de que ele soubesse. Depois ficou louco de raiva e pôs-se de pé num salto, cerrando os punhos.

— Ela não é uma prostituta, por todos os deuses! É formidável, é uma dama, e a família dela é...

— Quieto! — Wu abafou com cuidado uma imprecação.

— Muito bem, então não é uma prostituta, embora para mim todas as mulheres sejam prostitutas. Não é uma prostituta, mas uma imperatriz. Mas ainda é uma diaba do mar do Leste, da raça que estuprou a China.

— Ela é americana, americana como eu — explodiu Paul Choy, os punhos cerrados com mais força ainda, pronto para saltar sobre o outro. O timoneiro e Poon Bom Tempo prepararam-se para interferir, sem dar na vista. Poon segurou uma faca. — Sou americano, ela é nissei americana, o pai dela serviu com o 442 na Itália e...

— Você é haklo, é um dos Wu Marítimos, gente de navio, e vai me obedecer! Vai, Choy Lucrativo, vai, ora se vai obedecer! Heya?

Paul Choy ficou de pé diante dele, tremendo com fúria igual, tentando conservar a coragem, pois a raiva do velho era assustadora e ele podia sentir Poon Bom Tempo e o outro homem atrás de si.

— Não a ofenda! Ouviu?

— Ousa cerrar os punhos para mim? Eu, que lhe dei a vida, que lhe dei tudo? Todas as oportunidades, até a de conhecer essa... essa imperatriz do mar do Leste? Heya?

Paul Choy rodopiou como se tivesse sido atingido por um vendaval. Poon Bom Tempo erguia os olhos para ele.

— Este é o Comandante das Frotas. Trate de respeitá-lo. — A mão de ferro do marujo empurrou-o de volta aos assentos. — O comandante falou para se sentar. Sente-se!

Depois de um momento, Paul Choy perguntou, emburrado:

— Como soube dela? Exasperado, o velho exclamou:

— Que todos os deuses sejam testemunhas desse roceiro a quem gerei, esse macaco com o cérebro e os modos de um roceiro! Acha que não mandei que o vigiassem? Que o protegessem? Vou mandar uma toupeira para o meio de cobras, ou um filhote civilizado para o meio de demônios estrangeiros, sem proteção? Você é o filho de Wu Sang Fang, chefe dos Wu Marítimos, e protejo os meus contra todos os inimigos. Não sabe que temos um bom número de inimigos que cortariam o seu Saco Secreto e me enviariam o seu conteúdo só para me irritar? Heya?

— Não sei.

— Pois então fique sabendo, meu filho!

Wu Quatro Dedos sabia que aquela era uma batalha mortal e que tinha que ser sábio como um pai precisa ser quando o filho finalmente o contesta. Não tinha medo. Fizera isso com muitos filhos, e só perdera um. Mas era grato ao tai-pan, que lhe dera a informação sobre a garota e sua ascendência. "Essa e a chave", pensou, "a chave para este filho desaforado de uma Terceira Mulher cuja Ravina Dourada era doce e tenra como um peixinho prateado fresco, enquanto viveu. Talvez eu o deixe trazer para cá a sua prostituta. O pobre precisa de uma, seja lá que nome lhe dê. Dama? Pois sim! Ouvi dizer que os demônios do mar do Leste não têm pêlos púbicos! Revoltante! No mês que vem ele pode trazer para cá a meretriz. Se os pais deixarem que venha sozinha, isso provará que é uma prostituta. Se não deixarem, é o fim dela. Nesse meio tempo, vou arrumar uma mulher para ele. É. Quem? Uma das netas de Pão-Duro? Ou do Lando Mata ou... Ah, a fedelha mais nova do mestiço não foi treinada na Montanha Dourada, também, numa escola para moças, uma famosa escola para moças? Que diferença faz para este idiota, sangue puro ou não?

"Tenho muitos filhos", pensou, sem sentir nada por ele. "Dei-lhes a vida. O dever deles é para comigo, e, quando eu morrer, para com o clã. Talvez uma boa garota barqueira haklo de quadris largos e pés ásperos fosse a mulher certa para ele", pensou, sombriamente. "É, mas, eeee, não há necessidade de cortar fora o seu Talo por causa de uma bexiga fraca, não importa o quanto o bestalhão seja grosseiro e mal-educado. "

— Daqui a um mês o Barba Negra lhe dará umas férias — disse, encerrando o assunto. — Eu me encarrego disso. Com os seus dez mil de lucro, pode comprar uma passagem numa máquina voadora... Não! É melhor trazê-la para cá — acrescentou, como se estivesse pensando naquilo pela primeira vez.

— Você a trará para cá. Você deve ir visitar os nossos capitães em Manila, Cingapura e Bangkok. É, traga-a para cá daqui a um mês, os seus dez mil darão para a passagem e todo o...

— Não, de jeito nenhum. E não quero dinheiro de tóxicos! Jamais aceitarei dinheiro de tóxicos, e aconselho-o a largar o tráfico imedia...