Todo o junco foi inundado de luz. Todos ficaram cegos por momentos.
— Parem! — A ordem foi dada em inglês, pelo megafone, repetida depois em haklo, depois em cantonense.
Wu e Poon Bom Tempo foram os primeiros a reagir, e numa fração de segundo se puseram em movimento. Wu girou o timão com força para bombordo, para longe do barco de patrulha da polícia marítima, e acelerou os dois motores, à velocidade máxima. Poon saltara escada abaixo para a coberta principal, e agora cortava a linha da carga, e o rastro dos fardos desapareceu quando eles afundaram no mar.
— Parem para abordagem!
As palavras metálicas penetraram violentamente em Paul Choy, que estava paralisado de medo. Viu o pai tirar de um armário próximo uns quepes pontudos de soldado da RPC, meio amassados, e enfiar um deles na cabeça.
— Depressa — ordenou, jogando-lhe um.
Apavorado, obedeceu, metendo-o na cabeça. Por um milagre, toda a tripulação agora usava o mesmo tipo de chapéu, e alguns marujos lutavam para entrar em túnicas do exército igualmente amassadas e sujas.
O coração dele parou. Outros estavam tirando de dentro de armários rifles do exército e metralhadoras portáteis da RPC, enquanto outros se dirigiam para o lado que ficava mais perto do barco-patrulha e começavam a gritar obscenidades. O barco era luzidio e cinzento, com um canhão de convés, e agora dois holofotes e as luzes de âncora estavam acesos. Estava a uns cem metros a boreste, os motores roncando, acompanhando-os com facilidade. Podiam ver os marujos impecáveis, de branco, e, na ponte, os quepes pontudos dos oficiais britânicos.
Quatro Dedos agora também segurava um megafone. Dirigiu-se mais para perto da amurada, o quepe enfiado o mais possível na cabeça, e rugiu:
— Vão se foder, bárbaros! Olhem para as nossas cores! — A mão apontou para o topo do mastro. A bandeira da marinha da RPC tremulava ali. Na popa via-se um número de registro falso de Cantão. — Não incomodem uma patrulha pacífica... estão em nossas águas!
O rosto de Poon ostentava um sorriso amplo e malévolo. Com uma pistola automática da RPC nas mãos, ele permanecia junto à amurada, recortado contra a luz, o quepe bem enfiado na cabeça para impedir a identificação pelos binóculos que ele sabia estarem varrendo o navio. Seu coração batia disparado, e havia um gosto acre-doce e nauseante de bile em sua boca. Estavam em águas internacionais. A segurança e as águas da República Popular da China estavam a quinze minutos de distância. Engatilhou a arma. As ordens eram claras. Ninguém os iria abordar naquela noite.
— Parem! Vamos subir a bordo!
Todos viram o barco-patrulha diminuir a velocidade e o escaler ser lançado ao mar, e muitos a bordo perderam a confiança inicial. Quatro Dedos empurrou o acelerador de mão todo à frente, para obter o máximo de potência. Xingou-se por não ter visto o barco da polícia antes, ou pressentido sua presença, mas sabia que eles tinham dispositivos eletrônicos que varavam a escuridão, enquanto ele tinha que confiar nos olhos, no nariz e no sexto sentido que até agora o haviam mantido vivo, assim como a maior parte do seu pessoal.
Era raro encontrar um barco-patrulha tão perto de águas chinesas. Mas o barco estava ali, e embora sua carga tivesse sumido, havia armas a bordo, e havia Paul Choy. "Que azar! Que todos os deuses defequem no barco-patrulha! Poon Bom Tempo estava parcialmente certo", disse consigo mesmo. "Os deuses decidirão se foi ou não sensato ter trazido o rapaz para bordo. "
— Vão se foder! Nenhum demônio estrangeiro sobe a bordo de um barco-patrulha da República Popular da China!
Toda a tripulação deu vivas entusiásticos, acrescentando suas obscenidades à barulheira.
— Parem!
O velho não lhes deu atenção. O junco dirigia-se a toda a velocidade para o estuário do rio Pearl, e ele e todos a bordo rezavam para que não houvesse patrulhas da RPC por ali. À luz do holofote, podiam ver o escaler, com dez marujos armados, num curso de intercepção, mas ele não tinha velocidade bastante para alcançá-los.
— Pela última vez, pareeeeeem!
— Porra, pela última vez, deixem a patrulha pacífica da RPC sossegada nas suas próprias águas...
De repente, as sirenes do barco-patrulha começaram a tocar, e ele pareceu dar um salto para a frente, devido à violenta aceleração de suas máquinas, deixando atrás de si um rastro alto e espumante. O holofote ainda os focalizava, quando ele se jogou para a frente e se meteu bem no caminho da proa do junco, parando ali, os motores roncando malevolamente, bloqueando a passagem para a segurança.
Paul Choy ainda fitava a embarcação cinzenta, de proa afilada, pronto para acionar o canhão de convés e as metralhadoras grandes, com quatro vezes a potência das que eles tinham. A distância diminuía cada vez mais, sem que eles tivessem espaço para manobrar. Podiam ver os marujos fardados no convés, os oficiais na ponte, as antenas de radar varrendo o espaço.
— Abaixe a cabeça — avisou Wu a Paul Choy, que obedeceu imediatamente. Então, Wu saiu correndo para a proa, Poon Bom Tempo ao seu lado. Ambos carregavam metralhadoras automáticas.
— Agora!
Cuidadosamente, ele e o amigo dispararam no mar, na direção do barco-patrulha, que agora estava quase em cima deles, tomando um cuidado extremo para que nenhuma das balas atingisse o convés. Imediatamente, o holofote foi desligado, e, na escuridão cegante, o timoneiro prontamente guinou com força o barco para boreste, rezando para que Wu tivesse tomado a decisão certa. O junco passou pelo barco-patrulha, vencendo os poucos metros de espaço de manobra, enquanto a outra embarcação acelerava para a frente, tentando escapar do alcance das balas. O timoneiro voltou a colocar o junco no curso e na sua fuga para a segurança.
— Ótimo — resmungou Wu, sabendo que havia ganho mais uns cem metros. O mapa daquelas águas estava impresso em sua mente. Estavam agora na área cinzenta entre as águas de Hong Kong e da RPC, a poucas centenas de metros da verdadeira segurança. Na escuridão, todos no convés haviam mantido os olhos bem fechados. No momento em que sentiram de novo o holofote, abriram os olhos e se adaptaram com muito mais rapidez. O atacante estava adiante e a bombordo, fora do alcance das metralhadoras, mas ainda à frente, e ainda inter-ceptando-lhes o caminho. Wu deu um sorriso sombrio.
— Lee Narigudo! — O marinheiro-chefe de convés apresentou-se imediatamente, e ele lhe entregou a metralhadora. — Não a use antes que eu mande, e não atinja nenhum dos sacanas!
Subitamente, a escuridão foi rasgada, e o estouro do canhão de convés os ensurdeceu. Uma fração de segundo e um chafariz de água subiu do mar perto da proa deles. Wu ficou chocado e sacudiu o punho cerrado na direção do navio.
— Fodam-se vocês e todas as suas mães! Deixem-nos em paz, ou o presidente Mao afundará Hong Kong inteira! — Correu em direção à ré. — Dê-me o leme.
O timoneiro estava assustado. Paul Choy também, mas ao mesmo tempo sentia-se curiosamente excitado, e impressiona-díssimo pelo modo de comandar do pai e pela disciplina com que todos a bordo reagiam. Certamente não eram o bando de piratas desmazelados e desorganizados que imaginava que fossem.
— Parem!
Novamente a distância começou a diminuir, mas o barco-patrulha continuava fora do alcance das metralhadoras, e o escaler se mantinha fora do alcance, à ré. Estoicamente, Wu manteve o curso. Outro clarão, depois outro, e parrang par-rannng. Duas balas caíram de cada lado do junco, sacudindo-o.
— Fodam-se todas as mães! — exclamou Wu, ofegante. Que todos os deuses mantenham a boa mira dos artilheiros! — Sabia que aqueles tiros eram apenas para assustá-los, Seu amigo Cobra tinha-lhe assegurado que todas as patrulhas tinham ordem de não atingir ou afundar um junco em fuga que levasse as cores da RPC, pois elas poderiam ser mesmo verdadeiras, de nunca abordar à força um deles, a não ser que um dos marujos do barco-patrulha fosse morto ou ferido. — Soltem uma rajada neles — ordenou.