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Obedientemente, mas com extremo cuidado, os dois homens na proa dispararam uma rajada nas águas. O farol continuou firme, mas subitamente se apagou.

Wu ficou firme no curso. "E agora?", perguntou-se, desesperado. "Para onde vai o fornicador?" Seus olhos varreram a escuridão, esforçando-se para enxergar o barco-patrulha e o promontório que sabia estar próximo. Então, viu a silhueta à ré e a bombordo. Vinha à toda, num esforço de emparelhar com ele e caçá-lo com arpéus. A segurança estava cem metros à frente. Se ele se afastasse do novo perigo, correria paralelamente à área de segurança e continuaria em águas internacionais. Então o navio faria o mesmo de novo, e o forçaria a ir para o mar aberto, até que sua munição acabasse ou alvorecesse, e ele estaria perdido. Não ousava combater de verdade, pois sabia que a lei britânica tinha um braço comprido, e a morte de um dos seus marujos era punida com enforcamento, e nem dinheiro nem amigos influentes poderiam impedi-lo. Se mantivesse o seu curso, o navio poderia usar os arpéus, e ele sabia como eram competentes e bem-treinados os marinheiros cantonenses, e como odiavam os haklos.

Seu rosto abriu-se numa careta. Esperou até o barco-patrulha estar a cinqüenta metros à ré, aproximando-se velozmente, a sirene tocando ensurdecedoramente, depois, sombriamente, girou o leme para cima dele, e rezou para que o comandante estivesse atento. Por um momento, os dois barcos ficaram suspensos. Então, o barco-patrulha se desviou para evitar a colisão, borrifando-os com a água levantada. Wu girou o leme para boreste, e empurrou para a frente todos os aceleradores de mão, embora eles já estivessem dando o máximo. Ganhou mais uns poucos metros.

Viu o barco-patrulha se recuperar rapidamente. Fez a volta, roncando, e voltou para cima deles, numa rota diferente. Estavam praticamente dentro das águas chinesas. Sem esperança, Quatro Dedos largou o leme, pegou outra metralhadora automática e varreu a escuridão, o barulho das balas e o cheiro de cordite tornando o seu medo mais intenso. Abruptamente, a luz forte do holofote o pegou em cheio. Virou a cabeça, cego por ela, e piscou os olhos, mantendo a cabeça e o quepe bem abaixados. Quando conseguiu enxergar de novo, apontou a automática diretamente para a luz e soltou palavrões obscenos, com medo de que eles pudessem enganchar o seu navio e rebocá-lo para longe da segurança. O cano quente balançava enquanto ele mirava a luz, o dedo no gatilho. Seria a morte se ele disparasse, e a prisão, se não o fizesse. O medo o dominou, e espalhou-se por todo o seu navio.

Mas a luz não veio para cima dele rapidamente, como esperava. Permaneceu à ré, e agora ele via que as ondas da proa diminuíam, assim como as ondas do rastro, e seu coração começou a bater de novo. O barco-patrulha estava deixando que ele se fosse. O Cobra tinha razão!

Com mãos trêmulas, largou a arma. Pegou o megafone próximo e levou-o à boca.

— Vitória ao presidente Mao! — berrou, com quantas forças tinha. — Fiquem fora das nossas águas, demônios estrangeiros de merda!

As palavras cheias de alegria ecoavam pelas águas. A tripulação soltava vaias, sacudindo os punhos cerrados para a luz. Até Paul Choy foi envolvido pelo entusiasmo, e berrou também, quando todos se deram conta de que o barco-patrulha não ia se aventurar em águas chinesas.

O holofote se apagou. Quando seus olhos se adaptaram, viram o barco-patrulha ao largo quase sem se mover, as luzes de âncora agora acesas.

— Deve estar nos observando pelo radar — resmungou Paul Choy, em inglês.

— Wat?

Ele repetiu a frase em haklo, usando a palavra "radar", mas explicando-a como um olho mágico. Tanto Poon quanto Quatro Dedos conheciam o princípio do radar, embora nunca tivessem visto nenhum.

— E daí? — debochou Wu. — As telas mágicas e os olhos mágicos deles não vão ajudá-los agora. Podemos sumir da vida deles com toda a facilidade nos canais perto de Lan Tao. Não há provas contra nós, nem contrabando a bordo, nem nada!

— E quanto às armas?

— Podemos lançá-las ao mar, ou podemos fugir desses cães danados e ainda ficar com as nossas armas! Eeeee, Poon Bom Tempo, quando as balas dos canhões nos cercaram, pensei que meu ânus fosse ficar entupido para sempre!

— É — concordou Poon alegremente —, e quando atiramos no escuro contra os sacanas... que todos os deuses se fodam! Sempre tive vontade de usar aquelas armas!

Wu também riu, até as lágrimas lhe correrem pela face.

— É, é, sim, Velho Amigo. — Depois, explicou a Paul Choy a estratégia que o Cobra havia preparado para eles. — Boa, heya?

— Quem é esse tal Cobra? — perguntou Paul Choy.

Wu hesitou, os olhinhos brilhando.

— Um empregado, um empregado da polícia, digamos assim, Choy Lucrativo.

— Perdida a carga, a noite não foi nada lucrativa — falou Poon, com azedume.

— É — concordou Wu, com igual azedume. Prometera a Vênus Poon um anel de brilhantes que planejara pagar com o lucro daquela noite. Agora, ia ter que mexer nas suas economias, o que era contra todos os seus princípios. "A gente paga às prostitutas com o dinheiro que se está ganhando, jamais com as economias. Portanto, que se dane aquele barco da polícia!", pensou. "Sem o presente prometido... Eeee, mas a Caixa Formosa dela é tudo aquilo que Richard Kwang alegava, e o rebolar do seu traseiro tudo o que os boatos prometiam. E hoje... hoje, depois que a estação de tv fechar, seu Portão Encantador vai se abrir mais uma vez!

— Que azar dos diabos aquele bandido da proa afilada ter nos encontrado hoje! — falou, seu membro dando sinais de vida quando ele pensou em Vênus Poon. — Todo aquele dinheiro perdido, e as nossas despesas tão grandes!

— A carga está perdida? — perguntou Paul Choy, muito surpreso.

— Claro que sim. Foi para o fundo do mar — replicou o velho, irritado.

— Não puseram nela um marcador, ou um sinalizador, um beeper? — Paul Choy usou a palavra inglesa, explicando o que era. — Imaginei que teria um... ou uma bóia que se soltasse daqui a um ou dois dias, quimicamente... para que vocês a pudessem recuperar, ou mandar homens-rãs irem buscá-la quando fosse seguro. — Os dois homens o fitavam, boquiabertos. — O que foi?

— É fácil arranjar esses beepers, ou uma bóia de efeito retardado para um ou dois dias depois? — perguntou Wu.

— Ou para uma semana ou duas, se quiser, Pai.

— Quer anotar tudo isso, como fazê-lo? Ou você mesmo se encarrega disso?

— Claro. Mas por que também não têm um olho mágico, como o deles?

— Para que precisamos deles? E quem saberia lidar com eles? — O velho deu nova risada de deboche. — Temos narizes, ouvidos e olhos.

— Mas foram pegos hoje!

— Cuidado com a língua! — disse Wu, zangado. — Foi joss, joss, uma brincadeira dos deuses. Estamos salvos, e é só o que interessa!

— Discordo, comandante — disse Paul Choy, agora sem medo, percebendo que tudo começava a se encaixar. — Seria fácil equipar este barco com um olho mágico... então você poderia vê-los na mesma hora, ou antes que eles o vissem. Eles não poderiam surpreendê-lo. Assim, você poderia fazer careta para eles sem medo, e nunca perderia uma carga. Heya?

— Sorriu intimamente, vendo que eles estavam no papo. — Nunca mais um erro, nem mesmo um pequenino. Nunca mais o perigo. E nunca mais uma carga perdida. E cargas com sinalizadores. Não precisa nem estar perto do local da entrega. Só uma semana mais tarde, heya?

— Isso seria perfeito — disse Poon fervorosamente. — Mas se os deuses estiverem contra você, Choy Lucrativo, nem os olhos mágicos o ajudarão. Hoje escapamos por pouco. Aquele puto nem devia estar aqui.

Todos voltaram os olhos para o barco, à ré, esperando. Algumas centenas de metros à ré. Wu colocou o motor em marcha lenta.

— Não queremos entrar demais em águas da RPC — disse, inquieto. — Os fornicadores civilizados não são tão polidos ou cumpridores da lei. — Sentiu um arrepio. — Bem que podíamos usar um olho mágico, Poon Bom Tempo.