— Nesse meio tempo, vocês podem não ter suficientes dólares de Hong Kong para agüentar a corrida?
— Não se... bem... o problema continuar. Mas tenho certeza de que tudo sairá bem, senhor.
Sir Geoffrey fitou-o.
— Que diabo! Como fomos nos meter nessa confusão?
— Joss — disse Johnjohn, com voz cansada. — Infelizmente, a Casa da Moeda não conseguirá imprimir suficientes dólares de Hong Kong para nós a tempo. Levaria semanas para imprimir e despachar a quantia de que precisamos, e não seria saudável termos todas essas notas extras na nossa economia. A moeda britânica será um tapa-buraco, senhor. Podemos anunciar que a... Casa da Moeda está trabalhando em regime de urgência para suprir nossas necessidades.
— E de quanto estamos realmente precisando? — perguntou o governador. Viu Paul Havergill e Johnjohn se entreo-lharem, o que aumentou a sua inquietação.
— Não sabemos, senhor — falou Johnjohn. — Em toda a colônia, além de nós mesmos, todos os outros bancos terão que penhorar seus títulos (assim como nós penhoramos os nossos temporariamente ao Banco da Inglaterra) para obterem o dinheiro de que precisam. Se cada depositante da colônia quiser cada um dos seus dólares de volta... — O suor agora era evidente no rosto do banqueiro. — Não temos meios de saber exatamente qual o grau de dificuldade dos outros bancos, ou a quantia dos seus depósitos. Ninguém sabe.
— Será que um avião-transporte da raf será suficiente? — Sir Geoffrey tentou não parecer sarcástico. — Quero dizer... bem... um bilhão de libras em notas de cinco e dez? Que diabo! Como vão conseguir reunir tal quantidade de notas?
Havergill enxugou a testa.
— Não sabemos, senhor, mas prometeram que o primeiro carregamento chegará na segunda à noite, o mais tardar.
— Não antes?
— Não, senhor. Antes é impossível.
— Não há mais nada que possamos fazer? Johnjohn engoliu em seco.
— Pensamos em pedir-lhe que declarasse feriado bancário para conter a maré, mas... concluímos (e o Banco da Inglaterra concordou) que, se o senhor o fizesse, a ilha ia endoidar.
— Não há com que se preocupar, senhor. — Havergill tentou parecer convincente. — No final da semana que vem já estará tudo esquecido.
— Eu não vou esquecer, Paul. E duvido que a China esqueça... ou nossos amigos, os deputados trabalhistas. Pode ser que tenham razão sobre a necessidade de alguma forma de controle bancário.
Os dois banqueiros reagiram ao comentário, e Paul Havergill disse, reprovadoramente:
— Aqueles dois cretinos não sabem distinguir os próprios traseiros de um buraco na parede! Tudo está sob controle.
Sir Geoffrey ia discutir esse ponto, mas acabara de ver Rosemont, o vice-diretor da CIA, e Ed Langan, o homem do FBI, aparecerem no terraço.
— Quero estar a par de tudo. Quero um relatório completo ao meio-dia. Podem me dar licença um minuto? Por favor, sirvam-se de mais bebida.
Saiu para interceptar Rosemont e Langan.
— Como vão?
— Muito bem, senhor, obrigado. Bela festa. — Os dois americanos observaram Havergill e Johnjohn voltarem para dentro da casa. — Como vão nossos amigos banqueiros? — indagou Rosemont.
— Bem, muito bem.
— Aquele deputado socialista, o Grey, estava deixando Havergill irritado como o diabo!
— E o tai-pan também — acrescentou Ed Langan, com uma risada.
— Ah, não sei, não — comentou o governador, despreocupadamente. — Um pouquinho de oposição é uma boa coisa, não é? Não é assim que deve ser a democracia, no seu melhor aspecto?
— E o Vic, senhor? Como vai indo a corrida?
— Nenhum problema que não possa ser solucionado — replicou Sir Geoffrey, com o seu charme tranqüilo. — Não há com que se preocupar. Quer me dispensar um momento, sr. Langan?
— Mas certamente, senhor. — O americano sorriu. — Eu já ia embora.
— Não da minha festa! Só para ir se servir de mais uma bebida, não é?
— Sim, senhor.
Sir Geoffrey foi para o jardim com Rosemont. As árvores ainda estavam pingando, e a noite estava escura. Ele se manteve numa trilha que estava empoçada e lamacenta.
— Temos um probleminha, Stanley. O sei acaba de pegar um dos seus marujos do porta-aviões passando segredos para um sujeito do KGB. Ambos...
Rosemont parou, estupefato.
— Alguém do Ivánov?
— É.
— O Suslev? O comandante Suslev?
— Não, não, o nome não é esse. Posso sugerir-lhe que entre em contato com Roger imediatamente? Ambos estão sob custódia, ambos foram acusados segundo a Lei dos Segredos Oficiais, mas já falei com o ministro em Londres, e ele concorda em que você se encarregue do seu sujeito imediatamente... fica menos embaraçoso, não é? Parece que ele... bem... lida com computadores.
— Filho da puta! — murmurou Rosemont, enxugando com a palma da mão o suor repentino da face. — O que foi que ele entregou?
— Não sei exatamente. Roger lhe dará todos os detalhes.
— Também vamos poder interrogar... entrevistar o sujeito do KGB?
— Por que não discute isso com Roger? O ministro também está em contato direto com ele. — Sir Geoffrey hesitou. — Eu... bem... estou certo de que você entende que...
— Sim, naturalmente. Desculpe, senhor. É... melhor eu ir imediatamente.
O rosto de Rosemont estava completamente sem cor, e ele se retirou rapidamente, levando Ed Langan consigo.
Sir Geoffrey soltou um suspiro. "Malditos espiões, malditos bancos, malditos toupeiras e malditos socialistas idiotas, que não entendem nada de Hong Kong. " Olhou para o relógio. Hora de encerrar a festa.
Johnjohn entrou na ante-sala. Dunross estava perto do bar.
— Ian?
— Oh, alô! Quer a saideira? — perguntou Dunross.
— Não, obrigado. Posso lhe falar um instante em particular?
— Claro. Terá que ser rapidamente, estou de saída. Disse que deixaria os nossos simpáticos deputados nas balsas.
— Você também está de posse de um "bilhete rosa?" Dunross deu um leve sorriso.
— Na verdade, meu velho, estou de posse de um sempre que quero, quer Penn esteja aqui, quer não.
— É. Você tem sorte, sempre teve a vida bem organizada — falou Johnjohn, sombriamente.
— Joss.
— Eu sei. — Johnjohn foi na frente, até a varanda. — Que horrível o que houve com John Chen, não é?
— É. Phillip está sofrendo demais. Onde está Havergill?
— Saiu faz alguns minutos.
— Ah, foi por isso que você falou em "bilhete rosa"! Ele está farreando?
— Não sei.
— E quanto a Lily Su, de Kowloon? Johnjohn fitou-o.
— Ouvi dizer que Paul está apaixonado — continuou Dunross.
— Como é que você consegue saber tanta coisa? Dunross deu de ombros. Estava se sentindo cansado e inquieto. Fora difícil não perder a paciência várias vezes, naquela noite, cada vez que Grey se metia em outra discussão acalorada com alguns dos tai-pans.
— A propósito, Ian, tentei fazer com que Paul convocasse uma reunião de diretoria, mas isso não é da minha competência.
— Claro.
Estavam numa ante-sala menor. Boas pinturas em seda chinesa, lindos tapetes persas e prataria. Dunross notou que a tinta estava descascando nos cantos da sala e nas molduras do teto, e isso o ofendeu. "Esta é a sede do governo britânico, e não devia haver tinta descascando. "
O silêncio ficou pesado. Dunross fingiu examinar alguns dos exóticos vidros de rapé que estavam numa prateleira.
— Ian... — começou Johnjohn, e mudou de idéia. Começou de novo. — Isso é só entre nós. Conhece o Tiptop Toe muito bem, não é?
Dunross fitou-o. Tiptop Toe era o apelido que davam a Tip Tok-toh, um homem de meia-idade de Hunan, a província natal de Mao Tsé-tung, que chegara a Hong Kong durante o êxodo de 1950. Ninguém parecia saber nada a seu respeito. Ele não incomodava ninguém, tinha um pequeno escritório no Edifício Princes e vivia bem. Ao longo dos anos ficou evidente que tinha contatos muito particulares dentro do Banco da China, e passou-se a presumir que ele era o contato não-oficial oficial do banco. Ninguém conhecia a posição dele na hierarquia, mas corria o boato de que era muito alta. O Banco da China era o único braço comercial da RPC fora da China, portanto, todos os seus compromissos e contatos eram firmemente controlados pela hierarquia governante em Pequim.