— O que é que tem o Tiptop? — perguntou Dunross, fechando a guarda, pois simpatizava com Tiptop, um homem encantador, de fala mansa, que gostava de conhaque e falava um inglês excelente, embora, em obediência ao costume, quase sempre utilizasse os serviços de um intérprete. Suas roupas eram bem-talhadas, embora a maioria das vezes usasse um paletó maoísta, se parecesse um pouco com Chu En-lai e fosse tão sagaz quanto este. Na última vez que Dunross negociara com ele fora sobre alguns aviões civis que a RPC queria. Tip Tok-toh arranjara as letras de crédito e financiamento através de vários bancos suíços e estrangeiros, em vinte e quatro horas.
"O Tiptop é sagaz, Ian", dissera Alastair Struan muitas vezes. "Você tem que ficar de olho aberto, mas ele é o homem com quem se deve lidar. Eu diria que ocupa uma posição muito alta no partido, em Pequim. Muito. "
Dunross observava Johnjohn, disfarçando sua impaciência. O homem menor pegara um dos vidros de rapé. Os vidros eram minúsculos, de cerâmica, de jade ou de vidro puro... muitos deles lindamente pintados por dentro do vidro: paisagens, dançarinas, flores, pássaros, marinhas, até mesmo poemas numa caligrafia incrivelmente delicada.
— Como é que fazem isso, Ian? Pintar assim por dentro?
— Ah, usam um pincelzinho muito fino. O cabo do pincel fica num ângulo de noventa graus. Em mandarim dão-lhe o nome de li myan huai, "pintura na face interna".
Dunross segurou um vidro elíptico que tinha uma paisagem num dos lados, um buquê de camélias no outro, e caligrafia miudinha sobre as pinturas.
— Espantoso! Que paciência! O que está escrito? Dunross olhou para a coluna miúda de caracteres.
— Ah, é uma das máximas de Mao: "Conheça a si mesmo, conheça o seu inimigo; uma centena de batalhas, uma centena de vitórias". Na realidade, o presidente Mao copiou isso de Sun Tse.
Pensativo, Johnjohn examinou o vidro. As janelas às suas costas estavam abertas. Uma leve brisa torcia as cortinas.
— Quer falar com Tiptop por nós?
— Sobre quê?
— Queremos pedir emprestado o dinheiro do Banco da China.
— Hem? — exclamou Dunross, fitando-o, boquiaberto.
— É, por uma semana, mais ou menos. Eles estão cheios até a tampa de dólares de Hong Kong, e não há corrida ao banco deles. Chinês algum ousaria fazer fila diante do Banco da China. Eles têm dólares de Hong Kong como parte de suas operações cambiais no exterior. Pagaríamos bons juros pelo empréstimo, e daríamos a garantia de que precisassem.
— É um pedido formal do Victoria?
— Não. Não pode ser formal. A idéia é minha. Nem a discuti com Paul... só com você. Quer falar com ele?
A excitação de Dunross chegou ao auge.
— Vocês me darão o empréstimo de cem milhões amanhã às dez horas?
— Lamento, não posso fazer isso.
— Mas Havergill pode.
— Pode, mas não o fará.
— Então, por que eu deveria ajudar?
— Ian, se o banco não estiver tão sólido quanto o Pico, o mercado vai entrar em colapso, e a Casa Nobre também.
— Se eu não conseguir algum financiamento rapidinho, estou na merda, de qualquer maneira.
— Farei o que puder, mas quer falar logo com o Tiptop? Peça-lhe. Eu não posso procurá-lo... ninguém pode, oficialmente. Você estaria prestando um grande serviço à colônia.
— Garanta o meu empréstimo e falo com ele ainda hoje. Olho por olho, empréstimo por empréstimo.
— Se você conseguir dele a promessa de um crédito de meio bilhão em espécie até as duas da tarde de amanhã, arranjarei o apoio de que você precisa.
— Como?
— Não sei!
— Dê-me isso por escrito até as dez da manhã de amanhã, assinado por você, Havergill e a maioria da diretoria, e eu irei vê-lo.
— Não é possível.
— Que pena! Olho por olho, empréstimo por empréstimo.
— Dunross se levantou. — Por que o Banco da China deveria salvar a pele do Victoria?
— Somos Hong Kong — disse Johnjohn, com grande confiança. — Nós somos. Somos o Victoria Bank of Hong Kong and China! Somos velhos amigos da China. Sem nós nada existe... a colônia cairia aos pedaços, e a Struan também, com elas a maior parte da Ásia.
— Não aposte nisso!
— Sem os bancos, especialmente o nosso, a China estaria numa pior. Há anos que somos sócios da China.
— Então peça ao Tiptop você mesmo.
— Não posso. — O queixo de Johnjohn estava empinado.
— Sabia que o Banco Mercantil de Moscou pediu novamente licença para operar em Hong Kong?
Dunross soltou uma exclamação abafada.
— Se eles entrarem na jogada, vamos todos ficar atrapa-lhadíssimos!
— Ofereceram-nos, particularmente, uma quantidade substancial de dólares de Hong Kong, imediatamente.
— A diretoria vai votar contra.
— A questão, meu caro, é que se você já não fizer parte da diretoria, a nova diretoria pode fazer o que lhe der na telha
— disse Johnjohn, simplesmente. — Se a "nova" diretoria concordar, o governador e o escritório colonial podem ser facilmente persuadidos. Seria um preço pequeno a pagar... para salvar os nossos dólares. Tão logo um banco oficial soviético se instale aqui, que outras coisas poderiam aprontar, hem?
— Você é pior do que o maldito Havergill!
— Não, amigão, melhor! — O ar de pilhéria deixou o rosto do banqueiro. — Qualquer mudança maior, e nós nos tornamos a Casa Nobre, quer você queira, quer não. Muitos dos nossos diretores preferem vê-lo pelas costas, a qualquer preço. Estou apenas lhe pedindo um favor em benefício de Hong Kong, e portanto, de você mesmo. Não se esqueça, Ian, o Victoria não vai afundar. Vamos sair feridos, mas não arruinados. — Enxugou uma gota de suor. — Sem ameaças, Ian, estou lhe pedindo um favor. Algum dia, posso ser o presidente da junta diretora, e não vou esquecer.
— Haja o que houver.
— Exatamente, meu velho — disse Johnjohn, docemente, e foi até o aparador. — Que tal a saideira agora? Conhaque?
Robin Grey estava sentado no banco de trás do Rolls de Dunross com Hugh Guthrie e Julian Broadhurst. Dunross sentava-se à frente, ao lado do chofer uniformizado. As vidraças estavam embaçadas. Ociosamente, Grey procurou desemba-çá-las, apreciando o luxo do couro cheiroso.
"Logo vou ter um desses", pensou. "Um Rolls só meu. Com chofer. E em breve todos esses filhos da mãe vão estar rastejando, inclusive o maldito Ian Dunross. E Penn! Ah, é, a minha querida e meiga irmã vai assistir à humilhação dos poderosos. "
— Será que vai chover de novo? — perguntava Broadhurst.
— Vai — replicou Dunross. — Este temporal pode se transformar num tufão em alta escala... pelo menos é o que disse o Departamento de Meteorologia. Hoje recebi um informe do Eastern Cloud, um dos nossos cargueiros que está vindo para cá, e está próximo de Cingapura. Ele diz que o mar está agitado até por lá, bem ao sul.
— O tufão vai atingir Hong Kong, tai-pan? — perguntou Guthrie, o deputado liberal.
— Nunca se sabe. Eles podem vir direto para cima de você, depois se desviar no último minuto. Ou o contrário.
— Lembro-me de ter lido sobre o tufão Wanda, no ano passado. Foi uma barra, não?
— O pior que já vi. Mais de duzentos mortos, milhares de feridos, dezenas de milhares desabrigados. — Dunross estava com o braço no encosto, meio virado para trás. — O tai-fun, Ventos Supremos, atingiu uma velocidade de duzentos e setenta quilômetros por hora no Observatório Real, de trezentos em Tate's Cairn. O olho do furacão caiu sobre nós na maré alta. Portanto, em certos lugares, nossas marés ficaram a sete metros acima do normal.