— Céus!
— É. Em Sha Tin, nos Novos Territórios, as rajadas de vento sopraram o macaréu canal acima, destruíram o abrigo contra tempestade, empurraram os barcos de pesca uns oitocentos metros terra adentro, na rua principal, e afogaram a maior parte da aldeia. Um total de mil barcos de pesca desapa-
receram, oito cargueiros encalharam. Milhões de dólares em danos, a maioria das nossas favelas lançadas ao mar. — Dunross deu de ombros. — Uma pena! Mas, considerando a enormidade da tormenta, até que os danos marítimos foram incrivelmente pequenos. — Seus dedos tocaram o assento de couro. Grey notou o anel de ouro pesado e heliotrópio, com o timbre de Dunross. — Um tufão de verdade nos mostra como somos realmente insignificantes — falou Dunross.
— Pena não termos tufões diariamente — disse Grey, sem conseguir se conter. — Bem que podíamos ver os poderosos de Whitehall humilhados duas vezes ao dia.
— Você é realmente um chato, Robin — disse Guthrie.
— Tem sempre que fazer um comentário amargo?
Grey voltou a ficar macambúzio, e fechou os ouvidos à conversa dos outros. "Para o diabo todos eles!", pensou.
Logo o carro parou diante do Mandarim. Dunross saltou.
— O carro os levará para casa, para o Vic. Até sábado, se não nos virmos antes. Boa noite.
O carro se afastou. Rodeou o imenso hotel, depois dirigiu-se para a balsa que ficava ligeiramente a leste do Terminal da Balsa Dourada, na Connaught Road. No terminal, uma fila malfeita de carros e caminhões esperava. Grey saltou.
— Acho que vou esticar as pernas, voltar para o terminal e atravessar numa das barcas — disse, com simpatia forçada.
— Estou precisando de exercício. Boa noite.
Caminhou ao longo do cais da Connaught Road rapidamente, aliviado por ter se livrado deles com tanta facilidade. "Malditos idiotas", pensou, a excitação crescendo. "Bem, não vai demorar muito para que todos recebam o que merecem, principalmente Broadhurst. "
Quando teve certeza de que estava livre, parou sob um poste de luz, criando um remoinho no fluxo de pedestres que andavam, apressados, e fez sinal para um táxi.
— Tome — disse, e entregou ao motorista um endereço datilografado num pedaço de papel.
O motorista segurou-o, fitou-o, e coçou a cabeça, carrancudo.
— Está em chinês. Está em chinês no verso — disse Grey, para ajudar.
O motorista nem deu bola. Simplesmente fitou, com cara de bobo, o endereço em inglês. Grey estendeu a mão e virou o papel para que ele lesse.
— Olhe!
Prontamente o motorista virou outra vez o papel, com insolência, e olhou de novo para o endereço em inglês. Depois arrotou, engrenou o carro com um solavanco e se meteu no trânsito barulhento.
"Cachorrão grosseiro", pensou Grey, subitamente enraivecido.
O táxi mudava de marcha ruidosa e continuamente, ao entrar na cidade, andando por ruas de mão única e becos estreitos para voltar para a Connaught Road.
Finalmente, pararam diante de um prédio de apartamentos velho e sujo, numa rua suja. A calçada estava quebrada, era estreita e empoçada. Os veículos atrás deles buzinavam com impaciência para o carro parado. Grey não via número algum. Saltou, disse ao motorista para esperar e andou até o que parecia ser uma porta lateral. Havia um velho sentado numa cadeira surrada, fumando e lendo um jornal de corridas sob uma lâmpada nua.
— Aqui é a Kwan Yik Street, 68, Kennedy Town? — indagou Grey, educadamente.
O velho olhou para ele como se fosse um monstro do espaço, depois desandou a falar num cantonense rabugento.
— Kwan Yik Street, 68 — repetiu Grey, mais devagar e mais alto. — Ken-ned-dy Town?
Mais um fluxo de cantonense gutural e um aceno insolente na direção de uma portinha. O velho escarrou, cuspiu e voltou a ler o seu jornal com um bocejo.
— Filho da mãe cretino — murmurou Grey, com a raiva subindo à cabeça. Abriu a porta. Lá dentro viu um saguão pequenino e encardido, com a tinta descascando, uma fila des-conjuntada de caixas de correio com nomes. Com grande alívio, viu o nome que buscava.
Voltando para junto do táxi, abriu a carteira e olhou para o valor marcado no taxímetro cuidadosamente, duas vezes, antes de pagar ao homem.
O elevador era minúsculo, claustrofóbico, nojento, e rangia à medida que subia. No quarto andar ele saltou e apertou o botão do número 44. A porta se abriu.
— Sr. Grey, mas que honra! Molly, Sua Excelência chegou! — Sam Finn abriu um amplo sorriso ao vê-lo. Era natural de Yorkshire, grande, robusto, rosado, olhos azul-claros, ex-mineiro de carvão e representante sindical com amigos importantes no Partido Trabalhista e no Conselho dos Sindicatos. Tinha o rosto profundamente vincado e marcado, o pó de carvão entranhado nos poros. — Puxa vida, mas que prazer!
— Obrigado, sr. Finn. Para mim também é um prazer conhecê-lo. Ouvi muita coisa a seu respeito
Grey tirou a capa de chuva e aceitou agradecido uma cerveja.
— Sente-se.
O apartamento era pequeno, imaculadamente limpo, o mobiliário, barato. Cheirava a lingüiça frita, batata frita e pão frito. Molly Finn saiu da cozinha, as mãos e os braços vermelhos de anos de esfregar e lavar. Era baixinha e rotunda, da mesma cidade mineira, da mesma idade, sessenta e cinco anos, e forte como o marido.
— Ora essa — exclamou, calorosamente —, foi a maior surpresa que tivemos quando soubemos que o senhor viria nos visitar.
— Nossos amigos comuns queriam saber em primeira mão como vão indo vocês.
— Vamos indo muito bem. Muito bem mesmo — falou Finn. — Claro que não é como o nosso lar em Yorkshire, e sentimos falta dos nossos amigos e do sindicato, mas temos cama e um pouco de comida. — Ouviu-se o ruído de uma privada dando descarga. — Temos um amigo que achamos que gostaria de conhecer — disse Finn, sorrindo de novo.
— É?
— É — disse Finn.
A porta do banheiro se abriu. O barbudo grandão estendeu a mão, calorosamente.
— Sam já me falou muito do senhor, sr. Grey. Sou o comandante Grigóri Suslev, da marinha soviética. Meu navio é o Ivánov. Estamos fazendo pequenos reparos neste refúgio capitalista.
Grey apertou a mão dele, formalmente.
— Prazer em conhecê-lo.
— Temos alguns amigos comuns, sr. Grey.
— É?
— É, Zdenek Hanzolova, de Praga.
— Ah, mas claro! — Grey sorriu. — Conheci-o numa visita da Delegação Comercial Parlamentar à Tchecoslováquia, no ano passado.
— O que achou de Praga?
— Muito interessante. Muito. Mas não gostei da repressão... ou da presença soviética.
Suslev achou graça.
— Foram eles que nos convidaram. Gostamos de cuidar dos nossos amigos. Mas há muita coisa que eu também não aprovo. Lá, na Europa. Até mesmo na Mãe Rússia.
— Sentem-se, por favor. Sentem-se — disse Finn. Sentaram-se ao redor da mesa de jantar, na sala de estar que agora exibia uma toalha de mesa branca e limpa, sobre a qual havia um vaso de aspidistras.
— Naturalmente, o senhor sabe que não sou comunista, nem nunca fui — disse Grey. — Não aprovo um Estado policial. Estou totalmente convencido de que o nosso socialismo democrático britânico é o caminho do futuro. Parlamento, representantes eleitos, e tudo o que isso significa, embora muitas das idéias marxistas-leninistas tenham grande valor.
— Política! — exclamou Grigóri Suslev, reprovadora-mente. — Devemos deixar a política para os políticos.
— O sr. Grey é um dos nossos melhores porta-vozes no Parlamento, Grigóri. — Molly Finn virou-se para Grey. — Grigóri também é um bom sujeito, sr. Grey. Não é um desses safados. — Sorveu o seu chá. — Grigóri é um bom sujeito.
— É isso aí, garota — disse Finn.
— Não bom demais, espero — disse Grey, e todos acharam graça. — O que fez com que resolvesse residir aqui, Sam?