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— Quando nos aposentamos, Molly e eu, queríamos ver um bocado do mundo. Tínhamos posto de lado um pouco de dinheiro. Descontamos uma apólice de seguros que tínhamos e arrumamos vaga num cargueiro...

— Puxa, mas nos divertimos muito — interrompeu Molly Finn. — Estivemos em tantos lugares estrangeiros. Foi mesmo uma beleza. Mas, quando viemos para cá, Sam não estava se sentindo muito bem. Portanto, desembarcamos e ficamos esperando a volta do cargueiro.

— É isso aí, garota — disse Sam. — Então, conheci um sujeito muito simpático, e ele me ofereceu um emprego. — Abriu um sorriso e esfregou as marcas pretas no rosto. — Eu ia ser consultor de algumas minas das quais ele era o superintendente, num lugar chamado Formosa. Estivemos lá uma vez, mas não havia necessidade de ficar, por isso voltamos para cá. É só isso, sr. Grey. Ganhamos um dinheirinho, a cerveja é boa, por isso Molly e eu achamos melhor ficar. Nossos filhos estão todos crescidos... — Abriu outro sorriso, mostrando os dentes obviamente falsos. — Agora somos cidadãos de Hong Kong.

Bateram papo, amigavelmente. Grey teria sido completamente convencido pela história criada pelos Finns como "cobertura" se não tivesse lido o dossiê particular dele antes de sair de Londres. Muito pouca gente sabia que durante anos Finn havia sido membro do pcb, o Partido Comunista Britânico. Ao se aposentar, fora enviado para Hong Kong por um de seus comitês internos secretos. Sua missão era servir como fonte de informação sobre qualquer coisa relacionada com a burocracia e legislação de Hong Kong.

Dali a alguns minutos, Molly Finn abafou um bocejo.

— Puxa vida, como estou cansada! Se me derem licença, acho que vou para a cama

Sam falou:

— Pode ir, garota.

Conversaram mais um pouco sobre assuntos corriqueiros, depois também bocejou.

— Se me derem licença, acho que também vou dormir. — E acrescentou, apressadamente: — Podem ficar, conversem à vontade. Nós nos veremos antes que deixe Hong Kong, sr. Grey... Grigóri.

Apertou a mão deles e fechou a porta atrás de si. Suslev foi até o aparelho de tv e ligou-o, com uma risada.

— Já assistiu à televisão de Hong Kong? Os comerciais são gozadíssimos.

Ajustou o som numa altura suficiente para que pudessem conversar sem serem ouvidos.

— Todo o cuidado é pouco, hem?

— Trago-lhe saudações fraternas de Londres — disse Grey, a voz igualmente suave. Desde 1947 era um comunista atuante, porém ainda mais secretamente que Finn, sua identidade conhecida apenas por uma meia dúzia de pessoas na Inglaterra.

— E eu as retribuo. — Suslev indicou com o polegar a porta fechada. — O que eles sabem?

— Apenas que sou esquerdista e material em potencial para o partido.

— Excelente. — Suslev descontraiu-se. O Centro fora muito astuto em providenciar aquele encontro particular tão habilmente. Roger Crosse, que nada sabia de sua ligação com Grey, lhe contara que não havia espias do sei atrás dos deputados. — Estamos seguros aqui. O Sam é muito bom. Também recebemos cópias dos relatórios dele. E ele não faz perguntas. Vocês, britânicos, são muito reservados e eficientes, sr. Grey. Dou-lhe os parabéns.

— Obrigado.

— Como foi sua reunião em Pequim? Grey pegou uma pilha de papéis.

— Eis uma cópia dos nossos relatórios públicos e particulares para o Parlamento. Leia-os antes que eu me vá... vocês receberão o relatório completo através dos canais competentes. Em resumo, acho que os chineses são totalmente hostis e revisionistas. O maluco do Mao e seu capanga Chu En-lai são inimigos implacáveis do comunismo internacional. A China é fraca em tudo, exceto na vontade de lutar, e lutará até o fim para proteger sua terra. Quanto mais vocês esperarem, mais difícil será contê-los. Mas, enquanto não obtiverem armas nucleares e sistemas de lançamento de longo alcance, jamais serão uma ameaça.

— Sei. E quanto ao comércio? O que queriam?

— Indústrias pesadas, aparelhagem para destilação de petróleo sob pressão, equipamentos para extração do petróleo, laboratórios químicos, usinas de aço.

— E como vão pagar?

— Dizem que suas operações cambiais no exterior são significativas. Hong Kong tem um papel importante nisso.

— Pediram armamentos?

— Não. Não diretamente. São espertos, e não era sempre que nos falávamos ou nos encontrávamos em grupo. Foram avisados sobre mim e Broadhurst, e não éramos apreciados... nem confiavam em nós. Pode ser que tenham conversado em particular com Pennyworth ou outro dos conservadores... embora isso de nada lhes adiantasse. Soube que ele morreu?

— Soube.

— Menos mal. Era um inimigo. — Grey sorveu sua cerveja. — A China Vermelha quer armas, estou certo disso. Uma turma reticente e nojenta.

— Que tal é Julian Broadhurst?

— Um intelectual que se julga socialista. É o fim da picada, mas é útil, no momento. Aristocrático, fiel às tradições do seu colégio — debochou Grey. — Por causa disso, vai ser um homem forte no próximo governo trabalhista.

— Os trabalhistas vão vencer as próximas eleições, sr. Grey?

— Não, não creio, embora estejamos dando duro para ajudar os trabalhistas e os liberais.

Suslev franziu o cenho.

— Por que apoiar os liberais? São capitalistas. Grey deu uma risada sardônica,

— Não compreende o nosso sistema britânico, comandante Suslev. Temos muita sorte. Uma eleição de três partidos num sistema bipartidário. Os liberais dividem os votos, a nosso favor. É preciso encorajá-los. — Alegremente, acabou sua cerveja e pegou mais duas da geladeira. — Se não fosse pelos liberais, o Partido Trabalhista nunca teria ganho, nunca! E nunca poderia ganhar outra vez.

— Não estou entendendo.

— Na melhor das hipóteses, os votos dos trabalhistas correspondem a apenas quarenta e cinco por cento da população, um pouco menos. Os dos tories, o Partido Conservador, atingem a mesma proporção, geralmente um pouquinho mais. A maior parte dos dez por cento restantes votam nos liberais. Se não houvesse candidatos do Partido Liberal, a maioria votaria nos conservadores. São todos uns idiotas — falou, com ar complacente. — Os britânicos são burros, camarada, o Partido Liberal é o passaporte permanente dos trabalhistas para o poder... e, portanto, o nosso. Em breve o pcb controlará o Conselho Sindical, e deste modo, o Partido Trabalhista... secretamente, é claro. — Bebeu a cerveja em longos goles. — A grande maioria dos pobres ingleses são burros, a classe média é burra, a classe alta é burra... quase já deixou de ser um desafio. São todos uns lemingues. Pouquíssimos acreditam no socialismo democrático. Mesmo assim — acrescentou com grande satisfação —, derrubamos o seu império podre e mijamos em cima deles com a Operação Leão. — A Operação Leão fora formulada tão logo os bolcheviques obtiveram o poder. Seu propósito era a destruição do Império Britânico. — Em apenas dezoito anos, desde 1945, o maior império que o mundo já conheceu deixou de existir.

— Exceto por Hong Kong.

— Em breve também ela não existirá mais.

— Tenho prazer em lhe dizer que meus superiores consideram muito importante o seu trabalho — disse Suslev, com uma admiração declarada e fingida. — Seu e de todos os nossos irmãos britânicos fraternos.

Recebera ordens de tratar aquele homem com deferência, para descobrir tudo o que ele vira em sua missão chinesa, e passar adiante instruções como pedidos. E de adulá-lo. Lera os dossiês de Grey e dos Finns. Robin Grey tinha uma classificação Béria-KGB 4/22/a: "Um importante traidor britânico fin-gidamente devotado aos ideais marxistas-leninistas. Deve ser usado, mas sem que se confie nele jamais, e, caso o Partido Comunista Britânico suba ao poder, está sujeito à liquidação imediata".

Suslev observava Grey. Nem Grey nem os Finns conheciam seu verdadeiro posto. Sabiam apenas que era um membro de pouca importância do Partido Comunista de Vladivostok — o que também constava do seu dossiê do sei.