— Tem alguma informação para mim? — indagou Grey.
— Tenho, továrich. E, com a sua permissão, também algumas perguntas. Pediram-me que lhe perguntasse acerca da implementação da Diretriz 72/Praga,
Essa diretriz altamente secreta dava prioridade máxima à infiltração de peritos dedicados e secretos na função de representantes sindicais em todas as fábricas de automóveis dos Estados Unidos e do Ocidente. A indústria automobilística, devido às suas inúmeras indústrias afins, era o âmago de qualquer sociedade capitalista.
— Estamos indo a todo o vapor — disse Grey, entusiasticamente. — As greves não autorizadas são o caminho do futuro. Com essas greves, podemos driblar as hierarquias sindicais sem desintegrar o sindicalismo existente. Nossos sindicatos estão fragmentados. Deliberadamente. Cinqüenta homens podem formar um sindicato independente, e esse sindicato pode dominar milhares... e enquanto não houver voto secreto, a minoria sempre dominará a maioria! — Ele riu. — Já estamos com a programação adiantada, e agora temos irmãos fraternos no Canadá, na Nova Zelândia, Rodésia, Austrália... especialmente na Austrália. Dentro de alguns anos teremos agitadores treinados em cada sindicato-chave metalúrgico do mundo de língua inglesa. Um britânico liderará os operários sempre que houver uma greve... em Sydney, Vancouver, Johannesburg, Wellington. Será sempre um britânico!
— E o senhor é um dos líderes, továrich! Que maravilha!
— Suslev deixou que ele continuasse, dando-lhe corda, enojado por ser tão fácil adulá-lo. "Como os traidores são nojentos!", pensou. — Logo o senhor terá o paraíso democrático que procura, e haverá paz na terra.
— Não vai demorar muito — disse Grey, fervorosamente.
— Fizemos cortes nas forças armadas, e faremos cortes ainda maiores no ano que vem. A guerra acabou para sempre. A bomba conseguiu isso. O único obstáculo são os nojentos americanos, e sua corrida armamentista, mas logo os forçaremos a depor as armas, e todos seremos iguais.
— Sabia que os americanos estão armando secretamente os japoneses?
— Hem? — exclamou Grey, fitando-o.
— Ah, não sabia? — Suslev sabia muito bem que Grey passara três anos e meio em campos de prisioneiros de guerra japoneses. — Não sabia que uma missão militar americana está no país, oferecendo-lhes armas nucleares?
— Não teriam coragem!
— Mas tiveram, sr. Grey — disse Suslev, mentindo com facilidade. — Claro que é totalmente secreto.
— Pode me dar detalhes para usar no Parlamento?
— Bem, é claro que pedirei a meus superiores para fornecê-los, se acha que terão valor.
— Por favor, o mais breve possível... Bombas nucleares... Santo Deus!
— Seu pessoal, seus peritos treinados, também estão infiltrados nas usinas nucleares britânicas?
— Como? — Grey concentrou-se com esforço, desviando o pensamento do Japão. — Usinas nucleares?
— É. Seu pessoal está sendo utilizado lá também?
— Bem... não. Há apenas uma ou duas usinas no Reino Unido, e não são importantes. Os ianques estão mesmo armando os japoneses?
— O Japão não é capitalista? O Japão não é um protegido dos Estados Unidos? Não estão construindo também usinas nucleares? Se não fosse pelos Estados Unidos...
— Aqueles calhordas americanos! Graças a Deus vocês também têm as bombas, ou todos teríamos que rastejar!
— Talvez devam concentrar algum esforço nas usinas nucleares — disse Suslev, suavemente, impressionado por Grey ser tão crédulo.
— Por quê?
— Existe um novo estudo, feito por um conterrâneo seu, Philby.
— Philby? — Grey lembrava-se de como ficara chocado e assustado com a descoberta e a fuga de Philby, e do alívio que sentira quando Philby e os outros conseguiram escapar sem fornecer as listas do círculo interno do pcb, que obviamente deviam ter. — Como vai ele?
— Ao que me consta, muito bem. Está trabalhando em Moscou. Conhecia-o?
— Não. Ele era do Ministério do Exterior, das altas esferas. Nenhum de nós sabia que ele era um dos nossos.
— Ele ressalta no seu estudo que uma usina nuclear é auto-suficiente, que uma usina pode gerar combustível para si mesma e para outras. Uma vez instalada, é quase perpétua. Necessita apenas de uns poucos técnicos altamente preparados e especializados para operá-la, nada de trabalhadores, ao contrário do petróleo ou do carvão. No momento, todas as indústrias do Ocidente dependem do carvão ou do petróleo. Ele sugere que seja nossa política encorajar o uso do petróleo, não do carvão, e desencorajar completamente a força nuclear. Entendeu?
— Ah, entendi! — A fisionomia de Grey ficou mais dura. — Vou fazer parte do comitê parlamentar para estudo da energia atômica.
— E isso será fácil?
— Fácil demais, camarada! Os ingleses são uma cambada de preguiçosos. Não querem problemas. Só querem trabalhar o mínimo possível, pelo máximo de dinheiro possível, ir aos bares e ao futebol aos sábados... e nada de trabalho voluntário, nada de comitês aborrecidos depois do expediente, nada de discussão. É fácil demais... quando se tem um plano, e eles não.
Suslev soltou um suspiro, muito satisfeito, seu trabalho quase encerrado.
— Outra cerveja? Não, deixe que eu pego. É uma honra para mim, sr. Grey. O senhor por acaso conhece um escritor que está aqui no momento, um cidadão americano, Peter Marlowe?
Grey levou um susto.
— Marlowe? Conheço-o muito bem, mas não sabia que era cidadão americano. Por quê?
Suslev disfarçou seu interesse e deu de ombros.
— Pediram-me que lhe perguntasse, já que o senhor é inglês, e ele era originariamente inglês.
— Ele é um calhorda nojento da classe alta, com a moralidade de um mascate. Há anos que não o vejo, desde 45, até que apareceu aqui. Também esteve em Changi. Só ontem fiquei sabendo que era escritor, ou um desses roteiristas de cinema. O que há de tão importante nele?
— É um escritor — disse Suslev, prontamente. — Faz filmes, Com a televisão, os escritores podem atingir milhões de pessoas. O Centro se mantém a par das atividades dos escritores ocidentais, por uma questão de orientação política. Ah, sim, sabemos como são importantes os escritores na Mãe Rússia. Nossos escritores sempre nos indicaram o caminho, sr. Grey. Formaram nossos pensamentos e sentimentos, Tolstói, Dos-toiévski, Tchékhov, Bunin... — Acrescentou, com orgulho: — Os escritores são nossos batedores. É por isso que, atualmente, precisamos orientá-los em sua formação e controlar o seu trabalho, ou enterrá-lo. — Olhou para Grey. — Vocês deveriam fazer o mesmo.
— Nós apoiamos os escritores simpatizantes, comandante, e infernizamos o outro tipo como podemos, seja pública ou particularmente. Quando chegar a casa, vou pôr Marlowe na nossa lista negra do pcb nos meios de comunicação. Será fácil causar-lhe algum prejuízo... temos muitos amigos nos meios de comunicação.
— Já leu o livro dele? — indagou Suslev, acendendo um cigarro.
— O tal sobre Changi? Não, não li. Nunca ouvira falar nele até chegar aqui. Provavelmente não foi publicado na Inglaterra. Além disso, não tenho muito tempo para ler ficção. E se foi ele quem o escreveu, deve ser uma merda de livro de "gente bem", e mal escrito, e... bem, Changi é Changi, e é melhor esquecê-la. — Um arrepio o percorreu, e ele nem o notou. — É, melhor esquecê-la.
"Mas não posso", tinha vontade de gritar. "Não posso esquecer, e ainda é um pesadelo sem fim, aqueles dias no campo, ano após ano, dezenas de milhares morrendo, tentando fazer cumprir a lei, tentando proteger os fracos contra os nojentos do mercado negro, que se aproveitavam dos fracos, todo mundo morrendo de fome, e sem esperança de jamais sair dali, meu corpo apodrecendo, e eu com apenas vinte e um anos, sem mulheres, risos, comida ou bebida, vinte e um anos quando fui preso em Cingapura, em 1942, e vinte e quatro, quase vinte e cinco, quando o milagre aconteceu e sobrevivi, voltando à Inglaterra... minha casa não existia mais, meus pais não existiam mais, o mundo não existia mais, e minha única irmã, vendida aos inimigos, agora falava como eles, comia como eles, vivia como eles, estava casada com um deles, envergonhada do nosso passado, querendo que o passado tivesse morrido, que eu tivesse morrido, ninguém se importava comigo, e... oh, Deus, a mudança. Voltar para a vida depois da ausência de vida de Changi, todos os pesadelos e a insônia à noite, morto de medo da vida, sem conseguir falar no assunto, chorando sem saber por quê, tentando me adaptar ao que os idiotas chamavam de normalidade. E finalmente me adaptando. Mas a que preço, ah, meu Deus, a que preço...