"Pare com isso!"
Com esforço, Grey desprendeu-se da espiral descendente de Changi.
"Chega de Changi! Changi está morta! Deixe que continue morta. Está morta... Changi tem que ficar enterrada. Mas Changi... "
— O que foi? — disse, trazido de volta ao presente.
— Estava dizendo que seu governo atual está completamente vulnerável.
— É? Por quê?
— Lembra-se do escândalo Profumo? Do seu ministro da Guerra?
— Claro. Por quê?
— Faz alguns meses, a MI-5 começou uma investigação secreta e minuciosa da pretensa ligação entre a call girl agora famosa, Christine Keeler, e o comandante Ievguêni Ivánov, nosso adido naval, e outras figuras sociais londrinas.
— Ela já acabou? — indagou Grey, subitamente muito atento.
— Já. Documenta conversas que a mulher teve com o comandante Ivánov. Ele lhe pedira para descobrir com Profumo quando armas nucleares seriam entregues à Alemanha. A investigação afirma — disse Suslev, agora mentindo deliberadamente para excitar Grey — que Profumo fora avisado pela MI-5 sobre Ivánov alguns meses antes de o escândalo estourar... que o comandante Ivánov era do KGB e também amante dela.
— Santo Deus! E o comandante Ivánov corroborará isso?
— Ah, não, de forma alguma. Isso não seria correto... nem necessário. Mas o relatório da MI-5 apresenta os fatos com exatidão — mentiu Suslev, habilmente. — O relatório é verdadeiro!
Grey soltou uma risada alta.
— Puxa vida, mas isso vai derrubar a supremacia do governo e promover uma eleição geral!
— E os trabalhistas vão ganhar o poder!
— É! Durante cinco anos maravilhosos! Ah, é, e uma vez tendo ganho... oh, meu Deus! — Grey soltou outra risada estrondosa. — Primeiro ele mentiu sobre a Keeler! E agora o senhor diz que ele sabia do Ivánov o tempo todo! Ah, puta que o pariu, isso vai causar a derrubada do governo! Isso vai valer todos os anos de comer merda daqueles cretinos da classe média. Tem certeza? — perguntou, com repentina ansiedade.
— É mesmo verdade?
— E eu lhe mentiria? — exclamou Suslev, rindo intimamente.
— Vou me utilizar disso. Por Deus, vou me utilizar disso.
— Grey estava doido de alegria. — Tem certeza absoluta? Mas, e o Ivánov? O que aconteceu com ele?
— Uma promoção, é claro, por uma manobra brilhantemente executada para desacreditar um governo inimigo. Se o trabalho dele ajudar a derrubá-lo, será condecorado. No momento, está em Moscou, esperando ser designado para nova missão. A propósito, em sua entrevista coletiva de amanhã, pretende mencionar o seu cunhado?
Grey fechou a guarda, prontamente.
— Como soube disso?
Suslev devolveu-lhe o olhar, calmamente.
— Meus superiores sabem de tudo. Pediram-me que lhe sugerisse mencionar seu parentesco na entrevista coletiva, sr. Grey.
— Por quê?
— Para realçar sua posição, sr. Grey. Uma associação tão íntima com o tai-pan da Casa Nobre daria muito maior peso às suas palavras aqui. Não é?
— Mas se sabem a respeito dele — disse Grey, a voz
dura —, sabem também a respeito de mim e de minha irmã, que temos um acordo de não tocar no parentesco. É um assunto de família.
— Assuntos de Estado têm precedência sobre assuntos de família, sr. Grey.
— Quem é o senhor? — Grey estava repentinamente desconfiado. — Quem é, na realidade?
— Só um mensageiro, sr. Grey, na realidade. — Suslev colocou as manoplas nos ombros de Grey, calorosamente. — Továrich, sabe que precisamos usar tudo em nosso poder para fortalecer a causa. Estou certo de que meus superiores estavam apenas pensando no seu futuro. Uma ligação familiar tão íntima com tal família capitalista ajudá-lo-ia muito no Parlamento. Não é? Quando o senhor e seu Partido Trabalhista vencerem no ano que vem, precisarão de homens e mulheres bem relacionados, hem? A nível ministerial, é preciso ter-se relações. O senhor mesmo disse isso. O senhor será o perito em Hong Kong, com ligações especiais. Poderá nos ajudar enormemente a conter a China, a conduzi-la de volta ao caminho certo, e a pôr Hong Kong e todo o povo de Hong Kong no seu lugar... no esgoto. Certo?
Grey pensou nisso, o coração disparado.
— Será possível aniquilar Hong Kong?
— Oh, sim — sorriu Suslev. O sorriso tornou-se mais amplo. — Não precisa se preocupar. Não partirá do senhor palavra alguma sobre o tai-pan, não faltará ao compromisso com sua irmã. Posso dar um jeito para que lhe façam uma pergunta. Que tal?
54
23h05m
Dunross esperava por Brian Kwok no Quance Bar, do Mandarim, bebericando um conhaque com Perrier. O bar era exclusivo para homens e estava quase vazio. Brian Kwok nunca se atrasara antes, mas agora estava atrasado.
"É a coisa mais fácil do mundo surgir uma emergência no serviço dele", pensou Dunross, sem se preocupar. "Vou esperar mais uns minutinhos. "
Naquele dia, Dunross não se incomodava de ter de esperar. Tinha tempo de sobra para chegar a Aberdeen e encontrar Wu Quatro Dedos, e, como Penn estava a caminho da Inglaterra, não havia pressão para voltar para casa.
"A viagem lhe fará bem", pensou. "Londres, teatros, depois o Castelo Avisyard. Lá será formidável. Logo será o outono, as manhãs ficarão frias, o hálito das pessoas, visível, começará a temporada dos tetrazes, e depois virá o Natal. Será fantástico passar o Natal em casa, com neve. O que esse Natal nos trará, e no que estarei pensando ao recordar esta época, esta época ruim? Há problemas demais, agora. O plano funcionando, mas já entrando areia, tudo fora de controle, do meu controle. Bartlett, Casey, Gornt, Quatro Dedos, Mata, Pão-Duro, Havergill, Johnjohn, Kirk, Crosse, Sinders, Alan M. Grant, a sua Riko, todos mariposas ao redor da chama... e agora uma nova, Tiptop, e Hiro Toda, que chega amanhã, ao invés de sábado. "
À tarde, conversara longamente com seu amigo japonês e sócio armador. Toda fizera perguntas sobre o mercado de capitais e sobre a Struan, não diretamente, à moda inglesa, mas oblíqua e polidamente, à moda japonesa. Mesmo assim, fizera perguntas. Dunross percebera a gravidade na voz suave e com leve sotaque americano, produto de dois anos de pós-graduação em Harvard.
— Vai dar tudo certo, Hiro — dissera-lhe Dunross. — É um ataque temporário. Vamos receber os navios, conforme o planejado.
"Vamos mesmo?
"Vamos. De um jeito ou de outro. Linbar vai para Sydney amanhã, tentar ressuscitar o negócio da Woolara e renegociar a fretagem. Uma tentativa a esmo. "
Inexoravelmente, sua mente se voltava para Jacques. "Será que Jacques é realmente um traidor comunista? E Jason Plumm e Tuke? Quem será R. ? Roger Crosse ou Robert Armstrong? Mas é claro que nenhum dos dois, e é claro que Jacques também não é! Pelo amor de Deus, conheço Jacques por quase a vida inteira... conheço os De Villes por quase toda a vida. É verdade que Jacques podia ter dado ao Bartlett algumas informações sobre o nosso funcionamento interno, mas não todas. Não a parte da companhia, de conhecimento apenas dos tai-pans. O que significa Alastair, papai, eu ou o velho Sir Ross, e isso é inconcebível.