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"É.

"Mas alguém é traidor, e não sou eu. E, depois, há a Sevrin. "

Dunross olhou ao redor. O bar ainda estava praticamente vazio. Era uma sala pequena, agradável, confortável, com cadeiras de couro verde-escuro e velhas mesas de carvalho encerado, as paredes cheias de telas de Quance. Eram todas cópias. Muitos dos originais estavam na Galeria Longa da Casa Grande, a maioria dos restantes nos corredores do Victoria e do Blacs. Alguns faziam parte de coleções particulares. Recostou-se confortavelmente, satisfeito por estar cercado por uma parte tão grande do seu passado, sentindo-se protegido por ele. Logo acima de sua cabeça havia o retrato de uma barqueira haklo com um garoto louro nos braços, os cabelos dela trançados. Dizia-se que Quance o pintara como presente de aniversário para Dirk Struan, encomendado pela moça do quadro, May-may T'Chung, e presumia-se que o garoto nos braços dela fosse o filho deles, Duncan.

Seus olhos dirigiram-se para o outro lado da sala, fitando os retratos de Dirk e de seu meio irmão Robb, ao lado de outro retrato do mercador americano, Jeff Cooper, e paisagens do Pico e da praia, em 1841. "Imagino o que Dirk diria se pudesse ver agora a sua criação. Florescendo, construindo, incorporando, ainda o centro do mundo, o mundo asiático, que é o único mundo. "

— Quer mais um, tai-pan?

— Não, obrigado, Feng — disse ao barman chinês. — Só uma Perrier, por favor.

Havia um telefone próximo. Ele discou.

— Quartel-general da polícia — atendeu uma voz feminina.

— Superintendente Kwok, por favor.

— Um momento, senhor.

Enquanto esperava, Dunross tentou decidir o que fazer com Jacques. "Impossível", pensou, angustiado, "não sem ajuda. Se eu o mandar à França buscar Susanne e Avril, isso o deixará isolado por cerca de uma semana. Talvez eu fale com o Sinders, talvez eles já saibam. Santo Deus, se Alan não tivesse colocado a letra R na carta, eu teria me dirigido diretamente ao Crosse. Será possível que ele seja o Arthur?

"Lembre-se de Philby, do Ministério das Relações Exteriores", disse com seus botões, revoltado com o fato de que um inglês com aqueles antecedentes e num tal cargo de confiança pudesse ser um traidor. Do mesmo modo os outros dois, Burgess e Maclean. E Blake. Até onde era possível acreditar em Alan? Pobre coitado. Até onde era possível confiar em Jamie Kirk?

— Por favor, quem quer falar com o superintendente Kwok? — perguntou uma voz de homem ao telefone.

— O sr. Dunross, da Struan.

— Um momentinho, por favor.

Uma pequena espera, depois uma voz masculina que reconheceu imediatamente.

— Boa noite, tai-pan. É Robert Armstrong... desculpe, mas o Brian não está aqui. É alguma coisa importante?

— Não. Tínhamos marcado um encontro para tomar um drinque, e ele está atrasado.

— Ah, ele nem mencionou o encontro... geralmente é muito correto nessas coisas. Quando foi que o marcaram?

— Hoje de manhã. Ele me ligou para falar sobre John Chen. Alguma novidade sobre aqueles filhos da mãe?

— Não. Lamento. Brian teve que sair da cidade... uma viagem às pressas, sabe como é.

— Mas claro. Se falar com ele, diga-lhe que o verei no domingo, na subida do morro, se não antes.

— Ainda pretende ir a Formosa?

— Pretendo. Com Bartlett. Vou domingo, volto na terça. Parece que poderemos usar o avião dele.

— É. Por favor, certifique-se de que ele volte na terça.

— Se não voltar antes.

— Quer alguma coisa de mim?

— Não; obrigado, Robert.

— Tai-pan, nós... bem... tivemos um outro encontro muito perturbador, aqui em Hong Kong. Não precisa se preocupar, mas cuide-se até o encontro de amanhã com o Sinders, certo?

— Claro. Brian disse a mesma coisa. E Roger também. Obrigado, Robert. Boa noite.

Dunross desligou. Tinha esquecido que um guarda-costas do sei o estava seguindo. "O sujeito deve ser melhor do que os outros. Nem o notei. Bem, o que vou fazer com ele? Sem dúvida não será bem-vindo com o Quatro Dedos. "

— Volto daqui a um instante — falou.

— Sim, tai-pan — disse o barman.

Dunross dirigiu-se para o banheiro dos homens, observando sem observar. Ninguém o seguiu. Quando saiu do banheiro, entrou no mezanino lotado e barulhento, atravessou-o e desceu a escadaria principal até o saguão, onde foi comprar o jornal vespertino na banca de jornais. Havia gente por toda parte. Ao voltar, deparou com um chinês magro e de óculos, que o observava por cima de uma revista, sentado numa cadeira do saguão. Dunross hesitou, voltou para o saguão e notou que os olhos o acompanhavam. Satisfeito, subiu de novo as escadas lotadas.

— Oh, alô, Marlowe — exclamou, quase colidindo com ele.

— Oh, alô, tai-pan.

Dunross notou imediatamente o grande cansaço na fisionomia do outro.

— O que aconteceu? — perguntou instantaneamente, pressentindo problemas e afastando-se do caminho das outras pessoas.

— Ora, nada... nada mesmo.

— Aconteceu alguma coisa — disse Dunross, com um sorriso suave.

Peter Marlowe hesitou.

— É, é a Fleur — disse, contando o que se passara. Dunross ficou imensamente preocupado.

— O velho Tooley é um bom médico, o que já é uma grande coisa. — Contou a Marlowe como Tooley os enchera, a ele, Bartlett e Casey, de antibióticos. — Está se sentindo bem?

— Estou. Só um pouco desarranjado. Não há com que me preocupar, por cerca de um mês. — Peter Marlowe contou-lhe o que Tooley dissera sobre a hepatite. — Isso não me preocupa, é a Fleur e o bebê que estão me preocupando.

— Vocês têm uma amah?

— Temos, e o hotel é maravilhoso. Todos os criados de quarto estão dando uma mão.

— Tem tempo para tomar alguma coisa?

— Não, não, obrigado, é melhor eu voltar. A amah não... não há lugar para ela ficar, portanto está só olhando as crianças. Preciso dar uma passada na casa de saúde, no caminho, só para ver como vão as coisas.

— Está bem, então fica para outra vez. Por favor, dê lembranças minhas à sua mulher. E como vão indo as pesquisas?

— Bem, obrigado.

— Que outros segredos tenebrosos conseguiu arrancar dos nossos yan de Hong Kong?

— Muitos. Mas são todos simpáticos. — Peter Marlowe deu um débil sorriso. — Dirk Struan era um homem e tanto! Todos dizem que você também é, e todos esperam que você derrote Gornt, que vença de novo.

Dunross olhou para ele, satisfeito.

— Incomoda-se de que lhe façam perguntas sobre Changi? — indagou, e viu uma sombra passar pelo rosto sofrido, jovem e velho ao mesmo tempo.

— Depende.

— Robin Grey disse que você negociava com o mercado negro no campo. Com um americano. Um cabo.

Houve uma longa pausa, e o rosto de Peter Marlowe não se alterou.

— Eu era um comerciante, sr. Dunross, ou melhor, um intérprete para o meu amigo, que era comerciante. Ele era um cabo americano. Salvou minha vida e a vida dos meus amigos. Nós éramos quatro, um major, um capitão, um seringalista e eu. Salvou dúzias de outros também. O nome dele era King, e era mesmo um rei, rei de Changi, de certo modo. — Novamente, o débil sorriso. — Comerciar era contra a lei dos japoneses... e a lei do campo.

— Você disse "japoneses", e não "amarelos". É interessante — disse Dunross, prontamente. — Depois de todos aqueles horrores em Changi, não os detesta?

Depois de uma pausa, Peter Marlowe sacudiu a cabeça.

— Não detesto ninguém. Nem mesmo Grey. Uso toda a minha concentração e energia para apreciar o fato de estar vivo. Boa noite — falou, virando-se para ir embora.

— Escute, Marlowe, mais uma coisinha — disse Dunross depressa, tomando uma decisão. — Gostaria de ir às corridas no sábado? Na minha tribuna? Haverá gente interessante... já que está pesquisando sobre Hong Kong, é melhor fazê-lo numa boa, hem?

— Obrigado. Muito obrigado, Donald McBride já me convidou. Mas gostaria de dar uma passada Iá para tomar um drinque, se puder. E o livro?