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— É, suponho que foi o que quis dizer — disse, cauteloso.

— A resposta é não, e sim. — Ela manteve o sorriso suave, a voz meiga. — Como a maioria das coisas na Ásia, Linc. Nada é realmente sim ou não. É sempre talvez. Depende da disponibilidade da moça. Depende do homem, do dinheiro, e da quantia que ela deve. — O sorriso dela era malicioso. — Pode ser que eu lhe indique a direção certa, mas aí você iria aprontar, sem dúvida... porque fascina todas as moças bonitas, um homem grande e forte como você, heya?

— Qual é, Orlanda! — riu ele, enquanto ela imitava o sotaque cule.

— Vi que você reparou nela. Não o culpo, é linda — disse, invejando a juventude da pequena, mas não a sua vida.

— O que quis dizer com dívidas?

— Quando uma moça vem trabalhar aqui pela primeira vez, tem que parecer bonita. As roupas são caras, os cabeleireiros são caros, meias, maquilagem, tudo é caro. Assim, a mama-san, a mulher que cuida das garotas, ou o dono da boate, adianta à garota o dinheiro necessário para comprar tudo de que precisa. Claro que no começo todas elas são jovens e frívolas, frescas como as primeiras rosas do verão. Portanto, compram e compram, e depois têm que pagar o empréstimo. A maioria não tem nada quando começa, exceto o seu corpo... a não ser que já tenha trabalhado em outro clube, e tenha os seus fãs. As meninas mudam de clube, Linc, naturalmente, tão logo acabam de pagar as dívidas. Às vezes um proprietário paga as dívidas de uma moça para adquiri-la, e aos seus fãs... muitas são populares e muito requisitadas. Uma moça pode ganhar bastante, se souber dançar, conversar e falar vários idiomas.

— Quer dizer que suas dívidas são grandes?

— Perpétuas. Quanto mais continuam no ramo, mais difícil torna-se manter-se bonita. Portanto, as despesas são maiores. Os juros sobre as dívidas são de vinte por cento, no mínimo. Nos primeiros meses, a moça pode ganhar o suficiente para pagar grande parte da dívida, mas nunca o bastante. — Uma sombra toldou-lhe o rosto. — Os juros se acumulam, as dívidas se acumulam. Nem todos os patrocinadores são pacientes, portanto a moça tem que recorrer a outras formas de financiamento. Às vezes tem que pedir emprestado aos agiotas para pagar ao financiador original. Inevitavelmente, busca ajuda. Então, certa noite, a mama-san aponta um homem. "Ele quer comprar o seu tempo", diz ela. E...

— Como assim, comprar o seu tempo?

— Ah, é só um costume das boates daqui. Todas as moças têm que estar aqui pontualmente às oito, digamos, quando o clube abre. Arrumadas, impecáveis. Têm que ficar até a uma da manhã, ou serão multadas; serão multadas também se faltarem, se chegarem atrasadas, se não estiverem arrumadas, impecáveis, se não forem amáveis com os clientes. Se um homem quer sair sozinho com uma garota, para jantar ou seja Iá o que for — e muitos fregueses levam as garotas apenas para jantar fora, muitos levam até mesmo duas garotas, principalmente para impressionar os amigos —, ele compra o tempo da garota, paga uma taxa ao clube. A quantia depende de quanto tempo falta para o clube fechar. Não sei quanto ela recebe dessa taxa, acho que são trinta por cento, mas o que conseguir fora do clube é todo seu, a não ser que a mama-san negocie por ela, antes de sair. Aí, a casa recebe uma taxa.

— Sempre uma taxa?

— É uma questão de prestígio, Linc. Neste lugar, que é um dos melhores, comprar o tempo de uma garota lhe custaria uns oitenta HK por hora, cerca de dezesseis dólares americanos.

— Não é muito — falou, distraidamente.

— Não muito para um milionário, meu caro. Mas, para milhares aqui, oitenta HK têm que bastar para uma família por uma semana.

Bartlett a fitava, fazendo-se perguntas sobre ela, desejando-a, feliz por não ter que comprar o tempo dela. "Porra, mas isso seria terrível. Seria mesmo?", perguntou-se. "Pelo menos, seriam alguns cobres, depois uma trepada, e fim de papo. É isso o que quero?"

— O que foi? — perguntou ela.

— Só estava pensando que vida desgraçada têm essas meninas.

— Ah, não, não é nada desgraçada — disse ela, com a imensa inocência que ele achava devastadora. — Esta é provavelmente a melhor época na vida delas, certamente a primeira vez na vida que usam roupas bonitas, são aduladas ou requisitadas. Que outro tipo de emprego podem conseguir, sendo moças sem grande instrução? De secretária, se tiverem sorte. Caso contrário, numa fábrica, doze a catorze horas de trabalho por dez HK ao dia. Você devia ir visitar uma delas, Linc, ver as condições. Eu o levo. Precisa ver como as pessoas trabalham, assim nos compreenderá melhor. Adoraria ser sua guia. Agora que vai ficar, deve saber de tudo, Linc, conhecer tudo. Ah, não, elas se acham afortunadas. Pelo menos por um curto tempo de vida vivem bem, comem bem e riem um bocado.

— Nada de lágrimas?

— Sempre lágrimas. Mas as lágrimas são um meio de vida, para uma garota.

— Não para você.

Ela soltou um suspiro e pousou a mão no braço dele.

— Já tive a minha cota. Mas você faz com que eu esqueça todas as lágrimas que chorei. — Uma súbita explosão de risos fez com que erguessem os olhos. Os quatro empresários japoneses estavam rodeados por seis garotas, a mesa cheia de bebidas. — Sinto-me muito feliz por não ter que... servir aos japoneses — disse ela, simplesmente. — Abençôo minha sorte por isso. Mas eles são os que mais gastam, Linc, muito mais do que quaisquer outros turistas. Gastam até mais do que os xangaienses, portanto obtêm o melhor serviço, embora sejam odiados e saibam disso. Não parecem se importar que sua prodigalidade consiga comprar-lhes apenas falsidades. Talvez saibam disso, são espertos, muito espertos. Sem dúvida têm uma atitude diferente quanto a ir para a cama, e quanto às Damas da Noite, uma atitude diferente da das outras pessoas. — Outra explosão de risos. — Os chineses os chamam de lang syin gou fei, que, em mandarim, quer dizer literalmente "coração de lobo, pulmões de cachorro". Quer dizer, homens sem consciência.

— Isso não tem sentido — comentou ele, franzindo o cenho.

— Ah, tem, sim! É que os chineses cozinham e comem todas as partes do peixe, aves ou outro animal, exceto o coração do lobo e os pulmões do cachorro. São as duas únicas coisas que não se pode temperar... sempre fedem, não importa o que se faça com elas. — Ela voltou a olhar para a outra mesa. — Para os chineses, os japoneses são lang syin gou fei. O dinheiro também. O dinheiro também não tem consciência. — Deu um sorriso estranho e bebericou o seu licor. — Hoje em dia, muitas mama-sans e donos de clubes emprestam dinheiro às moças para aprenderem japonês. Para entreter, é preciso comunicar-se, não é?

Outro grupo de garotas passou por eles, e ela notou que olhavam para Bartlett, depois para ela, com ar especulador, e afastavam o olhar. Orlanda sabia que a desprezavam porque era eurasiana, e estava com um cliente quai loh. Foram fazer companhia aos homens de outra mesa. O clube começava a ficar cheio.

— Qual delas você quer? — perguntou Orlanda.

— Como?

Ela riu do choque dele.

— Ora, qual é, Linc Bartlett! Pensa que não notei os seus olhares? É...

— Pare com isso, Orlanda! — disse ele, constrangido, uma ponta de irritação na voz. — Neste lugar é impossível não notá-las.

— Claro, foi por isso que o sugeri — replicou imediatamente, forçando-se a manter o sorriso firme, as reações muito rápidas. Tocou-o novamente, a mão macia sobre o joelho dele. — Escolhi este lugar para que você pudesse deleitar os olhos. — Estalou os dedos. Instantaneamente o maitre apareceu, ajoelhando-se educadamente ao lado da mesinha baixa. — Dê-me seu cartão — falou imperiosamente em xangaiense, quase doente de apreensão, mas disfarçando-a perfeitamente.

Imediatamente o homem entregou o que parecia ser um programa de teatro.

— Deixe sua lanterna comigo. Chamo quando precisar.