"Deixe pra Iá! Tudo está saindo às mil maravilhas. Tudo está preparado para amanhã, para a chegada do tal Sinders. " Um arrepio involuntário percorreu Suslev. "Não gostaria de ser aprisionado por eles. A MI-6 é perigosa, dedica-se fanaticamente a nos combater, assim como a CIA, porém é muito pior. Se o plano da CIA e da MI-6, codinome Anúbis, para unir o Japão, a China, a Inglaterra, o Canadá e os Estados Unidos, vier a se realizar, a Mãe Rússia será destruída para sempre. Ah, meu país, meu país! Que falta sinto da Geórgia, tão linda, suave e verdejante!"
As canções da sua infância, as canções folclóricas da Geórgia, vieram à sua mente, levaram-no ao passado. Enxugou uma pequena lágrima ao pensar em tanta beleza, tão distante. "Não faz mal, minha licença não vai demorar. Aí, irei para casa. E meu filho também estará em casa de licença, na mesma época, vindo de Washington, com sua jovem mulher e o filhinho, tão sabiamente nascido nos Estados Unidos. Não haverá problemas com passaportes para ele. Será a nossa quarta geração a servir. Progredimos. "
A escuridão começava a envolvê-lo. A pedido de Arthur, para maior segurança, havia cerrado as cortinas e mantido as janelas fechadas, embora não houvesse possibilidade de serem vistos. O apartamento tinha ar-condicionado, mas também por medida de segurança pediram-lhe que o deixasse desligado, assim como as luzes. Fora sensato sair do apartamento de Finn antes de Grey, para o caso de ter havido alguma mudança de plano, e haver um agente do sei a segui-lo. Crosse lhe dissera que nessa noite não haveria nenhum, embora no dia seguinte outro homem fosse ser destacado para acompanhá-lo.
Tomara um táxi e parara no Terminal da Balsa Dourada para comprar os jornais da noite, fingindo cambalear de bêbado, para o caso de estar sendo observado. Depois fora para o Rose Court, para a casa de Clinker. Então descera o túnel e chegara até ali. Havia um homem do sei de guarda diante do Rose Court. O homem ainda estava Iá, e ficaria Iá, ou não ficaria. Não fazia diferença.
O telefone tocou. O ruído sobressaltou-o, embora a campainha fosse cuidadosamente abafada. Três toques, depois o silêncio. Seu coração bateu mais rápido. Dali a pouco Arthur chegaria.
Tocou a automática oculta atrás de uma das almofadas. Ordens do Centro. Era uma das muitas ordens que desaprovava. Suslev não gostava de armas, de pistolas ou revólveres. Podiam falhar. O veneno, não. Seus dedos tocaram o frasco minúsculo enterrado na sua lapela, perto o bastante para que sua boca o alcançasse. Como seria viver sem a morte instantânea tão próxima?
Deliberadamente, relaxou e concentrou seus sentidos como um radar, querendo pressentir a presença de Arthur antes que ele realmente estivesse ali. Arthur usaria a porta da frente ou a dos fundos?
De onde estava sentado, podia ver as duas portas. Ficou de ouvido atento, a boca ligeiramente aberta para aumentar a sua sensibilidade. O rangido do elevador. Correu os olhos para a porta da frente, mas o rangido cessou vários andares abaixo. Esperou. A porta dos fundos se abriu antes que pudesse pressentir coisa alguma. Suas entranhas se revolveram, quando não reconheceu a figura escura. Por um momento, ficou paralisado. Depois, a figura endireitou um dos ombros, e a leve corcunda desapareceu.
— Khristos! — murmurou Suslev. — Que susto me deu!
— Faz parte do serviço, meu velho. — As palavras, em tom baixo e ligeiro, eram misturadas com a tosse seca e fingida.
— Está sozinho?
— Claro!
O vulto moveu-se silenciosamente e entrou na sala. Suslev viu que ele guardava a sua automática e relaxou a pressão no cabo da sua, mas ainda a manteve escondida. Levantou-se e estendeu a mão, calorosamente.
— Pelo menos desta vez chegou na hora. Apertaram-se as mãos. Jason Plumm não tirou as luvas.
— Por pouco não chegava — disse, na sua voz normal, o sorriso apenas à superfície do rosto.
— O que houve? — perguntou o russo, percebendo o tipo de sorriso. — E por que toda essa história de "cerre as cortinas e mantenha as janelas fechadas"?
— Acho que podem estar vigiando este lugar.
— Como? — A inquietação de Suslev aumentou vertiginosamente. — Por que não falou nisso antes?
— Disse que acho que podem estar. Não tenho certeza. Tivemos um bocado de trabalho para fazer disto aqui um local seguro, e não quero que seja "estourado" por qualquer motivo.
— A voz do inglês alto estava áspera e irritada. — Escute, camarada, aconteceu o diabo. O sei pegou um tripulante do seu navio. Ele...
— O quê? — exclamou Suslev, fitando-o com um choque fingido.
— Metkin. Parece que é o comissário político...
— Mas isso é impossível — disse Suslev, a voz trêmula, representando magistralmente, ocultando a alegria por Metkin ter caído na sua armadilha. — Metkin jamais iria em pessoa pegar um material!
— Mesmo assim, está nas mãos do sei! O Armstrong o pegou, juntamente com um americano do porta-aviões. Pegaram-nos com a mão na massa. O Metkin sabe a respeito da Sevrin?
— Não, de forma alguma.
— Tem certeza?
— Tenho. Nem mesmo eu sabia, até alguns dias atrás, quando o Centro mandou que assumisse o lugar de Voranski — falou Suslev, a mentira retorcida fluindo com naturalidade.
— Tem certeza? O Roger quase teve um troço! Parece que o Metkin é o seu comissário político, e um major do KGB. É?
— É, mas é ridículo...
— Por que cargas-d'água ele, ou você, ou alguém não nos contou que tinham uma operação em andamento, para estarmos preparados para uma eventualidade? Sou o chefe da Sevrin, e agora vocês estão operando aqui sem ligações comigo, sem me manter a par das coisas. Sempre foi o nosso acordo. Voranski sempre nos avisava com antecedência.
— Mas, camarada — disse Suslev, apaziguadoramente —, eu não estava sabendo de nenhum material a ser apanhado. Metkin faz o que quer. Ele é o chefe, o mais antigo no navio. Eu não estou a par de tudo... você sabe disso! — Suslev estava adequadamente apaziguador e irritado, mantendo a sua "cobertura" habitual de não ser o verdadeiro árbitro da Sevrin. — Não posso imaginar o que deu no Metkin para ir apanhar um material pessoalmente. Cretino! Devia estar maluco! Graças a Deus é um homem dedicado, e há veneno em sua lapela, por isso não há...
— Pegaram-no intacto.
Suslev soltou uma exclamação abafada, agora realmente chocado. Esperava que Metkin estivesse morto há muito tempo.
— Tem certeza?
— Pegaram-no intacto. Conseguiram seu nome verdadeiro, posto e número de série, e neste momento está num avião-transporte da raf, sob forte guarda, a caminho de Londres.
Suslev teve um branco, de repente. Astuciosamente, fizera com que Metkin tomasse o lugar do agente que devia ter ido se encontrar com o americano. Há meses que vinha achando Metkin extremamente crítico, abelhudo e, portanto, perigoso. Por três vezes, no ano anterior, interceptara relatórios particulares para o Centro, escritos pelo seu número 2, criticando o modo displicente com que dirigia o seu navio e o seu serviço, e sua ligação com Ginny Fu. Suslev estava certo de que Metkin preparava uma armadilha para ele, quem sabe até tentando garantir sua aposentadoria para a Criméia — um local privilegiado — por meio de um golpe, como, por exemplo, murmurar para o Centro que suspeitava da existência de um "vazamento" da segurança a bordo do Ivánov, e que devia ser Suslev.
Suslev estremeceu. Nem Metkin, nem o Centro, nem qualquer dos outros necessitaria de provas, a simples suspeita seria o seu fim.
— Não há dúvida de que Metkin está vivo? — perguntou, analisando esse novo problema.
— Não. Está absolutamente certo de que ele não sabe nada sobre a Sevrin?