— Estou, estou, já lhe disse. — A voz de Suslev estava mais cortante. — Você é o único que conhece todos os membros da Sevrin, certo? Até mesmo Crosse não os conhece todos, não é?
— É.
Plumm foi até a geladeira e pegou uma garrafa de água. Suslev serviu-se de vodca, feliz de que a Sevrin tivesse tantas válvulas de segurança importantes: Plumm não sabia que Roger Crosse era informante do KGB... Crosse era o único que conhecia a verdadeira posição de Suslev na Ásia, mas nem Crosse nem Plumm sabiam de sua associação antiga com De Ville... nenhum dos outros membros se conhecia... e nenhum deles tinha ciência de Banastasio e das armas, ou da verdadeira extensão da arremetida soviética no Extremo Oriente.
Engrenagens dentro de engrenagens dentro de engrenagens, e agora Metkin, uma das engrenagens defeituosas, desaparecido para sempre. Fora tão fácil dar a "deixa" para Metkin, dizer-lhe que a aquisição do manifesto de carga dos armamentos do porta-aviões garantiria promoção para o agente envolvido.
— Estou surpreso de que o tenham pegado com vida — falou, com sinceridade.
— Roger me contou que agarraram o pobre sacana pelos braços e botaram-lhe uma coleira antes que pudesse enfiar os dentes na lapela.
— Acharam alguma prova nele?
— Roger não contou. Teve que trabalhar com toda a rapidez. Achamos que a melhor coisa a fazer era arrancar Metkin de Hong Kong o mais depressa possível. Estávamos apavorados de que soubesse a nosso respeito, sendo tão graduado. Será mais fácil lidar com ele em Londres — disse Plumm, a voz solene.
— Crosse resolverá o problema de Metkin.
— Talvez — replicou Plumm, inquieto, tomando mais um pouco de água.
— Como foi que o sei ficou sabendo que iam pegar o material? — indagou Suslev, querendo descobrir o quanto Plumm sabia. — Deve haver um traidor a bordo do meu navio.
— Não. Roger disse que o "vazamento" veio através de um delator que a MI-6 tem a bordo do porta-aviões. Nem mesmo a CIA sabia disso.
— Khristos! Porra, por que Roger tem que ser tão eficiente?
— Foi o Armstrong. O sei tem verificações e controles. Mas, contanto que o Metkin nada saiba, tudo bem!
Suslev sentiu que o inglês o observava atentamente. Manteve a fisionomia inocente. Plumm não era nenhum tolo. Era um sujeito forte, astuto, implacável, protegido de Philby, e secretamente escolhido por ele.
— Estou certo de que Metkin nada sabe que possa nos prejudicar. Mesmo assim, o Centro deve ser informado imediatamente. Podem cuidar disso.
— Já o fiz. Pedi ajuda. Prioridade Um.
— Ótimo — falou Suslev. — Agiu muito bem, camarada. Você e o Crosse. Aliciar Crosse para a causa foi um golpe de mestre. Deixe que lhe dê novamente os parabéns.
Suslev estava sendo sincero no elogio. Roger Crosse era um profissional, e não um amador como Plumm e todos os outros da Sevrin.
— Talvez eu o tenha aliciado, talvez ele me tenha aliciado. Às vezes não tenho muita certeza — disse Plumm, pensativo. — Ou quanto a você, camarada. Voranski eu conhecia. Tratamos de negócios durante anos. Mas você... você é algo novo, não experimentado.
— É. Deve ser muito difícil para você.
— Não parece estar muito abalado com a perda de seu superior.
— Não estou. Devo confessar que não estou. Metkin foi maluco de se meter em tal perigo. Contrariou totalmente as ordens. Para ser franco... acho que estava havendo "vazamentos" de segurança no Ivánov. Metkin era o único membro antigo da tripulação, além de Voranski, que tinha acesso à terra. Era considerado acima de qualquer suspeita, mas nunca se sabe. Quem sabe cometeu outros erros, língua solta num bar, ou coisa assim?
— Deus nos proteja dos tolos e dos traidores. Onde foi que o Alan obteve as suas informações?
— Não sabemos. Logo que soubermos, o "vazamento" será consertado.
— Você vai ser o substituto permanente do Voranski?
— Não sei. Não me disseram nada.
— Não gosto de mudanças. As mudanças são perigosas. Quem o matou?
— Pergunte ao Crosse. Também quero saber. — Suslev também observava Plumm. Viu o outro balançar a cabeça, aparentemente satisfeito. — E quanto ao Sinders e aos relatórios do Alan? — perguntou.
— Roger já tem tudo coberto. Não há com que se preocupar. Ele tem certeza de que poderemos vê-los. Você receberá a sua cópia amanhã. — Plumm observou-o, de novo. — E se os nossos nomes estiverem nos relatórios?
— Impossível! Dunross teria contado ao Roger imediatamente... ou a um dos seus amigos na polícia, provavelmente o Lig-lig-lé Kwok — disse Suslev, num tom de deboche. — Se não a ele, ao governador. Automaticamente, chegaria aos ouvidos de Roger. Estão todos seguros.
— Talvez sim, talvez não. — Plumm foi à janela e olhou para o céu sombrio. — Nada nunca está seguro. Veja só o Jacques. Agora é um risco. Jamais chegará a tai-pan.
Suslev permitiu-se um franzir de cenho, e depois, como se fosse uma idéia repentina, disse:
— Por que não orientá-lo para que saia de Hong Kong? Sugira ao Jacques que peça para ser mandado para... digamos para a Struan no Canadá. Poderia usar sua tragédia recente como desculpa. Lá no Canadá estará num local mais afastado, e ficará marcando passo. Que tal?
— Muito boa idéia. É, isso seria fácil. Ele tem diversos bons contatos ali, que podem ser úteis. — Plumm sacudiu a cabeça. — Ficarei muito mais contente depois que tivermos lido aquelas pastas, e mais contente ainda quando você descobrir como foi que o Alan chegou até nós.
— Chegou até a Sevrin, não até vocês. Não os descobriu. Escute, camarada, asseguro-lhe de que estão a salvo para continuar o seu trabalho vital. Por favor, continuem a fazer todo o possível para agitar a crise bancária e o colapso do mercado de capitais.
— Não precisa se preocupar. Todos estamos querendo que isso aconteça.
O telefone deu sinal de vida. Os dois homens o fitaram. Tocou uma única vez. Um toque. O código, "perigo", veio-lhes imediatamente à cabeça. Horrorizado, Suslev agarrou o revólver escondido, lembrando-se de que suas digitais estavam nele, enquanto se arremessou cozinha adentro na direção da porta dos fundos, Plumm colado aos seus calcanhares. Escancarou a porta, deixando Plumm sair primeiro para o patamar. Nesse momento, ouviu-se o bater de pés que se aproximavam, e um impacto contra a porta da frente do apartamento, que agüentou, mas cedeu ligeiramente. Suslev fechou a porta de trás silenciosamente, encaixando uma trave de segurança. Outro impacto. Ele espiou por uma fresta. Outro impacto. As fechaduras da porta cederam. Por um instante, viu as silhuetas de quatro homens contra a luz do corredor, depois fugiu. Plumm já tinha descido as escadas, dava-lhe cobertura no patamar seguinte, a automática na mão. Suslev desceu os degraus de três em três, passando por ele, até o patamar seguinte, depois virou-se para dar cobertura ao outro, por sua vez. Acima dele a porta dos fundos curvava-se de modo nauseante. Silenciosamente, Plumm passou por ele e voltou a dar-lhe cobertura enquanto desciam para o patamar seguinte. Então, Plumm afastou alguns caixotes que camuflavam a falsa porta de saída junto da principal. Passos ruidosos vinham subindo em sua direção. Outro impacto contra a porta dos fundos, acima. Suslev ficou de guarda enquanto Plumm se esgueirava pela abertura para a escuridão, depois seguiu-o, fechando a porta parcialmente atrás de si. Plumm já pegara a lanterna elétrica escondida. Os passos se aproximavam. Cautelosamente, Plumm foi descendo na frente, os dois homens movendo-se rápida e silenciosamente. Os passos e o som de vozes abafadas passaram por eles. Os dois homens pararam momentaneamente, tentanto ouvir o que se dizia. Mas o som era indistinto e abafado demais. Não era possível perceber se falavam inglês ou chinês.
Plumm virou-se de novo e foi na frente, descendo as escadas, ambos apressados mas extremamente cautelosos, não querendo fazer nenhum ruído desnecessário. Logo chegaram à saída secreta. Sem hesitar, os dois homens levantaram o fundo falso e desceram para a umidade fresca da galeria de escoamento. Tão logo chegaram ali, em segurança, pararam para recobrar o fôlego, o coração disparado com o inesperado da coisa.