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— Obrigado.

Na mesa laqueada havia chá fresco, uísque e copos, conhaque e água engarrafada. Dunross olhou ao seu redor, atentamente. A cabine era arrumada e iluminada por pequenas lâmpadas, limpa, agradável e espaçosa. Um pequeno rádio tocava boa música. "Esta deve ser a nau capitania do Dente de Ouro", pensou, divertido, e muito desconfiado.

Não havia necessidade de perguntar aonde Dente de Ouro o estava levando. Serviu-se de um pouco de conhaque, adicionando soda. Não havia gelo. Ele nunca usava gelo, na Ásia.

— Pombas — murmurou repentinamente, lembrando-se do que Peter Marlowe dissera sobre a possibilidade de hepatite infecciosa. Umas cinqüenta ou sessenta pessoas estavam com esse perigo pendendo sobre suas cabeças agora, quer soubessem ou não. Gornt era uma delas. "É, mas o sacana é forte como um cutelo de carne. Nem sequer teve um desarranjozinho. O que devo fazer quanto a ele? Qual será a solução permanente?"

Estava fresco e agradável na cabine, meio aberta à brisa, o céu escuro. Um junco enorme passou por eles, o motor roncando, e ele se recostou, curtindo as tensões que sentia, a expectativa. O coração batia firme. Saboreou o conhaque, calmamente, exercitando a paciência.

O lado da sampana roçou noutra. Ficou de ouvido atento. Pés descalços subiram a bordo. Dois pares de pés, um deles ágil, o outro não.

— Salve, tai-pan! — cumprimentou Quatro Dedos, abrindo o seu sorriso sem dentes. Entrou sob o toldo e sentou-se. — Como vai, bem? — perguntou, num inglês pavoroso.

— Bem, e você? — respondeu Dunross, fitando-o e tentando disfarçar o espanto. Wu Quatro Dedos vestia um bom terno, camisa branca limpa, gravata espalhafatosa e usava sapatos e meias. A última vez que Dunross o vira daquele jeito fora na noite do incêndio, e antes disso, uma única vez, há anos, na imensa festa de casamento de Shitee T'Chung.

Mais passos se aproximaram. Desajeitadamente, Paul Choy se sentou.

— Boa noite, senhor. Sou Paul Choy.

— Como vai? — perguntou, sentindo um grande desconforto e apreensão.

— Bem, senhor, obrigado. Dunross franziu o cenho.

— Bem, é um prazer — falou, pondo de lado a preocupação. — Está trabalhando para o seu tio, agora? — perguntou, sabendo toda a verdade sobre Paul Choy, mas continuando o fingimento combinado com Quatro Dedos, e muito impressionado com o rapaz. Soubera do golpe que ele dera na Bolsa, através de seu velho amigo Soorjani.

— Não, senhor. Estou na Rothwell-Gornt. Comecei faz uns dois dias. Estou aqui para servir de intérprete... se o senhor precisar.

Paul Choy virou-se para o pai e explicou o que fora dito. Quatro Dedos balançou a cabeça.

— Conhaquiii?

— Está ótimo, obrigado. — Dunross ergueu o copo. — Prazer em vê-lo, heya — continuou, em inglês, esperando que o velho começasse em haklo. Era uma questão de prestígio, e, com a presença de Paul Choy, a cautela latente de Dunross aumentara mil vezes.

O velho marujo conversou fiado por algum tempo, tomando uísque. Nenhuma bebida foi oferecida a Paul Choy, e nem ele se serviu. Ficou sentado nas sombras, escutando, assustado, sem saber o que esperar. O pai fizera com que jurasse segredo perpétuo, com juramentos de sangue de arrepiar os cabelos.

Finalmente, Wu desistiu de enervar o tai-pan e começou a falar em haklo.

— Há muitos anos que nossas famílias são Velhas Amigas — disse, falando lenta e cuidadosamente, ciente de que o haklo de Dunross não era perfeito. — Muitos e muitos anos.

— É. Os Wu Marítimos e a Struan como irmãos — replicou o tai-pan, cautelosamente.

Quatro Dedos soltou um resmungo.

— O presente é como o passado, e o passado, o presente. Heya?

— O Velho Cego Tung diz que o passado e o presente o mesmo. Heya?

— O que o nome Wu Kwok significa para o tai-pan da Casa Nobre?

Dunross sentiu um nó no estômago.

— Ele seu bisavô, heya? Seu ilustre antepassado. Filho e almirante do ainda mais ilustre senhor da guerra dos mares, Wu Fang Choi, cuja bandeira, a Lótus Prateada, tremulou em todos os quatro mares.

— Esse mesmo! — Quatro Dedos debruçou-se para a frente, e Dunross dobrou sua cautela. — Qual era a ligação entre o Demônio de Olhos Verdes... entre o primeiro tai-pan da Casa Nobre e o ilustre Wu Kwok?

— Conheceram-se no mar. Encontraram-se no estuário do rio Pearl, perto de Wh...

— Foi perto daqui, perto de Pok Liu Chau, entre Pok Liu Chau e Aplichau.

Os olhos do velho eram como fendas em seu rosto.

— Depois, encontraram-se perto de Hong Kong. O tai-pan subiu a bordo da nau capitania de Wu Kwok. Foi sozinho e... — Dunross buscou a palavra — e negociou um acordo com ele.

— O acordo foi escrito num papel e carimbado?

— Não.

— O acordo foi cumprido?

— É uma porra duma falta de educação fazer tal pergunta a Velho Amigo, quando outro Velho Amigo sabe resposta!

Paul Choy teve um sobressalto involuntário ao súbito veneno e tom cortante das palavras. Nenhum dos homens prestou-lhe atenção.

— É verdade, é verdade, tai-pan — disse o velho, tão destemido quanto Dunross. — É, o acordo foi cumprido, embora torcido. Parte dele foi torcida. Conhece o acordo?

— Não, todo não — disse Dunross, sem mentir. — Por quê?

— O acordo dizia que, em cada um dos seus vinte veleiros, poríamos um homem para ser treinado como capitão... meu avô era um deles. Depois, o Demônio de Olhos Verdes concordou em pegar três dos rapazes de Wu Kwok e mandá-los para a sua terra, para treiná-los como demônios estrangeiros nas melhores escolas, como seriam treinados os seus próprios filhos. Depois, o tai...

— Como? Quem? Quem são esses rapazes? Quem vieram a ser? — perguntou Dunross, olhos arregalados.

Wu Quatro Dedos apenas deu um sorriso torto.

— A seguir, o Demônio de Olhos Verdes concordou em arranjar para o ilustre Wu Fang Choi um veleiro dos demônios estrangeiros, armado, equipado, e lindo. Wu Fang Choi pagou pelo navio, e o tai-pan o providenciou, e chamou-o de Lotus Cloud. Mas, quando Culum, o Fraco, o entregou, quase dois anos mais tarde, o desgraçado do seu almirante, Stride Orlov, o Corcunda, surgiu do leste como um assassino dentro da noite e assassinou o nosso navio, e Wu Kwok com ele.

Dunross sorvia o seu conhaque, esperando, aparentemente tranqüilo, intimamente chocadíssimo. Quem poderiam ser os tais rapazes? Aquilo realmente fazia parte do acordo? Não havia nada no diário ou testamento de Dirk sobre os filhos de Wu Kwok. Nada. Quem po...

— Heya?

— Sei tudo sobre o Lotus Cloud. E sobre os homens, os capitães. Acho que eram dezenove, e não vinte veleiros. Mas nada sei sobre os três rapazes. Quanto ao Lotus Cloud, meu ancestral prometeu não lutar contra navio, depois de dar navio?

— Não. Ah, não, tai-pan, isso ele não prometeu. O Demônio de Olhos Verdes era esperto, muito esperto. A morte de Wu Kwok? Joss. Todos temos que morrer. Joss. Não, o Demônio de Olhos Verdes cumpriu o seu acordo. Culum, o Fraco, também. Você o cumprirá?

Wu Quatro Dedos abriu a mão. Dentro dela estava a meia moeda.

Dunross segurou-a com cuidado, o coração doendo no peito. Os dois o fitavam como cobras, e ele pôde sentir a força de seus olhares. Seus dedos tremiam imperceptivelmente. Era como as outras meias moedas que ainda estavam na bíblia de Dirk, no cofre da Casa Grande, duas ainda ali, duas já desaparecidas, resgatadas, uma delas a de Wu Kwok. Lutando para controlar o tremor dos dedos, devolveu a moeda. Wu a pegou, sem ligar para o tremor da própria mão.

— Talvez verdadeira — disse Dunross, a voz soando estranha. — Preciso verificar. Onde conseguiu?

— É genuína, claro que é genuína, porra! Admite que é genuína?

— Não. Onde conseguiu?

Quatro Dedos acendeu um cigarro e tossiu. Pigarreou e cuspiu.

— Quantas moedas havia, para começar? Quantas o ilustre mandarim Jin-qua deu ao Demônio de Olhos Verdes?