— Não tenho certeza.
— Quatro. Eram quatro.
— Ah, uma para o seu ilustre ancestral, Wu Kwok, paga e resgatada. Por que o grande Jin-qua lhe daria duas? Impossível... esta roubada. De quem?
O velho enrubesceu, e Dunross perguntou-se se teria ido longe demais.
— Roubada ou não — cuspiu o velho —, você concede favor. Heya? — Dunross apenas olhou-o fixamente. — Heya? Ou a dignidade do Demônio de Olhos Verdes não é mais a dignidade da Casa Nobre?
— Onde conseguiu?
Wu fitou-o. Apagou o cigarro no tapete.
— Por que o Demônio de Olhos Verdes concordaria com quatro moedas? Por quê? E por que juraria pelos deuses que ele e todos os seus herdeiros honrariam a palavra dele, heya?
— Por um outro favor.
— Ah, tai-pan, é, por um favor. Sabe que favor? Dunross devolveu-lhe o olhar.
— O Honorável Jin-qua emprestou ao tai-pan, meu trisavô, quarenta laques de prata.
— Quarenta laques... quatro milhões de dólares. Há cento e vinte anos. — O velho soltou um suspiro. Seus olhos se estreitaram ainda mais. Paul Choy estava imóvel, mal respirava. — Pediu um documento? Um papel de dívida carimbado pelo seu ilustre ancestral... ou o carimbo da Casa Nobre?
— Não.
— Quarenta laques de prata. Nem papel nem carimbo, só confiança! O acordo foi apenas um acordo entre Velhos Amigos, sem carimbo, só confiança, heya?
— É.
A mão sem polegar do velho subiu com a palma para cima e segurou a meia moeda sob o rosto de Dunross.
— Uma moeda concede favor. A quem quer que peça. Eu peço.
Dunross soltou um suspiro. Finalmente, rompeu o silêncio.
— Primeiro, encaixo uma metade na outra. Depois, vejo bem se metal daqui igual a metal de Iá. Depois, você diz favor.
Já ia pegar a moeda, mas o punho se cerrou e se afastou, e Quatro Dedos fez um sinal com o polegar que tinha para Paul Choy.
— Explique.
— Com licença, tai-pan — disse Paul Choy em inglês, bem pouco à vontade, detestando o ar abafado e as correntes diabólicas da cabine, tudo por causa de uma promessa feita há doze décadas por um pirata a outro, os dois um bom par de assassinos, se metade das histórias eram verdadeiras. — Meu tio quer que eu lhe explique como quer agir. — Tentou manter a voz serena. — Claro que ele compreende que o senhor tem reservas e quer estar mil por cento certo. Ao mesmo tempo, ele não quer abrir mão da posse da moeda, não agora. Até que se tenha certeza, de uma forma ou de outra, prefere...
— Está querendo dizer que ele não confia em mim?
Paul Choy crispou-se ante a violência das palavras.
— Oh, não é isso, senhor — falou, depressa, e traduziu o que Dunross dissera.
— Claro que confio em você — disse Wu, com um sorriso torto. — Mas você confia em mim?
— Ah, sim, Velho Amigo, confio muito. Entregue-me moeda. Se real, eu, tai-pan da Casa Nobre, concederei o que pedir... se possível.
— O que for pedido, o que for, será concedido! — explodiu o velho.
— Se possível. É. Se moeda real, concedo favor. Se não real, devolvo moeda. Acabado.
— Não acabado. — Wu fez um gesto para Paul Choy. — Você acaba, depressa.
— Meu... meu tio sugere a seguinte acomodação: o senhor fica com isso. — O rapaz apanhou um pedaço chato de cera de abelha. Havia nele três impressões separadas da meia moeda. — O senhor poderá encaixar a outra metade nelas. As beiradas são nítidas o bastante para poder ter certeza, quase certeza. Esse é o primeiro passo. Se estiver razoavelmente satisfeito, iremos juntos a um avaliador do governo, ou ao curador de um museu, e mandaremos que teste as duas moedas na nossa frente. Assim, ambos saberemos a um só tempo. — Paul Choy pingava de suor. — É isso o que o meu tio deseja.
— Um dos lados poderia facilmente subornar o avaliador.
— Claro. Mas antes de irmos falar com ele, misturaremos as duas metades. Conheceríamos a nossa, o senhor conheceria a sua... mas ele não, certo?
— Dar-se-ia um jeito.
— Claro. Mas se... se fizermos isso amanhã, e se Wu Sang lhe der a sua palavra, e o senhor lhe der a sua palavra, de não tentar nada, daria certo. — O rapaz enxugou o suor do rosto. — Puxa, mas como está abafado aqui!
Dunross pensou por um momento. Depois, voltou os olhos frios para Quatro Dedos.
— Ontem eu pedi favor, você disse não.
— Aquele favor era diferente, tai-pan — replicou prontamente o velho, a língua dardejando como a de uma cobra. — Não era a mesma coisa que uma promessa antiga cobrando uma dívida antiga.
— Perguntou a seus amigos sobre meu pedido, heya? Wu acendeu outro cigarro. Sua voz tornou-se mais cortante.
— Sim. Meus amigos estão preocupados com a Casa Nobre.
— Sem Casa Nobre, nada de nobre favor, heya?
O silêncio ficou mais denso. Dunross viu os olhos velhos e astutos dardejarem para Paul Choy, e depois de volta para ele. Sabia que estava preso pela moeda. Teria que pagar. Se fosse genuína, teria que pagar, quer fosse roubada ou não. "Roubada de quem?", berravam seus pensamentos. "Quem aqui teria uma delas?" Dirk Struan nunca soubera a quem as outras haviam sido dadas. No seu testamento, escrevera que suspeitava que uma tivesse sido dada à sua amante, May-may, mas não havia motivo para tal presente por parte de Jin-qua. Se May-may a tivesse possuído, raciocinou Dunross, então teria passado de geração em geração até Shitee T'Chung, que era o atual chefe da linhagem T'Chung, a linhagem de May-may. Talvez tivesse sido roubada dele.
"Quem mais em Hong Kong?
"Se o tai-pan ou a Bruxa não sabiam a resposta para isso, muito menos eu. Não há ligação de família que remonte a Jin-qua!"
No pesado silêncio, Dunross observava e esperava. Outra gota de suor escorreu do queixo de Paul Choy enquanto olhava para o pai, depois voltava o olhar para a mesa. Dunross sentiu ódio nele, e aquilo o interessou. Então, notou que Wu olhava para Paul Choy de maneira estranha e avaliadora. Instantaneamente, seu pensamento deu um salto à frente.
— Sou o árbitro de Hong Kong — disse em inglês. — Apóie-me e dentro de uma semana poderá ter lucros imensos.
— Heya?
Dunross observava Paul Choy. Viu quando ele ergueu o olhar, espantado.
— Por favor, traduza, sr. Choy — falou.
Paul Choy obedeceu. Dunross soltou um suspiro, satisfeito. Paul Choy deixara de traduzir "sou o árbitro de Hong Kong". Novo silêncio. Ele se descontraiu, agora mais tranqüilo, sentindo que os dois homens haviam engolido a isca.
— Tai-pan, a minha sugestão sobre a moeda, concorda? — perguntou o velho.
— Sobre o meu pedido, meu pedido de dinheiro de apoio, concorda?
Wu exclamou, irado:
— As duas coisas não estão interligadas como a chuva numa tempestade fornicadora. Sim ou não quanto à moeda?
— Concordo quanto à moeda. Mas não amanhã. Semana que vem. Quinto dia.
— Amanhã.
Paul Choy se interpôs, cuidadosamente:
— Honrado Tio, talvez possa pedir de novo a seus amigos amanhã. Na parte da manhã. Talvez possam ajudar o tai-pan. — Seus olhos argutos viraram-se para Dunross. — Amanhã é sexta-feira — disse, em inglês. — Que tal na segunda às... às quatro da tarde, para a moeda?
Repetiu em haklo.
— Por que a essa hora? — perguntou Wu, irritado.
— O mercado de dinheiro dos demônios estrangeiros fecha na terceira hora da tarde, Honrado Tio. A essa altura, a Casa Nobre será nobre, ou não.
— Sempre seremos a Casa Nobre, sr. Choy — disse Dunross, cortesmente, em inglês, impressionado com a habilidade do sujeito... e a argúcia com que entendera a indireta. — Concordo.
— Heya?
Depois que Paul Choy acabou, o velho soltou um resmungo.
— Primeiro, vou verificar os fluxos de Céu e Terra para ver se o dia é auspicioso. Se for, então concordo. — Fez um sinal com o polegar para Paul Choy. — Vá para o outro barco.
Paul Choy se levantou.