— Ah, não, Pai! O Honorável Vermelho está me visitando, e por mais que eu...
— Hem? — exclamou o Banqueiro Kwang, desconfiado. — O Honorável Vermelho não é esperado antes de depois de amanhã!
— Ah, não, ele chegou subitamente...
— Como? Ele só é esperado para depois de amanhã. Eu sei. Olhei no meu calendário e me certifiquei, antes de vir para cá! Sou algum idiota? Vou pescar um tigre num riacho? Temos um encontro marcado para hoje, para durar a noite toda. Senão, por que a desculpa de eu estar em Formosa? Você nunca se adianta, e nunca...
— Ah, mas foi hoje de manhã... o choque do incêndio, e o choque ainda maior de que você tinha me abandonado fez com que...
— Venha aqui, sua safadinha...
— Ah, não, Pai, o Honorável Vermelho...
Antes que ela pudesse se desviar, ele a agarrou e voltou a sentá-la nos joelhos. Começou a levantar-lhe a saia, mas Vênus
Poon era macaca velha nesse tipo de guerra, campeã de centenas de torneios, embora tivesse apenas dezenove anos. Não lutou contra ele, apenas chegou mais para perto dele, retorceu-se e segurou-o com uma das mãos, acariciando-o, e murmurou com voz rouca:
— Ah, Pai, mas dá muito azar mexer com o Honorável Vermelho, e por mais que eu deseje a sua imensidade dentro de mim, ambos sabemos que há outros meios de o yin deleitar o vórtice vital.
— Mas primeiro quero...
— Primeiro? Primeiro? — Satisfeita consigo mesma, sentiu-o ficar mais rijo. — Ah, como você é forte! Ah, é fácil ver por que todas as fofoqueiras safadas querem o meu velho Pai, ayeeyah, um homem tão forte, violento, maravilhoso!
Destramente, deixou à mostra o yang. Destramente, dominou-o e deixou o banqueiro ofegando.
— Vamos para a cama, querida — falou ele, a voz roufenha. — Primeiro um pouco de conhaque, depois uma dormi-dinha, e...
— Certo, mas não aqui, ah, não! — disse ela com firmeza, ajudando-o a levantar-se.
— Hem? Mas para todos os efeitos estou em Formosa...
— Sei, portanto é melhor ir para o seu clube!
— Mas eu...
— Ah, mas como deixou exausta a sua pobre Filha! Fingiu debilidade enquanto o arrumava e o levava até a porta antes que ele se desse conta do que se estava passando. Lá, beijou-o apaixonadamente, jurou amor eterno, prometeu que o veria no dia seguinte e fechou a porta às suas costas.
Trêmulo, ele ficou fitando a porta, os joelhos bambos, a pele pegajosa, desejando esmurrar a porta e exigir descansar na cama que havia comprado. Mas não o fez. Não tinha forças, e foi cambaleando até o elevador.
Ao descer, abriu subitamente um amplo sorriso, radiante consigo mesmo. O cheque que lhe dera correspondia apenas a um mês de aluguel. Ela se esquecera de que no mês anterior ele concordara em aumentar a quantia em quinhentos dólares por mês. "Eeee, Boquinha Maravilhosa", casquinou ele, "o yang passou a perna no yin, afinal de contas! Ah, como a esgotei hoje, e, oh, as Nuvens e Chuva! Hoje foi realmente a Pequena Morte e o Grande Nascimento, e até que barato ao preço de duas vezes o aluguel de um mês, mesmo com o aumento!"
Vênus Poon acabou de escovar os dentes e começou a retocar a maquiagem. Viu a amah pelo espelho do banheiro.
— Ah Poo — disse, com voz estridente —, pegue a minha capa de chuva, aquela preta, antiga, e telefone pedindo um táxi... e depressa, senão belisco as suas bochechas!
A velha apressou-se a obedecer, radiante porque o mau humor da patroa tinha passado.
— Já chamei o táxi — falou, resfolegando. — Estará Iá embaixo, esperando na porta lateral, logo que a Mãe descer. Mas é melhor dar alguns minutos para o Pai se afastar, para o caso de ele ter ficado desconfiado.
— Hum, aquele Casco de Tartaruga agora não presta para mais nada! Só lhe sobram forças para cair no banco de trás do carro e mandar que o levem ao seu clube!
Vênus Poon terminou de pintar os lábios e sorriu para si mesma no espelho, admirando-se imensamente.
"Agora, vamos ao diamante", pensou, entusiasmada.
— Quando se ver de novo, Paw'll? — perguntou Lily Su.
— Logo. Na semana que vem. — Havergill terminou de se vestir e apanhou relutantemente a capa de chuva. Estavam num quarto pequeno, mas limpo e agradável, tendo um banheiro com água corrente quente e fria, que a gerência do hotel mandara instalar particularmente, com grande despesa, ajudada clandestinamente por alguns peritos do departamento de águas. — Ligo para você, como sempre.
— Por que triste, Paw'll?
Virou-se e olhou para ela. Não lhe contara que em breve iria embora de Hong Kong. Da cama, ela também o olhava, a pele lustrosa e cheia de juventude. Há quase quatro meses era sua amante, não amante exclusiva, já que não lhe pagava o aluguel ou outras despesas. Ela era recepcionista da Boate Recepcionista Feliz, seu clube noturno preferido, em Kowloon. O dono da boate era Pok Um Olho Só, um antigo e valioso cliente do banco há muitos anos. A mama-san era uma mulher esperta, que conhecia os seus gostos. Tivera muitas amantes da Recepcionista Feliz ao longo dos anos, a maioria por algumas horas, algumas por um mês, pouquíssimas por mais tempo, e apenas uma experiência ruim em quinze anos... uma das moças tentara fazer chantagem. Prontamente ele procurara a mama-san. A moça fora embora naquela mesma noite. Nem ela nem seu cafetão tríade jamais tinham sido vistos outra vez.
— Por que triste, heya?
"Porque em breve vou embora de Hong Kong", tinha vontade de lhe dizer. "Porque quero uma exclusividade que não posso ter, mas devo ter, não ouso ter... e nunca quis ter com nenhuma antes. Ah, Deus do céu, como quero você!"
— Triste, não, Lily, apenas cansado — disse, os problemas do banco aumentando o peso que sentia.
— Tudo vai ficar muito bom — disse ela, confortadora. — Liga logo, heya?
— Sim. Ligo, sim.
A combinação deles era muito simples: um telefonema. Se não pudesse falar diretamente com ela, ligava para a mama-san e à noite ia à boate, sozinho ou com amigos. Ele e Lily dançavam um pouco para salvar as aparências, tomavam alguns drinques, e ela ia embora. Depois de uma meia hora ele pagava a conta e vinha para o local de encontros, já pago adiantada-mente. Não vinham juntos para o local de encontros particular e exclusivo porque ela não queria ser vista nas ruas, ou por vizinhos, com um demônio estrangeiro. Seria desastroso para a reputação de uma moça ser vista sozinha com um bárbaro. Em público. Fora do seu local de trabalho. Qualquer moça em idade de ter relações sexuais seria imediatamente considerada o tipo mais baixo de meretriz, a meretriz de um demônio estrangeiro, e desprezada como tal, abertamente ridicularizada, e seu valor diminuiria.
Havergill sabia disso e não se importava. Em Hong Kong aquilo era uma realidade da vida.
— Doh jeh. Obrigado — disse, sentindo amor por ela, querendo ficar, ou querendo levá-la com ele. — Doh jeh — disse apenas, e se retirou.
Quando ficou sozinha, Lily deixou escapar o forte bocejo que quase a dominara muitas vezes naquela noite, recostou-se na cama e espreguiçou-se gostosamente. A cama estava desfeita, mas era mil vezes melhor do que o catre no quarto que alugava em Tai-ping Shan.
Uma leve batida na porta.
— Honrada Senhora?
— Ah Chun?
— Sim. — A porta se abriu e a velha entrou, trazendo toalhas limpas. — Quanto tempo vai demorar?
Lily Su hesitou. Era costume o cliente pagar o quarto pela noite inteira. Também era costume, caso o quarto ficasse livre antes, a gerência devolver parte da taxa paga à garota.
— A noite toda — falou, querendo curtir o luxo, sem saber quando teria nova oportunidade. Talvez na semana seguinte aquele cliente já tivesse perdido o seu banco e tudo o mais.
— Joss — falou, e depois: — Prepare-me o banho, por favor.
Resmungando, a velha fez o que lhe tinha sido ordenado e foi embora. Lily Su deixou escapar novo bocejo, ouvindo, satisfeita, o barulho da água correndo. Também estava cansada. O dia fora exaustivo. E naquela noite o cliente falara mais do que de costume, enquanto ela se apoiava nele, tentando dormir, sem escutar, compreendendo apenas uma palavra aqui e ali, mas satisfeita em deixá-lo falar. Sabia, por longa experiência, que aquela era uma forma de alívio, especialmente para um bárbaro velho. "Que coisa estranha", pensou, "toda essa trabalheira, barulho, lágrimas e dinheiro para conseguir apenas mais dor, mais conversa e mais lágrimas. "