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— Não se incomode se o yang for fraco ou se eles falarem, resmungarem, murmurarem no seu idioma pavoroso ou chorarem nos seus braços. Os bárbaros agem assim — explicara-lhe a mama-san. — Feche os ouvidos. E feche as narinas ao cheiro de demônio estrangeiro e ao cheiro de velho, e ajude-o a curtir um momento de prazer. Ele é yan de Hong Kong, um velho amigo, e também paga bem, pontualmente. Está rapidamente conseguindo que você liquide as suas dívidas, e dá muito prestígio ter um companheiro de cama desses. Portanto, mostre entusiasmo, finja que ele é viril, e faça jus ao dinheiro que ele lhe paga.

Lily Su sabia que fazia jus ao dinheiro recebido. "É, minha sorte é muito boa, melhor do que a da minha pobre irmã e do seu protetor. Pobre Flor Fragrante e seu Filho Número Um do Chen da Casa Nobre! Que tragédia! Que crueldade!"

Estremeceu. "Ah, aqueles terríveis Lobisomens! É terrível cortar-lhe fora a orelha, terrível assassiná-lo e ameaçar toda a Hong Kong, terrível para a minha pobre irmã mais velha ser esmagada até a morte por aqueles pescadores nojentos e fedidos de Aberdeen. Ah, que triste sina!"

Somente naquela manhã lera no jornal uma cópia da carta de amor de John Chen, reconhecendo-a imediatamente. Durante semanas as duas haviam rido da carta, ela e Flor Fragrante, daquela e das duas outras cartas que Flor Fragrante lhe entregara para guardar.

— Um homem tão engraçado, quase sem nenhum yang, e quase sempre nem um pouquinho duro — contara-lhe a irmã mais velha. — Ele me paga só para ficar deitada, para ele beijar, às vezes para dançar sem roupa, e sempre me faz prometer contar aos outros como ele é forte! Eeeee, ele me dá dinheiro como se fosse água! Há onze semanas que sou o "seu verdadeiro amor"! Se isso continuar por mais onze semanas... quem sabe um apartamento todo pago!

Naquela tarde, temerosa, fora com o pai à delegacia de Aberdeen Leste para identificar o corpo. Não disseram que sabiam quem era o protetor dela. Sabiamente, o pai mandara que guardasse segredo.

— Sem dúvida, o Chen da Casa Nobre vai preferir que isto fique em segredo. Seu prestígio também está envolvido, e o prestígio do novo herdeiro. Como se chama? O tal com o nome de demônio estrangeiro? Daqui a um ou dois dias telefonarei para o Chen da Casa Nobre, para sondá-lo. Temos que esperar um pouco. Depois das notícias de hoje, depois de saber o que os Lobisomens fizeram com o Filho Número Um, pai algum vai querer negociar.

"É, o pai é esperto", pensou. "Não é à toa que seus companheiros de trabalho chamam-no de Chu Nove Quilates. Graças a todos os deuses que tenho as duas outras cartas.”

Depois que haviam identificado o corpo da irmã, preencheram formulários com seus nomes verdadeiros e o nome verdadeiro da família, Chu, para reclamar o dinheiro dela: quatro mil trezentos e sessenta HK no nome de Glicínia Su, e três mil HK no nome de Flor Fragrante Tak, dinheiro ganho fora do Cabaré Boa Sorte. Mas o sargento da polícia fora inflexível.

— Lamento, mas agora que sabemos o seu nome verdadeiro temos que anunciá-lo, para que todos os seus credores possam reclamar sua parte do espólio.

Nem mesmo uma oferta muito generosa de vinte e cinco por cento do dinheiro em troca da posse imediata não conseguira demovê-lo. Então, tinham ido embora.

"Aquele carne de cachorro nojento, escravo dos demônios estrangeiros", pensou ela, enojada. "Nada sobrará depois que o cabaré cobrar suas dívidas. Nada. Ayeeyah!

"Mas, tudo bem", disse com seus botões, ao se deitar na banheira, numa satisfação gloriosa. "Tudo bem. O segredo das cartas vai valer uma fortuna para o Chen da Casa Nobre.

"E o Chen da Casa Nobre tem mais notas vermelhas do que um gato tem pêlos. "

Casey estava enroscada junto à janela do quarto de dormir, todas as luzes apagadas, exceto uma pequena lâmpada de leitura, junto à cama. Fitava melancolicamente a rua, cinco andares abaixo. Mesmo àquela hora tardia, quase uma e meia da madrugada, a rua ainda estava congestionada pelo tráfego. Não havia lua no céu, e as nuvens estavam baixas, pesadas, tornando as luzes vermelhas, verdes e azuis dos imensos cartazes de neon e colunas de caracteres chineses que se refletiam nas poças d'água ainda mais ofuscantes e transformando a feiúra da cidade num país encantado. A janela estava aberta, o ar, fresco, e ela podia ver casais correndo entre os ônibus, caminhões e táxis. Muitos dos casais dirigiam-se para o saguão do novo Royal Netherlands Hotel para fazerem uma "boquinha" no novo café europeu, onde ela tomara o último café da noite com o comandante Jannelli, o piloto deles.

"Todo mundo aqui come tanto!", pensou, vagamente. "Meu Deus!, e tanta gente precisando de trabalho, tão poucos empregos, tão poucos Iá no topo, um no topo de cada pilha, sempre um homem, todos lutando para se manter ali, para continuar ali... mas para quê? Um carro novo, uma casa nova, uma nova geladeira, a última novidade, ou seja Iá o que for.

"A vida é uma conta sem fim. Nunca há grana suficiente para se pagar todas as contas do dia-a-dia, que dirá um iate particular ou um condomínio particular nas praias de Acapulco ou da Cote d'Azur e os meios para se chegar Iá... mesmo como turista.

"Detesto viajar na classe turística. A primeira classe é o que vale, para mim. O jato particular ainda é melhor, muito melhor. Mas não vou ficar pensando no Linc... "

Jantara com Seymour Steigler no restaurante do hotel, e haviam acertado todos os seus assuntos comerciais, na sua maioria problemas legais que ele estava levantando.

— Temos que deixar tudo impecável, sem uma brecha. Todo o cuidado é pouco com os estrangeiros, Casey — repetia. — Eles não jogam segundo as boas regras ianques.

Logo que o jantar acabou, ela fingiu ter um monte de trabalho a esperá-la, e deixou-o. Já tinha acabado tudo o que precisava fazer. Assim, enroscou-se numa poltrona e começou a ler, leitura dinâmica. Fortune, Business Week, The Wall Street Journal e várias revistas comerciais especializadas. Depois, estudou mais uma lição de cantonense, deixando o livro para o fim. Era o romance de Peter Marlowe, Changi. Encontrara o exemplar muito manuseado numa das dúzias de bancas de livros de rua num beco ao norte do hotel, na manhã do dia anterior. Tivera um grande prazer em pechinchar para adquiri-lo. O primeiro preço pedido fora vinte e dois HK. Casey pechinchara até comprá-lo por sete HK e cinqüenta e cinco cents, cerca de um dólar e meio, em moeda americana. Encantada consigo mesma e com sua descoberta, continuou a ver vitrines. Ali perto ficava uma livraria moderna, as vitrines cheias de livros ilustrados sobre Hong Kong e a China. Lá dentro, numa prateleira, viu mais três brochuras de Changi. Novas, custavam cinco HK e setenta e cinco cents.

Imediatamente, Casey xingou a velha vendedora de rua por tê-la enganado. "Mas", lembrou a si mesma, "a bruxa velha não trapaceou com você. Simplesmente foi melhor comerciante. Afinal de contas, há pouco você estava se vangloriando por ter reduzido o lucro dela a zero, e Deus sabe que essa gente precisa de lucro. "

Casey ficou olhando a rua e o tráfego na Nathan Road, Iá embaixo. Pela manhã, subira a Nathan Road até a Boundary Road, cerca de dois quilômetros adiante. Fazia parte da sua lista de coisas a ver. Era uma rua como outra qualquer, congestionada, movimentada, cheia de cartazes espalhafatosos, só que tudo ao norte da Boundary Road, até a fronteira, reverteria para a China em 1997. Tudo. Em 1898, os britânicos haviam arrendado por noventa e nove anos a terra que se estendia da Boundary Road até o rio Sham Chun, onde ficaria a nova fronteira, juntamente com várias ilhas próximas.