— Não foi uma burrice, Peter? — perguntara a Marlowe, encontrando-o por acaso no saguão do hotel, à hora do chá.
— Agora é — replicou, pensativo. — Naquela época? Bem, quem sabe? Devia ser uma coisa sensata. Caso contrário não o teriam feito.
— Eu sei, Peter, mas, meu Deus, noventa e nove anos é tão pouco tempo! O que deu neles para arrendarem por tão pouco tempo? Deviam estar com a cabeça... noutro lugar.
— É. Pode-se pensar assim. Hoje. Mas naquela época, quando bastava o primeiro-ministro britânico arrotar para causar uma onda de choque no mundo todo? O poder mundial é que faz toda a diferença. Naquela época, o Leão Britânico ainda era o Leão. O que significava um pedacinho de terra para os donos de um quarto do globo? — Lembrava-se de como ele sorrira. — Mesmo assim, nos Novos Territórios, houve oposição armada do pessoal local. Naturalmente, não deu em nada. O governador de então, Sir Henry Blake, cuidou de tudo: não guerreou com eles, apenas conversou. Os chefes da aldeia acabaram por concordar em dar a outra face, desde que suas leis e costumes continuassem em vigor, desde que pudessem ser julgados segundo as leis chinesas, se quisessem, e desde que Kowloon City continuasse chinesa.
— O pessoal local ainda é julgado segundo as leis chinesas?
— É, lei histórica, não da RPC. Portanto, é preciso ter magistrados britânicos versados na lei de Confúcio. É bastante diferente. Por exemplo, a lei chinesa presume que todas as testemunhas naturalmente mintam, que é seu dever mentir e encobrir as coisas, e cabe ao magistrado descobrir a verdade. Ele tem que ser uma espécie de Charlie Chan legal. Gente civilizada não costuma jurar dizer a verdade, toda essa espécie de barbarismo... acham que somos malucos por agir assim, e não tenho certeza de que estejam errados. Os chineses têm todo tipo de costumes, loucos ou sensatos, dependendo do ponto de vista da gente. Sabe que é perfeitamente legal, em toda a colônia, ter mais de uma mulher... se se for chinês.
— Ora vejam só!
— Ter mais de uma mulher realmente tem Iá as suas vantagens.
— Escute aqui, Peter — começou, veementemente, depois se deu conta de que ele estava simplesmente implicando com ela. — Você não precisa de mais de uma. Tem a Fleur. Como vão indo os dois? E a pesquisa? Quem sabe ela não gostaria de almoçar comigo amanhã, se você estiver ocupado.
— Desculpe, mas ela está no hospital.
— Meu Deus, o que houve?
Ele lhe contou sobre o que se passara de manhã, e sobre o dr. Tooley.
— Acabo de vê-la. Ela... não está passando muito bem.
— Ah, sinto muito. Há alguma coisa que eu possa fazer?
— Não, obrigado. Acho que não.
— Basta pedir, se houver. Certo?
— Obrigado.
— Linc agiu certo ao saltar com ela dentro d'água, Peter. Juro.
— Mas é claro, Casey. Por favor, não pense por um momento que... Linc fez o que eu... fez melhor do que eu faria. E você também. E acho que vocês dois também salvaram aquela outra moça de um bocado de encrenca. Orlanda. Orlanda Ramos.
— Sei.
— Ela deve ser eternamente grata a você. A vocês dois. Estava em pânico... já vi gente demais assim, eu sei. Uma gata espetacular, ela, não é?
— É. Como vai indo a pesquisa?
— Bem, obrigado.
— Às vezes gostaria de trocar impressões com você. Ei, a propósito... achei seu livro e comprei-o. Ainda não li, mas está no topo da lista.
— Ah! — Casey lembrava-se de como ele tentara parecer natural. — Ah! Espero que goste. Bem, tenho que ir andando. Está na hora do chá das meninas.
— Lembre-se, Peter, se houver alguma coisa, pode me chamar. Obrigada pelo chá, e dê um beijo na Fleur...
Casey espreguiçou-se, sentindo agora uma dor nas costas. Saiu do banco junto à janela e foi para a cama, O quarto era pequeno, e não tinha a elegância da suíte deles... da suíte dele, agora. Ele resolvera ficar com o segundo quarto.
— Sempre podemos usá-lo como escritório — dissera-lhe —, ou guardá-lo de reserva. Não se preocupe, Casey, tudo é deduzível do imposto de renda, e nunca se sabe quando se pode precisar de um quarto de reserva.
Orlanda? Não, ela não precisaria daquela cama!
"Casey", ordenou a si mesma, "não seja tão ferina, ou burra. Ou ciumenta. Você nunca foi ciumenta, tão ciumenta antes. Foi você que estabeleceu as regras. É, mas ainda bem que me mudei. Aquela noite foi dureza, dureza para Linc e para mim, pior para ele. Orlanda vai fazer bem a ele... ora, Orlanda que vá à merda!"
Sentiu a boca seca. Foi até a geladeira e pegou uma garrafa de Perrier gelada, e o gostinho picante fê-la sentir-se melhor. "Como será que a terra produz essas bolhas?", pensou preguiçosamente, deitando-se na cama. Um pouco antes, tentara dormir, mas sua cabeça estava confusa, não parava de funcionar, novidades demais... "Novas comidas, novos cheiros, ar, costumes, ameaças, gente, hábitos, culturas. Dunross. Gornt, Dunross e Gornt. Dunross, Gornt e Linc. Um novo Linc. Uma nova Casey, assustada por causa de uma piranhazinha bonita... é, se quer ser vulgar, e isso também é novidade em você. Antes de vir para cá você era confiante, dinâmica, dominava o seu mundo, e agora não é mais assim. Tudo por causa dela. Não apenas por causa dela. Por causa daquela vaca da Lady Joanna também, com o seu sotaque inglês tão 'classe alta': 'Não se lembra, querida? Hoje é o dia do nosso almoço do Clube das Mais de Trinta. Falei nele no jantar do tai-pan... '
"Maldita vaca velha! Mais de trinta! Nem tenho vinte e sete ainda...
"É isso aí, Casey. Mas você está toda eriçada, feito uma gata assustada, e não é só por causa dela, ou da Orlanda. É também por causa do Linc e das centenas de garotas disponíveis que você já viu, e ainda nem foi espiar nos cabarés, bares e casas onde elas se especializam. O Jannelli também não atiçou você?"
— Pombas, Casey — exclamara ele, com um amplo sorriso —, é como estar de licença na minha época da Guerra da Coréia. Ainda são só vinte mangos, e você é o maioral!
Naquela noite, por volta das dez, Jannelli ligara para perguntar se ela gostaria de se reunir a ele e ao resto da tripulação no Royal Netherlands, para fazer a última "boquinha" da noite. Seu coração dera uma reviravolta dentro do peito quando o telefone tocou, pensando que era Linc, e quando viu que não era, fingiu que ainda tinha um monte de coisas para fazer, mas deixou-se ser persuadida, agradecida. Quando chegou Iá, pediu uma porção dupla de ovos mexidos com bacon, torrada e café, embora estivesse sem apetite.
Como protesto. Protesto contra a Ásia, Hong Kong, Joanna e Orlanda. "Ah, meu Deus! Quem dera eu nunca me tivesse interessado pela Ásia, nunca tivesse sugerido ao Linc que nos tornássemos uma companhia internacional.
"Por que o fiz?
"Porque é o único meio para o progresso das empresas americanas — o único meio —, o único meio para a Par-Con. Exportar. Multinacional, mas exportando. E a Ásia é o maior, o mais fervilhante mercado inexplorado da terra, e este é o século da Ásia. É. E os Dunrosses e os Gornts estarão numa boa (se nos acompanharem), porque temos o maior mercado do mundo a nos dar apoio, todo o dinheiro, tecnologia, crescimento e especialistas para fazê-lo.
"Mas por que busquei Hong Kong com tanta fúria?
"Para arranjar o meu dinheiro do dane-se e encher o tempo até o meu aniversário... o fim do sétimo ano.
"Do jeito que as coisas vão", disse com seus botões, "logo não terá emprego, nem futuro, nem Linc para quem dizer sim ou não. " Soltou um grande suspiro. Um pouco antes, fora até a suíte principal e deixara uma pilha de cartas e telex para Bartlett assinar, acompanhados de um bilhete, que dizia: "Espero que tenha se divertido". Quando voltara do encontro com Jannelli, fora até o quarto e trouxera de volta tudo o que havia deixado Iá.
— É Orlanda que está ouriçando você. Não queira se enganar — disse em voz alta.