"Não faz mal, amanhã é outro dia. Você pode derrubar a Orlanda com facilidade", disse consigo mesma, sombriamente. E, tendo se concentrado em sua inimiga, sentiu-se melhor.
A brochura muito manuseada de Peter Marlowe chamou-lhe a atenção. Apanhou-a, afofou os travesseiros mais confortavelmente e começou a ler. Foi devorando as páginas. De repente, o telefone tocou. Estava tão entretida que deu um salto, sentindo-se inundada por uma felicidade vasta e repentina.
— Oi, Linc, divertiu-se?
— Casey, sou eu. Peter Marlowe. Mil desculpas por ligar tão tarde, mas pedi a seu camareiro que verificasse e ele me disse que a luz ainda estava acesa... Espero não a ter acordado.
— Ah, não, Peter. — Casey sentia-se doente de desapontamento. — O que houve?
— Desculpe ligar tão tarde, mas há uma ligeira emergência. Tenho que ir para o hospital e... você disse para chamá-la. Sim...
— O que foi? — perguntou Casey, agora completamente ligada.
— Não sei. Pediram que eu fosse imediatamente. Liguei para você por causa das meninas. Um camareiro vai dar uma espiada nelas de vez em quando, mas eu queria deixar um bilhete para elas com o seu telefone, para o caso de acordarem, só para o caso de acordarem, um rosto amigo a quem chamar, digamos assim. Quando nos encontramos no saguão, ontem, elas acharam você um estouro. Provavelmente não acordarão, mas por via das dúvidas... Podem ligar para você? Desculpe...
— Claro. Mas é melhor eu ir para aí.
— Ah, não, de modo algum. Basta...
— Não estou com sono, e você mora pertinho. Não é trabalho nenhum, Peter, já estou indo. Pode ir saindo para o hospital.
Levou apenas um minuto para vestir umas calças, uma blusa e um suéter de caxemira. Mesmo antes de apertar o botão do elevador, Song Noturno já aparecia, de olhos arregalados e indagadores. Ela ficou calada.
No andar térreo, cruzou o saguão, saiu para a Nathan Road, atravessou a rua lateral e entrou no saguão do Anexo. Peter Marlowe já estava à sua espera.
— Esta é a srta. Tcholok — disse apressadamente ao porteiro da noite. — Ficará com as meninas até eu voltar.
— Sim, senhor — replicou o eurasiano, também de olhos arregalados. — O garoto a levará até o quarto, senhorita.
— Espero que tudo esteja bem, Peter... — Interrompeu-se. Ele já ia porta afora, tentando chamar um táxi.
O apartamento era pequeno, no sexto andar. A porta da frente estava entreaberta. O encarregado do andar, Po Noturno, deu de ombros e foi embora resmungando, xingando os bárbaros... como se ele não fosse capaz de cuidar de duas crianças adormecidas que brincavam de esconder com ele todas as noites.
Casey fechou a porta e foi dar uma espiada no pequenino segundo dormitório. As duas crianças dormiam a sono solto no beliche; Jane, a pequenina, na cama de cima, e Alexandra, toda largada, na de baixo. Comoveu-se ao vê-las. Louras, despentea-das, angelicais, agarradas a ursinhos de pelúcia. "Ah, como adoraria ter filhos", pensou, "filhos de Linc.
"Adoraria mesmo? As fraldas, sempre presa em casa, as noites insones e nenhuma liberdade.
"Não sei. Acho que sim. Ah, sim, por duas coisinhas como estas, sim!"
Casey não sabia se devia cobri-las ou não. O ar estava quente, por isso resolveu não fazer nada, para evitar acordá-las. Na geladeira encontrou água engarrafada. Depois de bebê-la, sentiu-se mais refrescada e com o coração mais calmo. A seguir, sentou-se na poltrona. Dali a um momento tirou o livro de Peter da bolsa e, mais uma vez, começou a ler.
Duas horas depois, ele voltou. Ela nem sentira o tempo passar.
— Ah — exclamou, vendo o rosto dele. — Ela perdeu o bebê?
Ele fez que sim, entorpecido.
— Desculpe ter demorado tanto. Quer um pouco de chá?
— Claro, Peter, deixe que...
— Não. Não, obrigado, eu sei onde ficam as coisas. Desculpe ter-lhe dado tanto trabalho.
— Não é trabalho nenhum. Mas ela está passando bem? A Fleur?
— Eles, eles acham que sim. Foram as cólicas as responsáveis, e a disenteria. É cedo demais para saber, mas parece não haver perigo de verdade, é o que dizem. O... o aborto, disseram que é sempre um tanto difícil, física e emocional-mente.
— Sinto tanto!
Ele a olhou, e ela notou o rosto forte, castigado, vivido.
— Não se preocupe, Casey, Fleur está bem — disse ele, mantendo a voz firme. — Os japoneses acreditam que nada existe até o nascimento, até trinta dias depois do nascimento, trinta se for menino, trinta e um se for menina. Não existe nada resolvido, nem alma, nem personalidade, nem pessoa... até essa data não existe a pessoa. — Virou-se para a minúscula cozinha e pôs a chaleira para ferver, tentando ser convincente. — É melhor acreditar nisso, não acha? Como ele podia ser outra coisa senão... uma coisa? Não existe uma pessoa até então, até uns trinta dias depois do nascimento. Assim a coisa não fica tão ruim. Ainda é pavoroso para a mãe, mas não tão ruim. Desculpe, acho que o que estou dizendo não tem muito sentido.
— Ah, mas tem. Espero que ela agora fique boa — disse Casey, com vontade de tocá-lo, sem saber se devia fazê-lo ou não. Ele parecia tão digno no seu sofrimento, tentando parecer calmo, apesar disso apenas um garotinho para ela.
— Os chineses e os japoneses são pessoas muito sensatas, Casey. As... as suas superstições tornam a vida mais fácil. Suponho que a taxa de mortalidade infantil fosse tão alta no passado, que fez com que algum pai sábio tenha inventado essa história para aliviar o sofrimento de uma mãe. — Soltou um suspiro. — Ou, o que é mais provável, alguma mãe mais sábia ainda a tenha inventado para ajudar um pai desolado. Não é?
— Provavelmente — disse ela, deslocada, vendo as mãos dele prepararem o chá. Primeiro a água fervente na chaleira, o bule escaldado com cuidado, a água jogada fora. Três Colheres de chá e uma para o bule, a água fervente levada até o bule.
— Desculpe, não temos chá em saquinho. Não consigo me acostumar com isso, embora Fleur diga que é igualmente bom, e mais limpo. Desculpe, o chá é a única coisa que temos. — Trouxe a bandeja de chá para a sala e pousou-a na mesa de jantar. — Leite e açúcar? — perguntou.
— Está ótimo — replicou ela, que nunca o tomara daquele jeito.
Tinha um gosto estranho. Mas forte e revigorante. Beberam em silêncio. Ele deu um leve sorriso.
— Puxa, como é bom um chazinho, hem?
— É formidável.
Os olhos dele notaram o livro entreaberto.
— Ah! — exclamou.
— Gostei do que li até agora, Peter. O quanto há de verdade nele?
Distraidamente, ele se serviu de outra xícara.
— O quanto pode haver de verdade em qualquer coisa contada quinze anos depois de acontecida! Ao que me lembre, os incidentes são exatos. As pessoas no livro não viveram, embora pessoas iguais a elas tenham vivido, dito e feito aquele tipo de coisas.
— É inacreditável. Inacreditável que pessoas, jovens, pudessem sobreviver àquilo. Quantos anos você tinha, na época?
— Changi começou quando eu tinha dezoito anos, e acabou quando tinha vinte e um... pouco mais de vinte e um.
— Quem é você, no livro?
— Talvez eu nem esteja nele.
Casey resolveu abandonar a questão. Por enquanto. Até acabar o livro.
— É melhor eu ir andando. Você deve estar exausto.
— Não, não estou. Na verdade, não estou cansado. Tenho algumas anotações a fazer... dormirei quando as crianças estiverem na escola. Mas você, você deve estar. Nem sei como lhe agradecer, Casey. Fico lhe devendo um favor.
Ela sorriu e balançou a cabeça. Depois de uma pausa, disse:
— Peter, você, que conhece tanto sobre este lugar, a quem se ligaria, Dunross ou Gornt?
— Comercialmente, ao Gornt. Com vistas ao futuro, Dunross, se conseguir superar essa crise. Porém, pelo que tenho ouvido, isso não é provável.
— Por que Dunross para o futuro?