Выбрать главу

— Prestígio. Gornt não tem classe para ser o tai-pan... nem os antecedentes necessários.

— E isso é assim tão importante?

— Aqui, totalmente. Se a Par-Con quiser centenas de anos de crescimento, Dunross. Se estão aqui só para obter um lucro fácil, uma incursão sem maiores vistas ao futuro, liguem-se ao Gornt.

Ela acabou de tomar o seu chá, pensativa.

— O que sabe sobre Orlanda?

— Muita coisa — disse ele, prontamente. — Mas saber de escândalos ou fofocas sobre uma pessoa viva não é a mesma coisa que conhecer as lendas ou as fofocas referentes a épocas passadas. Não é?

Ela lhe devolveu o olhar.

— Nem mesmo como um favor?

— Isso é diferente. — Os olhos dele se estreitaram ligeiramente. — Está me pedindo um favor?

Ela largou a xícara de chá e sacudiu a cabeça.

— Não, Peter, agora não. Pode ser que mais tarde peça, mas agora não. — Notou que o cenho dele estava franzido. — O que foi? — perguntou.

— Estava me perguntando por que Orlanda representa uma ameaça para você. Por que esta noite? Obviamente, isso leva ao Linc, o que leva inevitavelmente à hipótese de que ela tenha saído com ele hoje, esteja com ele agora, o que explica por que sua voz estava horrível quando telefonei.

— Estava?

— Estava. Ora, naturalmente eu notei o Linc olhando para ela em Aberdeen, e você olhando para ele, e ela olhando para você. — Sorveu um pouco de chá, a fisionomia mais dura. — Uma festa e tanto, aquela! Muitos começos na festa, grandes tensões, muito drama. Fascinante, se você pode se dissociar da coisa. Mas você não pode, pode?

— Você sempre observa e escuta?

— Tento treinar-me para ser um observador. Tento usar ouvidos, olhos e outros sentidos, adequadamente, como devem ser usados. Você também. Não há muita coisa que lhe escape.

— Talvez sim, talvez não.

— Orlanda é treinada em Hong Kong, e treinada por Gornt. Se está planejando entrar em luta com ela por causa do Linc, pode ir se preparando para uma batalha e tanto... se é que ela está resolvida a agarrá-lo, o que ainda não sei.

— Gornt a estaria usando? Depois de uma pausa, ele disse:

— Imagino que Orlanda seja a dona de Orlanda. Não é assim com a maioria das damas?

— A maioria das damas atrela sua vida a um homem, quer queira, quer não.

— Pelo que sei a seu respeito, sabe cuidar da concorrência.

— E o que sabe a meu respeito?

— Muita coisa. — Novamente o sorriso leve, sereno, gentil. — Entre elas, que é inteligente, corajosa, tem muito prestígio e sabe manter a sua fachada.

— Estou tão cansada de fachada, Peter. No futuro... — O sorriso dela era igualmente carinhoso. — De agora em diante, para mim, as pessoas não vão ganhar prestígio, fachada... e sim "traseiro"... vão ganhar ou perder "traseiro".

Ele riu junto com ela.

— Do jeito que você fala parece mais refinado, mais próprio de uma dama.

— Não sou nenhuma dama.

— Ah, mas é, sim. — E acrescentou, mais suavemente: — Vi o jeito como o Linc olhava para você na festa de Dunross, também. Ele a ama. E seria um idiota de trocá-la por ela.

— Obrigada, Peter.

Levantou-se, beijou-o e saiu, em paz. Quando saltou do elevador no seu andar, Song Noturno estava Iá. Foi andando na frente dela, e abriu a porta do quarto com um floreio. Ele notou que os olhos dela se dirigiram para a porta no fim do corredor.

— Patrão não em casa — falou, por conta própria. — Não voltou ainda.

Casey soltou um suspiro.

— Você acaba de perder mais "traseiro", meu chapa.

— Hem?

Fechou a porta, sentindo-se satisfeita consigo mesma. Na cama, recomeçou a ler. Terminou o livro ao alvorecer. Depois, dormiu.

58

9h25m

Dunross fez a curva rapidamente no seu Jaguar, subindo a estrada sinuosa com facilidade, depois dobrou numa entrada para carros e parou a dois centímetros dos altos portões. Os portões incrustavam-se em muros altos. Dali a um momento, o porteiro chinês espiou pela porta lateral. Quando reconheceu o tai-pan, abriu inteiramente os portões e fez sinal para que ele entrasse.

O caminho subia em curva e terminava diante de uma mansão chinesa. Dunross saltou. Outro criado cumprimentou-o silenciosamente. Os jardins eram bem-cuidados, e, descendo-se uma encosta, havia uma quadra de tênis onde quatro chineses, dois homens e duas mulheres, jogavam uma partida de duplas mistas. Não deram atenção a ele, e Dunross não reconheceu nenhum dos quatro.

— Por favor, siga-me, tai-pan — disse o criado.

Dunross disfarçou sua curiosidade ao entrar numa ante-sala. Era a primeira vez que ele, ou qualquer um que conhecesse, era convidado a entrar na casa de Tiptop. O interior era limpo, mas estava atulhado da mistura chinesa, descuidada mas habitual, de belas antigüidades laqueadas e bric-à-brac feio e moderno. As paredes eram de lambris, onde algumas gravuras ordinárias estavam penduradas. Ele se sentou. Um outro criado trouxe o chá e serviu-o.

Dunross podia sentir que estava sendo observado, mas isso também era comum. A maioria dessas casas antigas tinha visores nas paredes e portas... mesmo na Casa Grande havia muitos.

Quando voltara à Casa Grande de madrugada, Iá pelas quatro horas, fora direto ao seu escritório e abrira o cofre. Não havia dúvida, apenas a um olhar superficial, de que uma das moedas restantes se encaixava nas impressões da matriz de cera de Wu Quatro Dedos. Nenhuma dúvida. Os dedos dele tremiam ao tirar a meia moeda do lacre que a prendia à bíblia de Dirk Struan, e ao limpá-la. Ela se encaixava perfeitamente nos recortes.

— Deus meu! — murmurou. — E agora?

Depois, recolocara a matriz e a moeda no cofre. Seus olhos depararam com a automática carregada e o espaço vazio onde ficavam as pastas de Alan M. Grant. Inquieto, trancara de novo o cofre e fora para a cama. Havia um recado no seu travesseiro:

"Querido papai: Quer me acordar quando sair? Queremos ir assistir aos treinos. Beijos, Adryon. P. S. — Posso convidar o Martin para as corridas no sábado, por favor, por favor, por favor? P. P. S. — Acho que ele é legal. P. P. P. S. — Você também é legal. P. P. P. P. S. — Está chegando tarde, não é? São três horas e dezesseis minutos!!!"

Ele fora na ponta dos pés ao quarto dela e abrira a porta, mas ela dormia a sono solto. Quando saiu de casa, teve de bater na porta duas vezes para acordá-la.

— Adryon! São seis e meia.

— Ah! Está chovendo? — perguntou, sonolenta.

— Não, mas não demora. Quer que abra as persianas?

— Não, papai querido, obrigada... não faz mal, Martin não vai... se importar.

Abafara um bocejo. Fechara os olhos e, quase instantaneamente, ferrara no sono de novo.

Divertido, ele a sacudira de leve, mas ela não acordara. "Não faz mal, papai, Martin não vai... " E agora, lembrando-se das suas palavras, de como era linda, e do que sua mulher dissera a respeito da pílula, resolveu fazer uma verificação muito séria sobre Martin Haply. Por via das dúvidas.

— Ah, tai-pan, desculpe tê-lo feito esperar. Dunross levantou-se e apertou a mão estendida.

— É muita gentileza sua receber-me, sr. Tip. Lamento saber que está resfriado.

Tip Tok-toh estava na casa dos sessenta anos, era grisalho, tinha um rosto redondo e simpático. Usava um roupão, tinha os olhos vermelhos e o nariz entupido, a voz um pouco rouca.

— Temos um clima horrível. No fim de semana passado fui velejar com Shitee T'Chung, e devo ter pegado um golpe de ar.

Seu sotaque era ligeiramente americano, talvez canadense. Nem Dunross nem Alastair Struan jamais haviam conseguido que falasse sobre o seu passado, nem Johnjohn ou os outros banqueiros tinham ouvido falar dele nos círculos bancários na época da China nacionalista, antes de 1949. Até mesmo Shitee T'Chung e Phillip Chen, que o recebiam com festas suntuosas, nada conseguiam arrancar dele. Os chineses deram-lhe o apelido de "A Ostra".