— O tempo tem andado ruim — concordou Dunross, amavelmente. — Graças a Deus pela chuva.
Tiptop fez sinal para o homem ao seu lado.
— Este é um associado, sr. L'eung.
O sujeito era um tipo comum. Usava uma jaqueta parda maoísta e calças pardas. Sua fisionomia era fechada, fria e reservada. Fez um gesto de cabeça, que Dunross retribuiu. "Associado" podia cobrir uma infinidade de funções, desde patrão a intérprete, de comissário a guarda.
— Aceita um pouco de café?
— Obrigado. Já experimentou vitamina C para curar o seu resfriado?
Pacientemente, Dunross começou o bate-papo formal que antecederia o motivo real da visita. Na noite anterior, enquanto esperava por Brian Kwok no Quance Bar, resolvera que valia fazer uma tentativa quanto à proposta de Johnjohn. Por isso, ligara para Phillip Chen e pedira-lhe que solicitasse um encontro na manhã seguinte. Teria sido igualmente fácil ligar diretamente para Tiptop, mas não seria o protocolo chinês correto. O costume chinês exigia um intermediário mutuamente amistoso. Assim, se o pedido fosse recusado, ninguém perdia prestígio, nem quem pedia, nem aquele a quem o pedido era feito, e nem o intermediário.
Dunross prestava atenção apenas parcial a Tiptop, conversando polidamente, surpreso de ainda estarem falando em inglês, por causa de L'eung. Isso só podia significar que o inglês do homem também era perfeito e, possivelmente, que ele não entendia nem cantonense nem xangaiense, que Tiptop falava, e Dunross falava fluentemente. Esgrimiu com Tiptop, esperando a abertura que o banqueiro lhe daria. Finalmente, ela chegou.
— Este colapso de suas ações na Bolsa deve estar lhe causando preocupações, tai-pan.
— Está, sim, mas não é um colapso, sr. Tip, apenas uma readaptação. O mercado vai e vem.
— E o sr. Gornt?
— Quillan Gornt é Quillan Gornt, e está sempre tentando morder os nossos calcanhares. Todos os corvos sob os céus são negros — replicou Dunross, mantendo a voz natural, imaginando quanto o homem saberia.
— E a confusão do Ho-Pak? Também é uma readaptação?
— Não, não, esse é mesmo um problema. Infelizmente, parece que o Ho-Pak está sem sorte.
— É, sr. Dunross, mas a sorte não tem muito a ver com isso. É o sistema capitalista, além da incapacidade do Banqueiro Kwang.
Dunross ficou calado. Desviou os olhos momentaneamente para L'eung, que se sentava rigidamente imóvel, e muito atento. Seus ouvidos estavam concentrados, e sua mente também, buscando perceber as correntes ocultas do que era dito.
— Não tenho nada a ver com os negócios do sr. Kwang, sr. Tip. Infelizmente, a corrida ao Ho-Pak está se espalhando para os outros bancos, e isso é muito ruim para Hong Kong e também, acho eu, para a República Popular da China.
— Não para a República Popular da China. Como pode ser ruim para nós?
— A China é a China, o Reino Médio. Nós, da Casa Nobre, sempre consideramos a China como mãe e pai da nossa casa. Agora, nossa base em Hong Kong está sitiada, o que na verdade nada significa... apenas uma falta temporária de confiança, e de cerca de uma semana de dinheiro vivo. Nossos bancos têm todas as reservas, toda a fortuna e toda a força de que necessitam para atuar... para ajudar velhos amigos, velhos clientes, e a nós mesmos.
— Então por que não imprimem mais dinheiro, se a moeda é forte?
— É uma questão de tempo, sr. Tip. Não é possível para a Casa da Moeda imprimir suficiente dinheiro de Hong Kong.
— Mais pacientemente ainda, Dunross respondeu às perguntas, sabendo agora que a maioria delas eram feitas por causa de L'eung, o que indicava que L'eung era mais antigo que Tiptop, um membro mais graduado do partido, e não era banqueiro.
— Nossa solução provisória seria trazer para cá, imediatamente, alguns carregamentos por via aérea de libras esterlinas, para cobrir as retiradas.
Notou que os olhos de ambos os homens se estreitaram ligeiramente.
— Isso não iria apoiar o dólar de Hong Kong.
— É, nossos banqueiros sabem disso. Mas o Blacs, o Victoria e o Banco da Inglaterra decidiram que isso seria o melhor, provisoriamente. Simplesmente não temos dinheiro suficiente de Hong Kong para satisfazer todos os depositantes.
O silêncio tornou-se mais denso. Dunross esperava. Johnjohn lhe dissera que acreditava que o Banco da China não devia possuir reservas substanciais de libras por causa das restrições monetárias aos seus movimentos para e da Inglaterra, mas possuía quantias bem substanciais em dólares de Hong Kong, para os quais não havia restrições de exportação.
— Não seria nada bom que o dólar de Hong Kong ficasse enfraquecido — disse Tip Tok-toh. Assoou o nariz, ruidosamente. — Nada bom para Hong Kong.
— É.
Os olhos de Tip Tok-toh endureceram, e ele se debruçou para a frente.
— É verdade, tai-pan, que o Orlin Merchant Bank não vai renovar o seu crédito?
O coração de Dunross bateu mais depressa.
— É.
— E é verdade que o seu belo banco não quer cobrir esse empréstimo, nem adiantar-lhe o bastante para evitar o ataque da Rothwell-Gornt às suas ações?
— É — respondeu Dunross, muito satisfeito ao perceber que sua voz estava calma.
— E é verdade que muitos dos seus velhos amigos lhe recusaram crédito? — É.
— E é verdade que... Hiro Toda chega esta tarde e exige para breve o pagamento dos navios encomendados ao seu estaleiro japonês?
— É.
— E é verdade que Mata e Tung, e a sua Great Good Luck Company de Macau triplicaram a sua encomenda normal de ouro em barras, mas não querem ajudá-lo diretamente?
— É — replicou Dunross, sua já aguçada concentração aumentando.
— E é verdade que os cães soviéticos hegemonistas solicitaram, mais uma vez, atrevidamente, muito, muito atrevidamente, licença para operar bancos em Hong Kong?
— Creio que sim. Johnjohn me contou que sim. Não tenho certeza, mas imagino que ele não me contaria uma inverdade.
— O que foi que ele lhe disse?
Dunross repetiu o comentário palavra por palavra, encerrando com:
— Sem dúvida a solicitação seria recusada por mim, as diretorias de todos os bancos britânicos, todos os tai-pans e o governador. Johnjohn também disse que os hegemonistas tiveram a desfaçatez de oferecer quantias substanciais e imediatas em dólares de Hong Kong para auxiliá-los na dificuldade atual.
Tip Tok-toh acabou seu café.
— Aceita mais um pouco?
— Obrigado — aceitou Dunross. Notou que L'eung serviu o café, e sentiu que tinha dado um grande passo à frente. Na noite anterior, mencionara delicadamente o banco de Moscou a Phillip Chen, sabendo que Phillip saberia como passar adiante a informação, o que naturalmente indicaria a um homem astuto como Tiptop o motivo real da urgência do encontro, e assim dar-lhe-ia tempo necessário para entrar em contato com a pessoa que tomava as decisões, que avaliaria a sua importância e os meios de concordar, ou não. Dunross podia sentir um brilho de suor na testa, e rezou para que nenhum dos homens à sua frente o notasse. Sua ansiedade faria subir o preço... caso fosse feito algum negócio.
— Terrível, terrível — disse Tiptop, pensativo. — Tempos terríveis! Velhos Amigos abandonando Velhos Amigos, inimigos sendo bem-vindos ao lar... terrível. Ah, a propósito, tai-pan, um dos nossos Velhos Amigos pediu-me que lhe perguntasse se poderia providenciar para ele um carregamento de mercadorias. Óxido de tório, acho que era.
Com grande esforço Dunross manteve a fisionomia serena. O óxido de tório era um óxido raro, o ingrediente essencial para camisas de lampião a gás à moda antiga: fazia com que a camisa emitisse sua brilhante luz branca. No ano anterior, soubera por acaso que Hong Kong se havia tornado recentemente o seu maior usuário, depois dos Estados Unidos. Sua curiosidade aumentara, pois a Struan não estava envolvida no que obviamente era um comércio lucrativo. Logo descobriu que o acesso ao material era relativamente fácil, e que o comércio era prodigioso, muito secreto, realizado por vários pequenos importadores, todos muito imprecisos quanto aos seus negócios. Na natureza, o tório ocorria em vários isótopos radioativos. Alguns deles eram facilmente convertidos em urânio fissionável 235, e o tório 232 por si só era um material criador imensamente valioso para um reator nuclear. Naturalmente, esse e muitos outros derivados do tório eram materiais estratégicos restritos, mas ele ficara espantadíssimo ao saber que o óxido e o nitrato, facilmente conversíveis quimicamente, não o eram.