Выбрать главу

Nunca pôde descobrir para onde realmente iam os óxidos de tório. Claro que para a China. Há bastante tempo que ele e outros vinham suspeitando que a RPC tinha um programa atômico intensivo, embora todos acreditassem que estivesse ainda em fase de projeto, e a pelo menos dez anos de sua consecução. Pensar na China possuidora de armas nucleares enchia-o de sentimentos contraditórios. Por um lado, qualquer proliferação nuclear era perigosa; por outro, como potência nuclear, a China instantaneamente se tornaria uma rival formidável da Rússia soviética, até mesmo uma ameaça, certamente invencível, especialmente se também tivesse os meios de desfechar um ataque de retaliação.

Dunross notou que os dois homens olhavam para ele. A veiazinha da testa de L'eung pulsava, embora seu rosto estivesse impassível.

— Isso seria possível, sr. Tip. De quanto precisariam, e para quando?

— Acredito que imediatamente, o máximo que puder ser obtido. Como sabe, a RPC está tentando se modernizar, mas grande parte da nossa iluminação ainda é a gás.

— Naturalmente.

— Onde obteria os óxidos e os nitratos?

— A Austrália seria provavelmente o meio mais rápido, embora não tenha idéia, no momento, da qualidade. Fora dos Estados Unidos — acrescentou delicadamente —, só são encontrados na Tasmânia, no Brasil, na Índia, na África do Sul, na Rodésia e nos montes Urais... onde se encontram em abundância. — Nenhum dos dois homens sorriu. — Imagino que a Tasmânia e a Rodésia seriam os melhores locais. Há alguém com quem Phillip e eu devamos tratar?

— Com o sr. Vee Cee Ng, no Edifício Princes. Dunross engoliu um assobio, enquanto encaixava outro pedaço do quebra-cabeça. O sr. Vee Cee Ng, Ng Fotógrafo, era grande amigo de Tsu-yan, o Tsu-yan desaparecido, seu velho amigo e associado que fugira misteriosamente para a China, cruzando a fronteira em Macau. Tsu-yan fora um dos importadores de tório. Até agora, a ligação não lhe parecera importante.

— Conheço o sr. Ng. A propósito, como vai meu velho amigo Tsu-yan?

L'eung ficou obviamente sobressaltado. "Bem na mosca", pensou Dunross, sombriamente, chocado por nunca ter suspeitado de que Tsu-yan fosse comunista, ou tivesse tendências comunistas.

— Tsu-yan? — Tiptop franziu o cenho. — Há mais de uma semana não o vejo. Por quê?

— Ouvi dizer que estava visitando Pequim, via Macau.

— Curioso! Muito curioso. Por que iria querer fazer isso... um arquicapitalista? Bem, as surpresas nunca cessam. Se tiver a gentileza de entrar em contato diretamente com o sr. Ng, estou certo de que ele lhe dará os detalhes.

— Farei isso hoje mesmo, logo que chegar ao escritório. Dunross esperou. Haveria outras concessões antes que eles fornecessem o que ele buscava, se é que seria fornecido. Sua cabeça fervilhava com as implicações do primeiro pedido: como obter os óxidos de tório, se deveria obtê-los. Queria saber a quantas ia a RPC com o seu programa atômico, sabendo que jamais lhe contariam. L'eung pegou um maço de cigarros e lhe ofereceu um.

— Não, obrigado.

Os dois outros homens acenderam seus cigarros. Tiptop tossiu e assoou o nariz.

— É curioso, tai-pan — disse —, muito curioso que o senhor se esforce tanto para ajudar o Victoria e o Blacs, e todos os seus bancos capitalistas, enquanto corre o forte boato de que eles não o ajudarão nas suas dificuldades.

— Talvez enxerguem o quanto estão errados — disse Dunross. — Às vezes é necessário esquecer interesses atuais para o bem comum. Seria ruim para o Reino Médio se Hong Kong fraquejasse. — Notou o escárnio no rosto de L'eung, mas nem se incomodou. — Um antigo preceito chinês diz que não se devem esquecer os Velhos Amigos, os amigos de confiança, e enquanto eu for tai-pan da Casa Nobre e tiver poder, sr. Tip, eu e os que são como eu... o sr. Johnjohn, por exemplo, e o governador... dedicaremos amizade eterna ao Reino Médio e jamais permitiremos que os hegemonistas floresçam na nossa rocha árida.

Tiptop disse, vivamente:

— É a nossa rocha árida, Sr. Dunross, que está sendo atualmente administrada pelos britânicos, não é?

— Hong Kong é e sempre foi solo do Reino Médio.

— Aceitarei sua definição, por enquanto, mas tudo em Kowloon e nos Novos Territórios ao norte da Boundary Road reverterá para nós daqui a uns trinta e cinco anos, não é? Mesmo que vocês aceitem os Tratados Desiguais impostos aos nossos antepassados, que nós não aceitamos.

— Meus antepassados sempre acharam seus Velhos Amigos sensatos, muito sensatos, incapazes de cortar fora os seus Talos para irritar um Portão de Jade.

Tiptop achou graça. L'eung continuou de cara fechada e hostil.

— O que prevê que acontecerá em 1997, sr. Dunross?

— Não sou o Velho Cego Tung, nem um vidente, sr. Tip. — Dunross deu de ombros. — Que 1997 cuide de 1997. Velhos Amigos ainda precisarão de Velhos Amigos, heya?

Depois de uma pausa, Tiptop disse:

— Se o seu banco não ajudar a Casa Nobre, nem os Velhos Amigos, nem o Orlin, como continuará sendo a Casa Nobre?

— Meu antepassado, o Demônio de Olhos Verdes, teve que responder à mesma pergunta feita pelo Grande e Honorável Jin-qua, quando estava sendo acossado pelos inimigos, Tyler Brock e sua escória. Apenas riu e disse: "Neng che to lao, um homem capaz tem muitos fardos". Como sou mais capaz do que a maioria, tenho que suar mais do que a maioria. Tip Tok-toh sorriu com ele.

— E está suando, sr. Dunross?

— Bem, coloquemos a coisa nestes termos — disse Dunross, alegremente: — estou tentando evitar o octagésimo quarto. Como sabe, Buda disse que todos os homens têm oitenta e três fardos. Se conseguimos eliminar um deles, automaticamente adquirimos outro. O segredo da vida é adaptar-se aos oitenta e três e evitar a todo custo adquirir o octagésimo quarto.

O homem mais velho sorriu.

— Já considerou a venda de parte de sua companhia, talvez até cinqüenta e um por cento?

— Não, sr. Tip. O velho Demônio de Olhos Verdes nos proibiu isso. — As ruguinhas ao redor dos olhos de Dunross apareceram, quando sorriu. — Ele queria que suássemos.

— Torçamos para que o senhor não sue demais. É. — Tiptop apagou o cigarro. — Em épocas difíceis, seria bom para o Banco da China ter uma ligação mais estreita com o seu sistema bancário. Assim, essas crises não seriam tão contínuas.

Prontamente, os pensamentos de Dunross deram um salto à frente.

— Será que o Banco da China consideraria a possibilidade de um contato permanente postado dentro do Vic, e um equivalente no seu banco? — Notou o sorriso fugaz e soube que adivinhara corretamente. — Isso asseguraria um controle íntimo de qualquer crise, e lhes daria assistência, caso viessem a precisar de assistência internacional.

— O presidente Mao aconselha a auto-ajuda, e é o que estamos fazendo. Mas a sua sugestão pode ser válida. Terei prazer em passá-la adiante.

— Estou certo de que o banco ficaria grato se o senhor recomendasse alguém para ser o seu contato no grande Banco da China.

— Também terei prazer em passar isso adiante. Acha que o Blacs ou o Victoria adiantariam o câmbio externo necessário para as importações do sr. Ng?

— Estou certo de que ficariam encantados em ser úteis, o Victoria sem dúvida. Afinal de contas, o Victoria tem mais de um século de associação com a China. Não foi instrumento importante na realização da maioria dos seus empréstimos externos, para ferrovias, aviões?