— A idéia de qualquer um possuir foguetes com bombas A ou H me enche de horror.
— São apenas as armas de hoje, sr. Dunross, apenas as armas de hoje.
— Santo Deus! — exclamou Johnjohn, estupefato. Havergill estava igualmente chocado.
— O sr. Joseph Yu é mesmo dos bons, Ian?
— Com certeza. Liguei para um amigo em Washington. Yu é um dos dois ou três melhores do mundo... foguetes e combustível para foguetes. — Tinham acabado de almoçar. Dunross acabara de contar-lhes o que transpirara pela manhã. — Também é verdade que ninguém sabe que vai cruzar a fronteira, ou até mesmo que saiu do Havaí, onde pensam que está de férias... disse-me que viajou para cá abertamente.
— Pombas! — manifestou-se Johnjohn de novo. — Se a China conseguir peritos como ele... — Ficou girando o cortador de papel que estava na mesa de Havergill. — Ian, já pensou em avisar Roger Crosse, ou Rosemont, para impedir isso?
— Claro, mas não posso fazê-lo. Simplesmente não posso.
— Claro que Ian não pode! Já pensou no que está em jogo? — Havergill indicou a janela com um movimento brusco do polegar. Catorze andares abaixo, podia-se ver uma turba impaciente e zangada tentando entrar no banco, a polícia agora mal conseguindo contê-la. — Não vamos nos iludir. A corrida começou, estamos chegando ao fundo do saco. Mal temos dinheiro para passar o dia, mal temos dinheiro para pagar os funcionários públicos. Graças a Deus amanhã é sábado! Se o Ian diz que existe uma chance de conseguirmos o dinheiro da China, claro que ele não pode se arriscar a revelar uma confidencia dessas! Ian, soube que o Ho-Pak fechou as portas?
— Não. Tenho voado daqui para Iá como uma mosca-varejeira desde que deixei o Tiptop.
— O Ching Prosperity também fechou. O Far East and índia está balançando. O Blacs está distribuindo suas reservas e, como nós, rezando para que elas durem a meia hora que falta para o fim do expediente. — Empurrou o telefone pela escrivaninha prístina. — Ian, por favor, ligue agora para o Tiptop. São duas e meia.
Dunross manteve a fisionomia séria e a voz serena.
— Há algumas coisas a acertar primeiro, Paul. E quanto às importações de tório? — Contara-lhe que entrara em contato com Ng Fotógrafo, que alegremente lhe dera uma encomenda imediata para o máximo de óxido raro que pudessem obter. — Você arranjará as operações cambiais no exterior?
— Sim, desde que o comércio não seja proibido.
— Vou precisar disso por escrito.
— Você o receberá antes da hora do encerramento do expediente. Por favor, ligue agora para ele.
— Daqui a dez minutos. É uma questão de prestígio. Concorda em ter um contato permanente do Banco da China no prédio?
— Sim. Estou certo de que eles jamais permitirão que um dos nossos entre no prédio deles, mas tudo bem. — Havergill olhou de novo para o relógio, depois para Johnjohn. — O sujeito teria que ser controlado, e talvez tivéssemos que mudar algumas normas de segurança, certo?
Johnjohn concordou.
— É, mas isso não deverá causar problemas, Paul. Se fosse o Tiptop em pessoa, seria perfeito. Acha que há chance disso, Ian?
— Não sei. Bem, e quanto às encomendas do Yu?
— Não podemos financiar contrabando — disse Havergill. — Isso fica por sua conta.
— E quem falou em contrabando?
— É. Bem, digamos que será preciso examinar atentamente as encomendas do Yu, quando e se a sua assistência for solicitada, Ian.
— Qual é, Paul! Você sabe muito bem que isso faz parte do acordo... se houver um acordo. Por que outro motivo iriam querer que eu o conhecesse? Johnjohn se intrometeu.
— Por que não adiar esse problema, Ian? Faremos o impossível para dar-lhe assistência, quando chegar a hora. Você disse ao Yu a mesma coisa, que ia esperar para ver, mas não assumiu nenhum compromisso, não foi?
— Mas vocês concordam em ajudar a me dar assistência de todas as maneiras?
— Concordamos, quanto a isso e quanto ao tório.
— E quanto ao meu empréstimo?
— Não tenho permissão para concedê-lo, Ian — disse Paul Havergill. — Já discutimos esse assunto.
— Então convoque uma reunião de diretoria imediatamente.
— Vou pensar. Vamos ver como estão indo as coisas, está bem? — Paul Havergill apertou um botão e falou no pequeno microfone: — Bolsa de Valores, por favor.
Dali a um momento ouviu-se uma voz pelo alto-falante. Ao fundo, ouvia-se o pandemônio.
— Pronto, sr. Havergill.
— Charles, quais são as últimas?
— O mercado inteiro baixou vinte e oito pontos... — Os dois banqueiros empalideceram. A pequena veia na testa de Dunross pulsava — e parece que está havendo um começo de pânico. O banco baixou sete pontos, a Struan baixou para 11, 50...
— Santo Deus! — murmurou Johnjohn.
— ... a Rothwell-Gornt baixou sete, a Companhia de Força de Hong Kong baixou cinco, a Asian Land, onze... está tudo em perigo. Todas as ações de bancos estão caindo vertiginosamente. O Ho-Pak congelou a 12, e quando descongelar, baixará para 1 dólar. O Far East and índia está pagando apenas um máximo de mil por cliente.
O nervosismo de Havergill aumentou. O Far East era um dos maiores bancos da colônia.
— Detesto ser pessimista, mas está parecendo Nova York em 1929! Acho... — A voz foi abafada por uma explosão de gritos. — Desculpe, há uma outra grande oferta de venda das ações da Struan: duzentas mil ações...
— Pombas, de onde está vindo essa quantidade toda de ações? — perguntou Johnjohn.
— De todos os Fulanos, Beltranos e Sicranos de Hong Kong — disse Dunross friamente. — Inclusive o Victoria.
— Tivemos que proteger nossos investidores — disse Havergill, acrescentando ao microfone: — Obrigado, Charles. Ligue para mim de novo às quinze para as três. — Desligou o alto-falante. — Eis a sua resposta, Ian. Não posso, em sã consciência, recomendar à diretoria que salvemos sua pele com outro empréstimo de dez milhões sem garantia.
— Vai convocar uma reunião de diretoria imediatamente ou não?
— Suas ações estão caindo vertiginosamente. Não tem bens que sirvam de garantia para "bancar" a corrida às suas ações, seus títulos bancários já estão penhorados, as ações readquiridas pela sua companhia valem menos a cada minuto. Na segunda ou na terça Gornt vai comprar o que vendeu, e então controlará a Struan.
Dunross fitava-o.
— Vai deixar o Gornt assumir o controle da companhia? Não acredito. Vocês vão recomprar antes dele. Ou já fizeram um acordo para dividir a Struan entre os dois?
— Nenhum acordo. Ainda não. Mas se você pedir demissão da Struan neste momento, concordar por escrito em nos vender quantas ações readquiridas pela sua companhia quisermos, ao preço de mercado no encerramento do pregão de segunda, se concordar em indicar um novo tai-pan, escolhido pela nossa diretoria, comunicaremos que daremos apoio integral à Struan.
— Quando fariam essa comunicação?
— Na segunda, às quinze horas e dez minutos.
— Em outras palavras: não me estarão dando nada.
— Você sempre disse que a melhor coisa de Hong Kong era ser uma praça de mercado livre, onde os fortes sobrevivem e os fracos perecem. Por que não persuadiu Sir Luís a retirar suas ações do pregão?
— Ele fez essa sugestão. Eu a recusei.
— Por quê?
— A Struan continua forte como sempre.
— O motivo real não foi o prestígio... e o seu orgulho idiota? Desculpe, não há nada que eu possa fazer para impedir o inevitável.
— Porra! — exclamou Dunross, e Havergill enrubesceu. — Pode convocar uma reunião. Pode...
— Nada de reunião!
— Ian! — Johnjohn tentou suavizar a hostilidade declarada entre os dois homens. — Escute, Paul, que tal um acordo? Se, através do Ian, conseguirmos o dinheiro vivo da China, você convocará uma reunião de diretoria imediatamente, uma reunião extraordinária, ainda hoje. Você pode fazer isso... há um número suficiente de diretores na cidade, e seria justo, não é?