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Dunross soltou um suspiro. Sua noite com Jade de Neve fora impecável. E cheia de risos.

— Não como sobremesa — replicara ele, prontamente. — Estou de dieta.

— Oh ko, você, não, tai-pan. Eu o ajudo a perder peso, pode deixar.

— Obrigado, mas nada de sobremesa, e nunca em Hong Kong.

— Ah! Quatro Dedos disse que você diria isso, tai-pan, e para eu não me sentir envergonhada. — Ela abrira um amplo sorriso e servira-lhe um uísque. — Devo dizer: "Tenho passaporte, estou disposta a viajar".

Os dois riram juntos.

— O que mais disse Quatro Dedos?

Ela tocara os lábios com a ponta da língua.

— Só que os demônios estrangeiros são muito esquisitos, em algumas coisas. Como em dizer "nada de sobremesa!" Como se isso importasse. — Ela o observara. — Nunca estive com um bárbaro antes.

— É? Alguns de nós até que são bastante civilizados. Dunross sorriu consigo mesmo, lembrando-se de como se sentira tentado, das brincadeiras deles, da esplêndida refeição, tudo alegre e satisfatório. "É. Mas isso não desculpa aquele filho da mãe do Quatro Dedos, nem a meia moeda, nem o roubo da meia moeda", pensou, sombriamente, "nem a armadilha que ele acha que preparou para mim. Mas tudo isso fica para mais tarde. As primeiras coisas em primeiro lugar. Concentre-se, há muito o que fazer, antes de dormir esta noite!"

A lista que Claudia lhe entregara era longa, a maioria dos telefonemas, urgentes, e havia duas horas de trabalho à sua frente. Tiptop não estava na lista, nem Lando Mata, Tung Pão-Duro, Quatro Dedos ou Paul Choy. Casey e Bartlett estavam. E Travkin, Robert Armstrong, Jacques de Ville, Gavallan, Phillip Chen, Dianne Chen, Alan Holdbrook — o corretor interno da Struan —, Sir Luís e dúzias de outros espalhados por todo o mundo.

— Atacaremos a lista depois de Hiro Toda, Claudia.

— Sim, senhor.

— Depois de Toda, quero ver Jacques... depois Phillip Chen. Alguma novidade sobre a sra. Riko Gresserhoff?

— O avião dela é esperado às dezenove horas. Tem reserva no Vic, alguém irá recebê-la. Já mandei pôr flores no quarto dela.

— Obrigado.

Dunross entrou na sua sala e ficou olhando pela janela. Por enquanto fizera tudo o que fora possível pela Casa Nobre e por Hong Kong. Agora, ficava por conta da sua sorte. E o próximo problema. Os navios. Sua excitação aumentou.

— Alô, tai-pan.

— Alô, Hiro — cumprimentou Dunross, apertando calorosamente a mão estendida.

Hiro Toda, gerente-administrativo das Indústrias de Navegação Toda, regulava em idade com Dunross. Era esbelto, rijo e muito mais baixo, olhos sábios e sorriso fácil, o sotaque levemente americano devido a dois anos de pós-graduação na ucla¹ no final da década de 40.

¹ Universidade da Califórnia, em Los Angeles. (N. da T. )

— Posso apresentar-lhe meus associados? Sr. Kazunari, sr. Ebe, sr. Kasigi.

Os três homens mais moços curvaram-se, e Dunross curvou-se também. Todos vestiam ternos escuros bem-talhados, camisas brancas e gravatas discretas.

— Queiram sentar-se.

Dunross fez um gesto despreocupado para as cadeiras em volta da pequena mesa de reuniões. A porta se abriu e sua assistente e intérprete japonesa, Akiko, entrou. Trazia consigo uma bandeja com chá verde. Apresentou-se, serviu o chá delicadamente, depois sentou-se perto de Dunross. Embora o japonês dele fosse bom o suficiente para uma reunião de negócios, a presença dela era necessária por uma questão de prestígio.

Parcialmente em japonês, parcialmente em inglês, ele começou a conversa cortês sobre assuntos inconseqüentes que, segundo os costumes japoneses, precediam uma conversa séria. Era também costume japonês que as reuniões de negócios fossem compartilhadas por muitos executivos. Quanto mais importante o executivo, maior o número de acompanhantes.

Dunross esperava pacientemente. Gostava de Hiro Toda, chefe titular do grande conglomerado de navegação fundado por seu bisavô, há quase cem anos. Seus antepassados eram daimios, senhores feudais, até que o feudalismo e a classe samu-rai foram abolidos em 1870, e teve início o Japão moderno. Sua autoridade na Toda era externamente todo-poderosa, mas, como acontecia com freqüência no Japão, todo o poder real estava centralizado nas mãos do pai, de setenta e três anos, que, ostensivamente, estava aposentado.

Finalmente, Toda foi ao assunto.

— Esse colapso do mercado de capitais deve estar lhe causando muita preocupação, tai-pan.

— Uma perda temporária de confiança. Tenho certeza de que tudo se arranjará durante o fim de semana.

— Ah, sim. Eu também espero.

— Quanto tempo vai demorar, Hiro?

— Até domingo. É, domingo. Depois, sigo para Cingapura e Sydney. Estarei de volta para fechar o nosso negócio com você na semana que vem. Folgo em dizer-lhe que seus navios estão adiantados. — Toda colocou um maço de papéis sobre a mesa. — Eis aqui um relatório detalhado.

— Excelente! — Dunross partiu para o ataque, abençoando os deuses e Alan M. Grant e Kirk. Enquanto voltava para casa, à noite, subitamente se dera conta da importância da chave que Alan e Kirk lhe haviam dado para um plano no qual estava trabalhando há quase um ano. — Quer que adiantemos as datas de pagamento?

— Ah! — O outro disfarçou sua surpresa. — Talvez eu possa discutir isso mais tarde com meus colegas, mas folgo em saber que tudo está sob controle, a tentativa de compra do controle acionário foi neutralizada.

— Não foi Sun Tse que disse: "Aquele que não exerce seu poder de previsão e faz pouco dos seus oponentes sem dúvida será capturado por eles"? Claro que o Gornt está mordendo os nossos calcanhares, claro que a corrida aos nossos bancos é séria, mas o pior já passou. Está tudo bem. Não acha que devíamos ampliar a quantidade de negócios que estamos fazendo juntos?

— Dois navios, tai-pan? — sorriu Toda. — Gigantescos, pelos padrões atuais. Em um ano? Não é uma transação de somenos importância.

— Talvez pudessem ser vinte e dois navios — disse, exteriormente despreocupado, mas totalmente concentrado. — Tenho uma proposta para você, na verdade para todos os complexos industriais japoneses de construção naval. No momento, vocês apenas constróem navios e os vendem, ou para gaijin — estrangeiros — como nós, por exemplo, ou para armadores japoneses. Quando vendem aos japoneses, seus custos operacionais com o alto custo das tripulações japonesas, que, por lei, vocês têm que levar, já estão se tornando não-competitivos, como os navios americanos com as tripulações americanas. Em breve não poderão competir com os gregos, com outros e conosco, porque nossos custos serão muito mais baixos.

Dunross viu que todos se concentravam em Akiko, que traduzia quase simultaneamente, e pensou com alegria em outra máxima de Sun Tse: "Em todas as lutas, o método direto pode ser usado para dar início à batalha, mas o método indireto será necessário para assegurar a vitória". A seguir, continuou:

— Segundo ponto: o Japão tem que importar tudo de que precisa para sustentar sua economia e seu padrão de vida crescentes, seu complexo industrial, e com certeza noventa e cinco por cento de toda a energia necessária para mantê-los. O petróleo é a chave para o futuro. O petróleo tem que vir até vocês por mar, assim como toda a sua matéria-prima a granel... sempre levada até vocês por imensos cargueiros. Sempre por mar. Estão construindo os grandes navios com muita eficiência, mas como armadores seus custos operacionais e a sua estrutura interna de impostos vão tirá-los do mercado. Minha proposta é simples: parem de tentar ser os donos das suas frotas mercantes pouco econômicas. Vendam os navios para o exterior e arrendem-nos em seguida.

— Como?

Dunross viu que olhavam para ele, atônitos. Esperou um momento, depois continuou:

— A vida de um navio é de, digamos, quinze anos. Vocês nos vendem o cargueiro gigante, mas, como parte do negócio, arrendam-no por quinze anos. Nós fornecemos o comandante e a tripulação. Antes da entrega, vocês fretam o navio para a Mitsubishi, ou outra de suas grandes companhias, para suprimentos a granel durante quinze anos: carvão, minério de ferro, arroz, trigo, petróleo, o que quiserem. Esse sistema garantirá ao Japão um fornecimento contínuo de matéria-prima, estabelecido ao seu bel-prazer, e controlado por japoneses. A Japan Inc. pode aumentar-lhes o seu financiamento, porque vocês mesmos, de fato, são os transportadores de suas matérias-primas vitais.