"Suas indústrias poderão fazer planos antecipados. A Japan Inc. poderá se dar ao luxo de dar assistência financeira aos compradores dos seus navios, porque o preço da compra será facilmente coberto pelo contrato de fretamento de quinze anos. E como os navios estarão num sistema de fretamento a longo prazo, nossos banqueiros, como o Blacs e o Victoria, também terão prazer em financiar o restante. Todos ganharão. Vocês ganharão mais porque assegurarão uma linha de fornecimento a longo prazo sob seu controle. E ainda não mencionei as vantagens fiscais, especialmente para as Indústrias Toda!"
Dunross levantou-se em meio a um silêncio mortal, observado pelos outros, e foi até sua escrivaninha. Trouxe consigo alguns relatórios grampeados.
— Eis aqui um estudo fiscal feito pelo nosso pessoal no Japão com exemplos específicos, incluindo métodos para depreciar o custo do navio para lucro adicional. Eis um plano sugerido para os cargueiros grandes. Este aqui documenta vários modos pelos quais a Struan poderia assisti-los nos seus freta-mentos, caso fiquemos entre os embarcadores estrangeiros escolhidos. Por exemplo, as Minas Woolara, da Austrália, estão preparadas para, seguindo orientação nossa, fazer um contrato com as Indústrias Toda e fornecer noventa e cinco por cento da sua produção de carvão durante cem anos.
Toda soltou uma exclamação abafada. Os outros também, depois que Akiko traduziu. As Minas Woolara eram uma mina imensa, altamente eficiente e produtiva.
— Poderíamos dar-lhes assistência na Austrália, que é o tesouro da Ásia, fornecendo todo o cobre, trigo, alimentos, frutas, minério de ferro de que precisarem. Soube, particularmente, que existem novos e imensos depósitos de minério de ferro de alta qualidade recém-descobertos na Austrália Ocidental, não longe de Perth. Há urânio, petróleo, tório, e outros materiais preciosos de que precisam. Lã. Arroz. Com o meu plano, vocês poderiam controlar o seu próprio fluxo de materiais, os embarcadores estrangeiros obteriam navios e um fluxo de caixa constante para financiar e encomendar mais navios, para arrendá-los, para transportar mais e mais matéria-prima e mais carros, mais aparelhos de TV, mais material eletrônico, e mais mercadoria remetida para os Estados Unidos... e maquinarias da indústria pesada para o resto do mundo. Por último, voltando à mais vital das suas importações: o petróleo. Eis aqui um projeto sugerido para uma nova frota de petroleiros, cada um com capacidade de meio milhão a um milhão de toneladas.
Toda soltou uma exclamação abafada e terminou a tradução ele próprio, abruptamente. Atônitos, todos respiraram fundo quando ele mencionou a cifra de meio milhão a um milhão de toneladas.
Dunross recostou-se, curtindo a tensão. Viu que eles se entreolhavam, depois olhavam para Toda, esperando sua reação.
— Eu... acho melhor estudarmos suas propostas, tai-pan — disse Toda, tentando manter a voz normal. — É óbvio que são de amplo alcance. Podemos entrar em contato com o senhor mais tarde?
— Sim. Comparecerão às corridas amanhã? O almoço será às doze e quarenta e cinco.
— Sim, obrigado, se não for muito trabalho — disse Toda, com nervosismo repentino —, mas seria impossível termos uma resposta a essa altura.
— Naturalmente. Estão de posse de seus convites e crachás?
— Sim, obrigado. Eu... bem... espero que tudo saia bem para você. Sua proposta realmente parece ser de amplo alcance.
Retiraram-se. Por um momento, Dunross permitiu-se saborear a emoção. "Estão no papo", pensou. "Pombas, daqui a um ano poderemos ter a maior frota da Ásia, totalmente financiada, sem nenhum risco para o financiador, construtor, operador ou fornecedor, com petroleiros, enormes petroleiros como núcleo... se pudermos agüentar este tufão.
"Só é preciso um pouco de sorte. Tenho que dar um jeito de evitar o colapso até terça-feira, quando assinamos com a Par-Con. A Par-Con pagará os nossos navios. Mas e quanto ao Orlin, e quanto ao Gornt?
— O sr. Jacques já está subindo, tai-pan. O sr. Phillip está na sala dele, e subirá quando o senhor estiver pronto. Roger Crosse telefonou. Seu compromisso será às dezenove horas, e não às dezoito. Disse que o avião do sr. Sinders está atrasado. Já informou ao governador e às demais pessoas necessárias.
— Obrigado, Claudia. — Deu uma olhada na sua lista de telefonemas. Ligou para o Vic e perguntou por Bartlett. Não estava. — A srta. Tcholok, por favor.
— Alô?
— Alô! Ian Dunross, respondendo ao seu telefonema, e ao do sr, Bartlett. Como vão as coisas?
Uma ligeira pausa.
— Interessantes. Tai-pan, posso vê-lo?
— Claro. Que tal uns drinques no Mandarim às dezoito e quinze? Isso me daria cerca de meia hora antes do meu próximo compromisso. Certo?
Sentiu uma pontada de ansiedade ao pensar em Sinders, Crosse e na advertência de Alan de jamais entregar as pastas.
— Seria possível eu dar uma passadinha no seu escritório? Posso sair daqui agora e chegar aí dentro de meia hora mais ou menos. Tenho uma coisa para discutir com você. Demorarei o mínimo possível.
— Tudo bem. Talvez tenha que fazê-la esperar um minuto ou dois, mas pode vir.
Desligou o telefone, de testa franzida. "O que estará havendo por Iá?"
A porta se abriu e Jacques de Ville entrou. Parecia preocupado e esgotado.
— Queria falar comigo, tai-pan?
— Sim, Jacques, sente-se. Pensei que você ia tomar o avião de ontem à noite.
— Conversamos, Susanne e eu, e ela achou que era melhor para Avril eu esperar um ou dois dias...
Dunross escutava fascinado enquanto conversavam, ainda abismado de que Jacques pudesse ser agente comunista. Mas, agora, já havia analisado a possibilidade. Teria sido facilmente possível para Jacques, sendo jovem, idealista e um dos maquis durante a terrível e odiada ocupação nazista na França, ter tido o seu nacionalismo idealista e seus sentimentos antinazistas canalizados para o comunismo. "Ora, então a Rússia não era nossa aliada, naquela época? O comunismo não estava na moda em toda parte, até mesmo nos Estados Unidos? Marx e Lênin não pareciam ser tão sensatos, então? Então. Antes de sabermos a verdade sobre Stálin, os gulags, o KGB. Estado policial, assassinatos em massa, conquistas em massa, e jamais a liberdade. "
Mas como podia toda aquela baboseira comunista perdurar, para alguém como Jacques? Como podia alguém como Jacques ter tais convicções e mantê-las ocultas durante tanto tempo... se realmente ele era o agente da Sevrin que Alan dissera ser?
— O que acha do Grey? — perguntou Dunross.
— Um crétin completo, tai-pan. É de extrema esquerda demais para o meu gosto. Considero até o Broadhurst um pouco esquerdista demais. Já que... vou ficar agora, posso voltar a cuidar de Bartlett e Casey?
— Não, por ora eu cuido deles, mas encarregue-se você do contrato.
— Já está sendo redigido. Conversei com nossos advogados. Um ligeiro problema. Dawson encontrou-se com o advogado de Bartlett, sr. Steigler, hoje de manhã. O sr. Steigler quer renegociar a tabela de pagamento, e adiar a assinatura até o fim da semana que vem.
Uma onda de fúria invadiu Dunross. Tentou não deixá-la transparecer. "Vai ver que este é o motivo pelo qual Casey quer encontrar-se comigo", pensou.
— Cuido disso — falou, adiando o problema devido ao mais premente: Jacques de Ville, que devia ser considerado inocente até que se provasse a sua culpa.